Excepcionalmente nesta edição organizamos a seção Debate com os dois textos correndo paralelos nas páginas. Isto porque, dialoguem entre si, não se opõem, ainda que tratem em níveis diferenciados do mesmo tema.
Ou seja, ambos se lançam à crítica do texto de Iumna Maria Simon, “A cidadania de pé quebrado“, que publicamos na T&D nº 26, e que crítica o poema Por um Brasil-Cidadão que Haroldo de Campos produziu para a campanha Lula-94.
Os textos que ora apresentamos são do poeta, tradutor e ensaísta Nelson Ascher e do professor e ensaísta Boris Schnaiderman. São artigos veementes, embora em tons diferentes. A paixão que a discussão da poesia despertou, certamente é incomparável ao tom discreto e às vezes até morno que os nossos debatedores de política ou economia têm utilizado no decorrer dos sete anos desta publicação. “Mais fácil aprender japonês em braile?”
Complementando o debate, a equipe de T&D preparou um pequeno texto sobre “Jdanov e o ‘jdanovismo'”, uma vez que o poderoso ideológo da Cultura e das artes soviéticas no auge do período stalinista é citado com freqüência.
Iumna Maria Simon, professora de literatura da Unicamp, publicou, no último número de T&D, um extenso artigo – “A cidadania de pé quebrado” – sobre “Por um Brasil-Cidadão”, poema que Haroldo de Campos escreveu, a pedido do PT, para a campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. Esse artigo não é uma peça de crítica literária, mas um ataque político – com o p minúsculo da politicagem de bastidores e corredores universitários – dirigido menos ao poema que ao poeta.
O poema nunca, em nenhum momento, está realmente em questão. O texto de Haroldo é mero pretexto para se acusar o autor que, aliás, já estava condenado de antemão pela professora. Como no cinema, ela parece dizer: “Nós lhe prometemos um julgamento justo e uma execução indolor”. Fosse outro o poeta, o poema mereceria veredicto diferente.
Quais as acusações? Haroldo é, para ela, “uma dessas figuras” (…) “comprometidas até a raiz dos cabelos com o obscurantismo e a desqualificação pela mídia, pelo capital e pela cultura enlatada made in Brazil.” Ele é também culpado de “primarismo poético e ideológico”, o que a leva a perguntar se “haverá convicção na sua aposta poético-política”. Conclusão: trata-se de simples oportunismo para “ganhar a simpatia de uma faixa ampla e diferenciada de leitores”, pois seu apoio ao PT está entre “adesões políticas, mesmo que momentâneas”, decorrentes de “motivos inesperados”, mais precisamente da posição favorável do partido nas pesquisas de opinião, e de seu desejo de “chamar os refletores da mídia”, já que ele é “o vanguardista da mídia e dos saraus” onde, “do alto de sua cátedra” ou “pedestal”, não apenas pontifica, mas “alardeia” sua “toadinha estratégica” e seu “esteticismo mais abstruso”. Será que tudo isso é mesmo verdade?
Como é que ela prova suas insinuações? Com outras tantas que não passam de juízos prévios de valor expressos de viés em advérbios, adjetivos, conjunções, nos prefixos e sufixos das palavras, juízos nunca discutidos nem demonstrados, freqüentemente contraditórios entre si (por exemplo: cosmopolita e nacionalista), mas selecionados com o olho fixo na platéia petista. O artigo foi publicado em T&D e não – como é hábito da professora Iumna em suas raras manifestações escritas – na “grande imprensa burguesa” ou na revista do Cebrap. Dissipa, assim, oportunamente, a eventual desconfiança de que seu artigo estaria fazendo um jogo antipetista, suspeita que o marcaria se tivesse saído nas publicações citadas. Para que não restem dúvidas, a autora sobrecarrega seu texto com uma enxurrada de elogios – também muito oportunos – ao PT, elogios que, a não ser que pressuponham uma antiga, reconhecida e apaixonada militância, são apenas bajulação oportunista.
Ao contrário, porém, de nossa brava militante, Haroldo é “cosmopolitérrimo, com cacife de maioral” e “íntimo de atrizes globais” (uma insinuação digna do mais baixo colunismo social), algo que, trocado em miúdos, significa que ele é aliado ou preposto de Roberto Marinho (embora seja concomitantemente acusado de brizolismo) e porta-voz das elites que o PT combate. Confesso que não entendo muito bem no que uma professora da Unicamp é moral ou politicamente superior às atrizes da Globo, entre as quais muitas são petistas. Sabe-se, aliás, que a professora Iumna já foi tão ou mais íntima do poeta do que qualquer atriz global. E daí?
Pouco importa que não seja aduzida qualquer prova a nenhuma de suas insinuações. Estas permeiam de tal maneira o artigo que, quando se chega enfim à pretensa análise literária, o leitor já deve estar devidamente predisposto contra o poeta. Em outras palavras: é somente depois de lhe cassar a cidadania que a professora arrola suas objeções ortopédicas (“pé quebrado”). Todas que possa inventar lhe servem.
A mais grave, para ela, é que Haroldo escreveu seu poema em redondilhas, revelando-se, conseqüentemente, populista. Se tivesse escrito em octassilabos, seria pomposo como um parnasiano; em decassilabos seria um elitista; em versos livres estaria escondendo sua mensagem conservadora sob uma forma metida a moderninha. Para a professora Iumna qualquer rima é por definição “fácil”, o poema não tem recursos, mas apenas “truques”, seus “versos martelam na cabeça sempre a mesma coisa”, tudo nele é “metáfora surrada”, “ufanismo desajeitado”, “raciocínio simplificado”, ou “gracinha poética”. Trata-se, enfim, de uma “cantilena” cujo “didatismo cavernoso” desemboca na “banalidade do chavão de ouro”. A professora encontra tantos coelhos na cartola que, para tirá-los todos, um mágico precisaria de, pelo menos, quatro ou seis mãos.
Não há como responder a nenhum desses argumentos de maneira simples. Eles não são termos críticos, nem estão abertos à discussão. São recursos retóricos incriminatórios, destinados a estigmatizar inapelavelmente sua vítima. Não há poema ou poeta que pudesse sair incólume de uma “análise” dessas. Sua lógica é a do insulto. Um exemplo talvez ajude a compreender a “discussão” que nossa professora propõe: quando alguém chama um sujeito de “viado”, se este diz que é, então é; se nega, é bicha enrustida; se não responde, quem cala consente; se retruca “viado é você”, não passa de um homossexual que sofre de autodesprezo; e se mete a mão na cara do acusador, é um invertido fascista ocultando-se atrás de atitudes machistas. Pode-se discutir o texto da professora Iunina, mas não é possível discutir com ele.
Voltemos a sua argumentação. O poema em questão fala em Lula e estaria, segundo ela, promovendo o “culto da personalidade”. Diz que Lula cumprirá o programa de seu partido e é, portanto, “messiânico”. Acontece que o poema foi feito incorporando pontos programáticos, explícita e especificamente para a campanha presidencial – de quem? De Lula. Haroldo, então, nem deveria mencionar seu nome?
Deveria fazer um poema de propaganda anunciando sua derrota e a inviabilidade do programa petista? Que tal estender essas ressalvas? Todos os eleitores que colaram nos vidros de seus automóveis o adesivo “Lula-lá” são cultores da personalidade. Quem quer que num comício diga “vai ganhar” ou “já ganhou” é messiânico. É difícil entender o que é que a professora quer.
Ela, no entanto, arremata: “Por rebaixar o tom do debate político a messiânicos acenos de mudança imediata, por estimular mistificações de toda ordem, quando caberia ao intelectual se manifestar criticamente, o poema desqualifica a imagem do candidato e a inteligência do eleitor”. Esse é precisamente o tom usado em certos tribunais. Boas notícias! A professora Iumna, com argúcia e inteligência dignas de Sherlock Holmes, identificou o poeta culpado pela derrota eleitoral do partido.
Será que quem está rebaixando o tom do debate não é, justamente, a professora Iumna? Seu artigo afirma que por trás de uma peça claramente assumida de propaganda petista oculta-se o inimigo. Acusa Haroldo de Campos de ser farsante, mistificador e oportunista.
Pretende “desmascará-lo” e todos os argumentos lhe servem. Boa professora, quer dar uma lição no poeta. Sua raiva é a que os preguiçosos dedicam a quem produz. Sua estratégia – ou será estratagema? – foi resumida por Karl Kraus: “Já sou tão famoso que quem quer que me ataque fica ainda mais famoso do que eu”. Seu ódio à mídia é muito curioso, pois o artigo não passa de aplicação parasitária das técnicas mais sujas da propaganda. Só que, em vez de promover, prefere difamar seu produto. Quem é que está reduzindo, então, a crítica literária, cultural ou ideológica ao nível da alcagüetagem e da perseguição política? Em seu texto, a professora delata o poeta por crimes imaginários que nem pretende provar. Há no PT lugar para tamanho dedurismo?
Será que ela não sabe que “Por um Brasil-Cidadão” não é nem sequer o primeiro poema petista de Haroldo de Campos? Refresco-lhe a memória: o poeta escreveu contra Maluf um poema semelhante – igualmente pedido e aceito – para a campanha de Eduardo Suplicy à Prefeitura de São Paulo. (Detalhe: as pesquisas não davam a vitória do candidato petista.) Por que a professora Iumna não aproveitou para esmiuçá-lo? Preguiça? Em setembro de 89, Haroldo declarou à Folha de S. Paulo o seguinte: “Meu voto é anti-Collor. No momento, à lua das pesquisas, votaria em Brizola (embora não seja ‘brizolista’)”. Para o segundo turno, subscreveu um abaixo-assinado de apoio a Lula e, no ano seguinte, encabeçou outro, de apoio a Plínio de Arruda Sampaio. Fatos públicos e publicados. A professora Iumna não menciona nada disso. Não sabia? Quem entende tanto de mídia deveria ler jornal de vez em quando.
A professora se declara indignada. Mas sua indignação é tão seletiva e circunstancial que chega a ser difícil acreditar até mesmo na sinceridade de seus pontos e suas vírgulas. Ela contrabandeia para dentro do PT uma frustração e um rancor prévios, que nada têm a ver com suas discussões literárias ou políticas, ocultando alguns fatos, deformando outros e, sobretudo, traindo sua profissão. E considera imbecis todos os petistas que, não tendo visto o que apenas ela – professora universitária iluminada e devidamente doutorada – poderia ver, acolheram, aceitaram ou simplesmente não protestaram contra o uso do poema como propaganda partidária. São todos “capachildos”.
A professora nem ao menos discute se o poema foi útil para o partido. Seu artigo saiu meses depois de Haroldo publicá-lo – e depois do fim das eleições. Das duas uma: ou ela escreve muito devagar – algo comum entre co-autores como ela quando recomeçam sua carreira solo (se é que se trata mesmo de uma carreira solo) – ou esperou o fim das eleições para divulgá-lo, reconhecendo implicitamente a utilidade do poema para a campanha. Ela faz também questão de ignorar distinções elementares: poesia panfletária de propaganda não é, nem pretende ser, poesia crítica ou política. Ela esquece – intencionalmente? – que há um tipo de poesia, chamada “de circunstância”, que obedece a critérios distintos. Não é estranho que uma professora de literatura desconheça que cada gênero literário tem suas convenções? É como se, numa partida de futebol, reclamasse não só do uso dos pés como do fato de a bola ser redonda – e ainda por cima quisesse apitar o jogo! Haroldo diz claramente na matéria que acompanha a publicação do poema na Folha – matéria que, juntamente com um artigo de Ivan Teixeira e outros nem creditados, ela não se cansa de deturpar – que o que fez foi um nome do tipo agit-prop. Como nossa bolchevique histórica não compreendeu esta difícil expressão russa, eu a traduzo: poema de agitação e propaganda.
Ela insinua que o poeta pretende colher “dividendos políticos ou poéticos”. E nossa altruísta professora? Talvez não queira perder as ações ultimamente adquiridas na indústria do anticoncretismo, a única que ela – tão crítica e de esquerda – conhece de primeira mão. Renascida em Marx, precisa, agora, limpar seu nome? Afinal, em 1982, foi co-organizadora de uma antologia do concretismo para a Editora Abril e co-autora de seus comentários que são, “até a raiz dos cabelos”, elogiosos a Haroldo e seus companheiros. A professora, desde então, mudou de idéia (se bem que examiradoras são para sempre), mas poderia ao menos, como o novo presidente,ter declarado: “esqueçam tudo o que eu escrevi”.
A professora Iumna abusa da idéia de fingimento poético, mas a supera, sem dúvida, ao travestir-se de comissária do povo. Pois, confundindo a luta de classes sociais com as disputas entre as classes de uma escola, reivindica não o “socialismo num só país”, mas somente (como se o PT fosse sua faculdade) a censura orientada por um único departamento universitário. Seu artigo evoca insistentemente os famosos processos de Moscou, aqueles julgamentos promovidos nos anos 30 por Stalin, em que, quando o réu protestava inocência, o juiz lhe perguntava: “Se você é inocente, por que está sendo julgado?” Se dependesse de nossa professora, Haroldo estaria hoje minerando níquel na Sibéria. A falta de poder para expurgá-lo, contudo, aguça sua raiva e, como considera o poema tão ruim que só pode ser obra do Demo, ela o trata (atribuindo ao seu próprio marxismo frankfurtiano de conveniência e fachada poderes realmente sobrenaturais) como um boneco de vodu no qual espeta todas as suas agulhas.
O processo que move contra o poeta é de um stalinismo tão modelar e perfeito que ela não poderia ter deixado de copiar sua característica principal, ou seja, acusar os outros das ações que perpetra. Assim, quando proclama que “no Brasil as questões de ética estão em baixa”, suas palavras soam como uma confissão. Creio, porém, que até mesmo seu stalinismo é bom demais para ser verdadeiro. Ele também é de conveniência e fachada. E foi adotado como a posição mais rentável no momento para atacar o poeta. Seu uso, a torto e a direito, de termos e expressões como “mídia”, “capital”, “enlatados” e “made in brazil” responde não a qualquer exigência terminológica, mas apenas à necessidade de difamar o poeta com uma rotulação de amplo espectro que escandalize o maior número possível de petistas. Nisso, seu ataque destinado a afastar os leitores de Haroldo, parece-se muito mais com outro, destinado a afastar os eleitores de Lula.
O que ela faz com o poeta é precisamente o que Miriam Cordeiro fez, em 1989, contra Lula. Que petista pode ter se esquecido do seu famoso depoimento anti-Lula, dado diante das câmeras para a campanha presidencial de Collor? No caso da professora Iumna, apenas o conteúdo circunstancial das suas delações é diferente: intenção e forma são absolutamente iguais. Será que um partido que repudiou a Miriam Cordeiro do Lula pode, moralmente, aceitar a Miriam Cordeiro das letras?
Nelson Ascher é poeta, tradutor e ensaísta.
Foi com grande indignação e profunda tristeza que li o artigo “A cidadania de pé quebrado” de Iumna Maria Simon, no último número desta revista. E se venho agora a público é justamente para expressar esta minha reação. A indignação é perfeitamente compreensível no caso, dada a injustiça dos conceitos emitidos, que se pretendem uma discussão sobre poesia, discussão essa que é tão rara em nosso meio, lembra a autora, mas que se reduzem a um ataque pessoal e de baixo nível contra um poeta da importância de Haroldo de Campos, a quem todos nós devemos tanto. E a tristeza resultou da constatação de que, embora se tenham aberto na Rússia os arquivos do KGB e tenha vindo à tona a crônica sinistra do jdanovismo, com a sua seqüência de horrores, bem semelhantes aos da década de 30, parece que a história nada tem a ensinar a alguns de nossos intelectuais, que se permitem repetir a terminologia, os procedimentos e a ignomínia de quase cinqüenta anos atrás.
Para confirmar isto, vejamos as acusações assacadas contra o poeta. Logo de início ele é chamado de “cosmopolita”, o que lembra a campanha contra o “cosmopolitismo”, desencadeada na Rússia logo após o famoso informe de Jdanov em 1946. Afinal, as palavras têm uma carga histórica e nós não temos o direito de não a levar em conta. O termo passou a designar então a ligação com a cultura de povos, o menosprezo pelas raízes nacionais e, com freqüência, acabou adquirindo uma conotação anti-semita, pois se via o judeu como um apátrida, um cosmopolita, embora os judeus russos estivessem, na grande maioria, muito assimilados à sociedade.
A referência ao Haroldo como “cosmopolita” e “polilíngue” (esta palavra, num contexto pejorativo, tem algo de grotesco, como se fosse condenável conhecer línguas e outras culturas, e esforçar-se por trazê-las ao nosso convívio) me fez pensar num episódio recente.
No final de junho de 1991, realizou-se em Salto Oriental, no Uruguai, um simpósio internacional sobre a obra de Haroldo. Participaram dele estudiosos dessa obra, vindos de diferentes países: além de uruguaios e brasileiros, havia ali mexicanos e alemães, quase todos viajando por conta própria, sem ajuda de qualquer instituição e realizando um sacrifício considerável para aquela manifestação de admiração cultural. A lembrança desse encontro marca uma situação paradoxal e absurda, depois de ataques como os do artigo em questão. Deixa-se de lado toda uma obra poética e de teoria, reconhecida internacionalmente, como se tivesse importância apenas o fato de Haroldo ter feito um poema a Lula, o que seria um ato de oportunismo. Mas, oportunismo por quê? Certamente, ele não precisaria disso para chegar às “glórias televisivas” e tornar-se “íntimo de atrizes globais e popstars”.
Aliás, esta passagem do artigo é simplesmente vergonhosa, pois estamos vendo uma professora universitária encampar os preconceitos mais rançosos contra a mulher que dança, ou faz teatro dramático. O mal estaria em trabalhar para a Globo? Mas, quem trabalha ali é um profissional tão digno como os demais. Por que estas ofensas, esta acidez, esta injustiça? Como tudo isso lembra os discursos de Jdanov, com a sua grosseria, as suas expressões maldosas, o seu sarcasmo barato!
E as ironias contra o “vanguardismo”! Elas são bem década de 40, de período em que esta o poderia ter conseqüências trágicas. Trazer isso para o nosso meio, num contexto de 1994, significa ressuscitar velhos rancores, que só levaram ao obscurantismo, ao isolamento cultural, à rejeição pura e simples da modernidade.
Uma das características do jdanovismo era a atribuição ao oponente de uma segunda intenção sempre, mesmo nos seus atos mais meritórios. O mesmo faz Iumna em relação ao poema de Haroldo dedicado a Lula. Na hora em que as pesquisas davam como certa a sua vitória, ele teria procurado “ganhar a simpatia de uma faixa ampla e diferenciada de leitores”. No entanto, não seria difícil documentar com notícias de nossa imprensa, num período anterior ao referido, que Haroldo já havia declarado então claramente sua simpatia pelas posições do PT. Não parece razoável procurar, em cada caso, as “razões ocultas”, a “segunda intenção”, e julgar uma pessoa não pelo que ela diz e faz, mas pelo que se pensa estar por trás das palavras e dos atos. Que presunção, asseverar que se penetrou assim na psique alheia!
E por que Haroldo não poderia estar agora com Lula e ter votado em Brizola em 89? O que se quer é uma fidelidade irrestrita? Não se pode ter determinada opinião num contexto e mudá-lo em outro? Se em 89 Haroldo achava que se devia fazer tudo para evitar a vitória de Collor e se lhe parecia que Brizola teria mais chances no primeiro turno, deve-se apedrejá-lo por isso? Não parece que exista para o intelectual o caminho único e certo, fora do qual ele seria um traidor e oportunista. A autora do artigo pretende certamente que se rejeitem os intelectuais que pensam de modo diferente do seu, os atores e atrizes que aderiram ao PT, mas não se recusam a trabalhar na Globo, e todos os que ela considera oportunistas e pouco sérios. Enfim, busquem-se os poucos mas puros, os ideologicamente corretos, aqueles em quem não se suspeitem intenções ocultas. Mas um partido pode se permitir o luxo de apostar tanto na interpretação dessas intenções? E esta desconfiança, esta prevenção contra quem possa pensar diferente de nós, será compatível com um clima democrático e de discussão?
Concluindo, devo dizer que, embora o artigo de Iumna faça afirmações sobre a “ética em baixa” em nosso meio, deixa de lado uma consideração de ordem ética, que me parece muito importante: é justo convidar um poeta a realizar uma tarefa num prazo curto e, depois que ele a executa com todo o entusiasmo e sinceridade, cobri-lo de insultos, acompanhados de lucubrações sobre o que pretendia com aquele trabalho? A culpa certamente não cabe a quem o convidou, mas nem por isso o caso é menos revoltante.
