A defesa de Flávio Bolsonaro (PL) de uma jornada negociada individualmente com o patrão integra um projeto de retirada de direitos que ameaça a renda e as condições de vida dos trabalhadores. A avaliação é do economista Marcelo Manzano, professor nas áreas de Economia Brasileira e de Economia Social e do Trabalho do Instituto de Economia da Unicamp. Para ele, uma eventual vitória do candidato da extrema direita aceleraria retrocessos que vão do salário ao acesso à saúde e à educação públicas.
Desde terça-feira (6), a expressão “é só negociar com o patrão” ganhou força nas redes sociais em publicações que rebatem as críticas do candidato à Presidência à proposta de acabar com a escala 6×1.
Questionado por jornalistas sobre o início da discussão no Senado do projeto que garante dois dias de folga por semana aos trabalhadores, Flávio disse ter “uma proposta infinitamente melhor, que é a da liberdade para o trabalhador escolher a sua própria carga horária”.
Para Manzano, a flexibilização por meio de acordo individual entre empresa e empregado faz parte de um pacote mais amplo, que inclui o enfraquecimento dos sindicatos e a ameaça à política de valorização do salário mínimo.
“As ameaças são imensas. Flávio já manifestou que é contrário aos sindicatos, então deve haver medidas para enfraquecê-los. Outro ponto é a ideia do salário pago por hora, que acaba com a jornada de trabalho, como se fosse um trabalhador intermitente. E também a questão do fim da política de aumento real do salário mínimo que serve de referência para outros assalariados e teria um impacto muito grande no rendimento dos trabalhadores”, pontua.

Foto: Felipe L. Gonçalves/Brasil247
Menos horas, menos salário
A proposta de pagamento por hora está prevista na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 12/2026, que altera o artigo 7º para permitir a escolha entre o regime comum da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e um regime flexível baseado em horas trabalhadas. O autor é Rogério Marinho (PL-RN), relator da reforma trabalhista de 2017 e um dos coordenadores da campanha de Flávio Bolsonaro.
Na apresentação, o texto reuniu 36 assinaturas, 16 delas de senadores do PL, entre os quais o próprio Flávio. Sob o argumento da “liberdade de escolha”, a proposta vincula a remuneração e os direitos trabalhistas à quantidade de horas contratadas.
O salário mínimo e o piso da categoria serviriam de referência para calcular o valor da hora, sem assegurar o pagamento mensal integral a quem tivesse uma jornada menor. Com menos horas contratadas, seriam menores o salário do mês, o décimo terceiro, a remuneração das férias e os depósitos do FGTS. Nesse modelo, a redução da jornada viria acompanhada de redução da renda.
Cortes em serviços públicos pesam no orçamento das famílias
Manzano também chama atenção para medidas que atingem o que define como salário indireto do trabalhador: o acesso a serviços públicos que evita despesas no orçamento familiar. Na avaliação do economista, o enfraquecimento do SUS e da educação pública obrigaria as famílias a gastar mais para atender necessidades básicas.
“O SUS, por exemplo, deve perder seu orçamento, como ele já sinalizou e isso obrigará as famílias a gastarem mais com saúde. O mesmo acontece na Educação, que deve ser sucateada e empurrará as famílias para o setor privado. Ao fazer isso, as famílias perdem a chamada renda disponível em função das despesas geradas pelas medidas anunciadas”, afirma.
Mais renda fortalece os pequenos negócios
O economista também rebate a tentativa de apresentar o governo Lula como inimigo dos empresários. Segundo Manzano, nas três gestões do presidente, o aumento da renda salarial, sempre que foi possível, favoreceu a expansão dos pequenos negócios.
“Certamente a taxa de juros é o principal limitador dessa expansão que decorre da renda. Mas isso não depende só do governo. Quem define é o Banco Central e é isso que precisa ficar claro”, afirma.
