Artista da Brasilândia transforma objetos descartados, como shapes de skate, em obras que combinam arte urbana, memória da cultura hip-hop e cenas do cotidiano periférico de São Paulo

Do graffiti nas ruas da Brasilândia às telas produzidas com objetos reciclados, o artista visual Pablo Martins construiu uma trajetória marcada pela arte urbana e pela vivência periférica. Nascido no bairro da Zona Norte de São Paulo, ele iniciou sua caminhada artística no final dos anos 1990, em produções ligadas à cultura hip-hop.
Ao longo de mais de duas décadas, ampliou sua linguagem com pintura em tela e tatuagem, o que lhe permitiu dedicar-se integralmente à arte. Suas obras mesclam elementos da natureza com cenas observadas no cotidiano da cidade e incorporam materiais destinados ao descarte, transformando objetos comuns em composições que dialogam com a experiência urbana.

A infância e o graffiti
Inspirado pelos desenhos de sua mãe, nascida em Goiânia e com forte contato com culturas indígenas, Pablo começou ainda criança a reproduzir imagens de natureza e animais. As primeiras telas improvisadas eram as paredes da própria casa e, muitas vezes, o próprio corpo.
“Eu desenhava na casa toda, em livros, revistas, no corpo do meu finado pai, e fui me descobrindo. Tive uma infância muito boa, sempre recebi apoio familiar e mantive a liberdade de seguir fazendo arte. O grafite me proporcionou uma expansão maior de ver a arte nas paredes, na rua, algo bem urbano. Eu via muitos amigos fazendo e comecei a fazer junto”, lembra.
Após participar de um curso de pintura em tela, passou a produzir e vender suas obras na Praça da República e em outras praças da capital paulista. Também participou de feiras e exposições em centros culturais, consolidando-se como artista local. Entre suas experiências, realizou exposições no CEU Paz, em 2004, e integrou o espaço cultural ABC Palmares, em 2006, além de participar de diversas ações sociais e artísticas.
Paralelamente, ampliou sua vivência com técnicas de tatuagem e seguiu se apresentando como rapper, experiências que contribuíram para sua visão estética e sensibilidade artística.
“Eu estou vivendo disso. Para um artista independente é muito valoroso e importante saber que está se encontrando e vivendo da própria arte”, afirma.

Arte urbana e reciclagem
Em 2024, Pablo apresentou a exposição “Cultural e Urbana” na Fábrica de Cultura da Brasilândia. A mostra reuniu obras produzidas a partir da reciclagem de shapes de skate, nas quais incorpora acessórios e elementos que transformam cada peça em uma obra inédita, além de telas que retratam a realidade periférica. No mesmo ano, idealizou o projeto “Conhecendo Pintura em Tela”, voltado à realização de oficinas com crianças e famílias da comunidade.
“Foi no ano passado que eu comecei a ter a visão própria sobre identidade que eu buscava. Produzo minhas telas com acessórios de reciclagem, inspirado na visão periférica como algo que eu possa compartilhar e impactar, como uma forma de protesto, mas levo também uma visão positiva. Gosto de misturar elementos, criar a minha moldura. Tive a ideia de reaproveitar o shape de skate, que eu via muito jogado no centro da cidade. A partir da minha vivência na Galeria do Rock, incorporei os cabelos afro com turbante”, explica.
Em 2025, o artista expôs no Festival Cultural do Beco do Batman e firmou parcerias com lojas do centro de São Paulo, onde mantém suas obras. Atualmente desenvolve a intervenção “Arte & Rap”.
Sua obra “Entre Classes” foi apresentada na Casa do Graffiti e também na mostra do Dia da Consciência Negra realizada pelo Tendal da Lapa, espaços considerados importantes vitrines da arte urbana paulistana.
