Um homem horroroso entra e se mira no espelho.

“- Por que o senhor está se olhando, se não pode fazê-lo com prazer?”

O homem horroroso me responde: “- Senhor, de acordo com os imortais princípios de 89, todos os homens são iguais em direitos; assim, eu tenho o direito de me olhar; com prazer ou desprazer, isto só diz respeito a minha consciência”.

Em nome do bom senso, eu sem dúvida tinha razão; mas, do ponto de vista da lei, ele não estava errado.

(Trad. Mario Sabino)

Charles Baudelaire nasceu em Paris, em 1821, e morreu na mesma cidade, em 1867. Poeta, crítico e tradutor (verteu para o francês o ensaio Filosofia da Composição e os contos do norte-americano Edgar Allan Poe), sua obra, em geral classificada como precursora do simbolismo, é o berço do que se costuma chamar de poesia moderna. Pode-se dizer que Baudelaire, e formulador do conceito de especificidade poética, resgatou a poesia dos domínios da filosofia e da eloqüência. Para ele, a imaginação do poeta deve dar harmonia ao universo que os nossos sentidos percebem de forma contraditória. Sobre as poesias de As flores do mal, a grande coletânea baudelairiana, Paul Valéry comentou: “nelas não há nenhuma tirada filosófica. A política é de todo ausente. As descrições, raras, são cheias de significados. Tudo é encanto, música, sensualidade abstrata e potente.”

Mas este caráter etéreo não impediu o registro da realidade imposta pela Revolução Industrial e a burguesia ascendente. Muitos escritos do dândi Baudelaire, que soube expressar como ninguém a angústia e o tédio – o spleen – do artista, do homem de espírito, primam pela ironia: ele foi o primeiro a usar o termo militar “vanguarda” em relação a fenômenos artísticos, para definir com sarcasmo os escritores franceses de esquerda.

O Espelho, de 1864, que publicamos neste número, é uma boutade característica dos últimos anos de vida do poeta, e faz parte do volume Petits Poëmes en Prose (Le Spleen de Paris).