Mesa da 1ª Conferência Internacional Antifascista, em Porto Alegre, reuniu representantes de diferentes países em defesa da solidariedade internacional, de Cuba e da autodeterminação dos povos

Durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos, realizada de 26 a 29 de março, em Porto Alegre, a 5ª Conferência “A Solidariedade entre os Povos e a Luta Anti-imperialista” reuniu representantes do Brasil, Venezuela, Cuba, Índia, Porto Rico, Irã e Saara Ocidental em torno de uma agenda comum: a defesa da soberania, o enfrentamento ao fascismo e a construção de uma articulação internacionalista diante das guerras, das sanções e das formas contemporâneas de dominação. O debate integrou a programação do evento, que mobilizou ativistas de mais de 40 países dos cinco continentes para discutir o avanço da extrema direita, do imperialismo e das formas de resistência popular no mundo.

Com a mediação da deputada Maria do Rosário (PT-RS), o debate partiu da ideia de que a solidariedade internacional precisa se expressar de forma concreta. “A solidariedade é sempre algo ativo” e “exige mais de nós do que palavras”, afirmou a parlamentar ao abrir o debate, relacionando o tema ao avanço da extrema direita, à escalada das guerras e aos ataques contra povos soberanos.

A defesa de uma América Latina unida apareceu como um dos fios condutores da mesa. Em diferentes intervenções, os participantes apontaram que a região continua submetida a pressões econômicas, políticas e militares e sustentaram que a soberania regional depende de cooperação, integração e solidariedade efetiva entre os povos.

A deputada venezuelana Blanca Eekhout, presidenta do Instituto Simón Bolívar para a Paz e a Solidariedade com os Povos, resumiu esse diagnóstico ao afirmar que “nós estamos diante dessa ação brutal do fascismo e do imperialismo contra a nossa América, contra a Venezuela, contra Cuba de maneira muito particular, mas uma ação contra toda a nossa América”.

Solidariedade a Cuba

A situação de Cuba foi um dos pontos de maior convergência no debate. O bloqueio imposto pelos Estados Unidos apareceu nas falas como símbolo da persistência de uma política de cerco contra experiências soberanas na região.

Socorro Gomes, do Cebrapaz e ex-presidenta do Conselho Mundial da Paz, destacou a resistência da ilha diante de décadas de sanções: “Cuba, uma ilha que tem uns 9 milhões de habitantes, pequena, que resiste há mais de 60 anos de bloqueio”.

Da Casa das Américas, o cubano Fernando Rojas defendeu que o apoio à ilha tenha densidade política: “A solidariedade com Cuba deve ser militante, não deve ser acrítica e não deve ser doce, não deve ser suavizada”.

Também o ex-senador porto-riquenho Rafael Bernabé associou a defesa de Cuba à luta continental: “A solidariedade com Cuba, para nós, é um dever e deve ser um eixo central da nossa luta anti-imperialista no presente”.

Acreditar nos jovens

Um dos momentos de destaque da mesa foi a intervenção de Hossein Khaliloo, do Centro Iman Al Mahdi de Diálogo no Brasil. Ao abordar o imperialismo como sistema de dominação que opera por múltiplas frentes — econômica, militar, cultural e midiática —, ele defendeu a necessidade de ruptura com mecanismos de dependência impostos pelas potências.

Ao mencionar a experiência iraniana, Khaliloo sintetizou sua posição em uma frase que concentrou o sentido político de sua fala: “um povo que acredita nos jovens de seu país consegue avançar”.

BRICS e a disputa por uma nova ordem internacional

O debate também abriu espaço para reflexões sobre os BRICS e o cenário multipolar. O indiano Sushovan Dhar, do CADTM, argumentou que o bloco pode contribuir para ampliar os espaços multilaterais, mas ponderou que suas contradições internas impedem que ele seja automaticamente adotado como alternativa emancipatória.

Ahmed Mulay, da Frente Polisário, citou os BRICS entre os fóruns internacionais que podem contribuir para ampliar o reconhecimento do direito do povo saaraui à autodeterminação.

Debatedores

Após as intervenções dos palestrantes, os debatedores foram ouvidos pelo plenário, que ficou lotado até o final. O ex-prefeito de Porto Alegre, ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro das Cidades durante o primeiro governo Lula,  Olívio Dutra, foi o primeiro a se manifestar e destacou o papel da juventude na continuidade das lutas democráticas, populares e anti-imperialistas, chamando a atenção para a necessidade de formar novas gerações comprometidas com a soberania dos povos. Segundo ele, “o imperialismo não é algo recente” e, por isso, fez um chamado aos presentes: “precisamos de movimento popular, de luta social, de povo na rua, de povo se organizando de forma autônoma, independente, mas se articulando”. O ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro concluiu afirmando que o “povo tem que ser sujeito e não objeto da política, para que a política não seja uma coisa ocasional, eleitoral, passageira”.

Em seguida, Pedro Cesar Batista, da Internacional Antifascista – Capítulo Brasil, reforçou a importância de consolidar a articulação internacional antifascista como instrumento de enfrentamento à extrema direita e ao imperialismo em escala global. Ele resgatou a criação da Internacional Antifascista, em 2024, no Chile, explicando que ela é “plural, tem uma estrutura orgânica e tem uma tarefa que é derrotar o imperialismo, o fascismo, o sionismo, e o nazismo”.

O encerramento dos trabalhos contou com o forte apelo de Ahmed Mulay, representante da Frente Polisário, dirigido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e à solidariedade internacional. Mulay lembrou que o Saara Ocidental é membro fundador da União Africana, mas que, apesar disso, “continuamos sendo a última colônia da África”. Ao reivindicar o direito inalienável de seu povo à autodeterminação, ele deixou uma mensagem ao governo brasileiro: “Estamos desejando que o Brasil, que o nosso querido presidente Lula, tome a mesma posição que tomou com a Palestina com o povo saaraui, e que reconheça a República Saaraui”, apelou ele.

Em suas palavras finais, a deputada Maria do Rosário reafirmou o compromisso da conferência com uma visão de mundo que rompa com as tutelas externas e com as limitações institucionais. Para a parlamentar, a construção de uma nova soberania exige repensar os próprios fundamentos do sistema político: “É preciso que a democracia não seja vista exclusivamente como a democracia liberal nos moldes que tantas vezes tentam impor aos povos”, finalizou.

A gravação desta mesa está disponível no canal do Youtube da Fundação Perseu Abramo e a programação completa está no canal do Youtube da Conferência