A ofensiva da extrema direita no mundo, suas causas, consequências e desafios foi o tema da primeira mesa de debates da 1ª Conferência Antifascista realizada em Porto Alegre, nos dias 26 a 29 de março.
A discussão faz parte do evento que reuniu delegações de diferentes países, com representantes de movimentos sociais e lideranças políticas progressistas com o foco em dialogar sobre caminhos para combater o crescimento da ideologia fascista no mundo.
Durante a tarde de quinta-feira (26), uma marcha percorreu o centro histórico da cidade com cerca de cinco mil manifestantes. A conferência marca os 25 anos de realização do Fórum Social Mundial na capital gaúcha.
Na sexta-feira (27), na parte da manhã, a mesa “A Ofensiva da Extrema Direita no Mundo: Causas, Consequências e Desafios” contou com a mediação do presidente interino da Fundação Perseu Abramo, Brenno Almeida.
Os palestrantes foram: Deputada Sâmia Bomfim (PSOL/Brasil), Eric Toussaint (CATDM/Bélgica), Jorgelina Matusevicius (Vientos del Pueblo/Argentina), Ricardo Abreu de Melo (Fundação Maurício Grabois, Brasil), Estrella Galán (The Left /Galiza, Espanha), Valter Pomar (Fundação Perseu Abramo, Brasil).

Causas
O presidente do Comitê pelo Cancelamento da Dívida do Terceiro Mundo, Eric Toussaint, abordou uma série de causas e condições para o florescimento do fascismo, em especial na América Latina. Destacou o ciclo das ditaduras militares como um pilar para a ofensiva do grande capital até a chegada do período de auge do neoliberalismo.
Toussaint trouxe como ponto central a desesperança da classe trabalhadora e o endividamento das famílias e disse que a insegurança social e a atomização dos indivíduos são importantes para a ideologia fascista.
“Eles colocam o fascismo como uma solução para as pessoas a partir dos problemas que eles mesmos causam”, aponta o presidente do CADTM.
“Também é preciso olhar para as desilusões das classes populares com o modelo continuado por experiências progressistas, que prolongaram políticas sociais liberais. Essa desilusão produz um terreno muito favorável para discursos como os de Trump, Milei, Bolsonaro”, completa.
Toussaint defende a reconstrução de um espaço internacional antifascista e antiimperialista, de convergência, com diálogo, capaz de convocar ações concretas, a exemplo do Fórum Social Mundial. “É nas ruas que vamos construir a resistência. Temos como desafio sair daqui com compromissos, temos que reunir os partidos, as juventudes, os sindicatos, movimentos antirracistas, lgbt+ nessa causa”, comenta o presidente da CADTM.
O coordenador do setor de Cooperação Internacional Fundação Maurício Grabois, do PCdoB, Ricardo Abreu de Melo, falou do surgimento do facismo no período entre as guerras mundiais e os objetivos de destruição das bases fundamentadas a partir da União Soviética naquele momento.
O comunista destacou a relação do fascismo com o capitalismo e destacou que as crises do sistema econômico geram picos do avanço fascista, como no caso da grande depressão de 1929 e, recentemente, em 2008.
Para Melo, a decadência dos Estados Unidos e dos países da OTAN como únicas potências mundiais, além do desenvolvimento da China, favoreceram a reação da extrema direita, que ganham forças, não só na política, mas também no imaginário cultural da sociedade.
“O fascismo ganha força renovada no nosso tempo, ele não é circunscrito a um período temporal”, explica o representante do PCdoB.
“Depois de se estabelecer politicamente, o fascismo só foi derrotado militarmente, a partir de coalizões de forças políticas populares lideradas pela esquerda, portanto o enfrentamento contra o neofascismo na etapa histórica atual tende a ser uma luta dura e prolongada, assim como no século XX, uma pela paz, antiimperialista e civilizatória, de caráter histórico e estratégico. Assim como no passado, podemos ser vitoriosos em várias regiões do mundo, inclusive na América Latina, mas em uma nova situação de ofensiva estratégica das forças políticas populares”, opina Ricardo Abreu de Melo.
Consequências
A dirigente política Jorgelina Matusevicius, da frente Vientos del Pueblo, defendeu a ideia de soberania “das nossas vidas, dos nossos corpos, dos nossos territórios”. A militante argentina denunciou as violações dos direitos humanos do governo de Javier Milei e a necessidade de articulação política para fazer o enfrentamento.
Matusevicius falou sobre a anestesia do movimento social nos últimos anos e salientou que a realização de reformas trabalhistas no mundo todo serviu para o capital aumentar a desigualdade e a fragmentação da classe trabalhadora.
“Se no fim dos anos 90, no Fórum Social Mundial, acreditamos que podíamos construir uma nova sociedade, um novo mundo possível, hoje é mais importante do que nunca pensarmos que é urgente e possível construir esse outro mundo se quisermos evitar a barbárie e a crueldade como projetos políticos”, argumenta.
A eurodeputada Estrella Galán, do The Left, saudou o acolhimento dos partidos PT, PCdoB e PSOL, lembrou dos europeus contrários às guerras e alertou sobre o genocídio em curso em Gaza, na Palestina.
Proveniente da Galiza, região da Espanha, Galán conta que foi responsável por encaminhar uma resolução condenando o avanço do neofascismo na Europa em 2018, e que hoje o projeto seria inviável de ser aprovado.
A eurodeputada citou que há três grupos políticos de extrema direita consolidados no parlamento europeu e enfatizou que um dos motivos para crescimento e a formalização das organizações foi a permissão de propagandas com discurso de ódio, que atingem principalmente a juventude. Para Galán, “é a juventude que tem que parar o fascismo”.
Desafios
Diretor da Fundação Perseu Abramo, Valter Pomar analisou as causas do crescimento da ideologia fascista a partir das crise do capitalismo, que geram polarização política. “A polarização gera insatisfação e para lidar com isso, os mecanismos institucionais, dos tempos de paz, já não funcionam bem, então o capitalismo é obrigado a instituir mecanismos extraordinários para os tempos de guerra”, comenta.
Para Pomar, a naturalização e o estímulo a todos os tipos de desigualdade, violência permanente, extremismo religioso e o imperialismo sem disfarces são os principais recursos utilizados pelo fascismo para sua expansão. “Isso não é novidade, aconteceu nos anos 20 e 30, em Portugal, Espanha, Japão, Alemanha, Itália, entre outros”, explica.
“Atualmente, a classe dominante dos Estados Unidos não tem outro instrumento para enfrentar a situação de busca pelo domínio, eles precisam fazer guerra”, comenta o diretor da Fundação Perseu Abramo. Ele citou ainda a importância da soberania militar nos países periféricos, além do trabalho de conscientização política da classe trabalhadora.
“Derrotar o fascismo hoje significa derrotar o imperialismo estadunidense, o que significa uma ameaça à sobrevivência de todo o capitalismo, e é por isso que as forças democráticas que são pró-capitalistas vacilam quando se trata da luta contra o fascimo e contra o imperialismo. Somente a esquerda, só os socialistas podem ser consequentes e ir até o fim nessa luta”, afirma Valter Pomar.
“A luta pelos direitos, soberania, liberdades, desenvolvimento e pelo socialismo representa um desafio estratégico imenso combinado a diversos perigos táticos, é só observarmos o que aconteceu já na Venezuela, Palestina, Cuba, Irã”, ressalta.
A deputada federal Sâmia Bomfim, do PSOL, falou que além da crise do capitalismo há ainda o contexto de colapso ambiental em que estamos inseridos como uma camada de preocupação a mais perante as lutas a serem travadas nos próximos períodos. Ela pontuou o genocídio em Gaza como um laboratório, em perspectiva ao que pode ocorrer com países que ameaçam os interesses do sistema hegemônico.
“Está na hora de trazermos conceitos e definições que as últimas gerações não debateram tanto, como a noção de soberania, da unidade latino-americana e a compreensão de que nosso território é passível de dominação e exploração dos Estados Unidos”, comenta Sâmia Bomfim.
Ela destacou o tema das terras raras como algo que coloca o Brasil diretamente na mira dos interesses exploratórios do capitalismo atual. Para a deputada federal do PSOL, a reeleição do presidente Lula neste ano é central para barrar o avanço da extrema direita.
“Temos que aliar o calendário eleitoral com a construção programática e o enfrentamento ideológico”, afirma Bomfim, que cita o crescimento da ideologia conservadora no Congresso Nacional, com o número expressivo de 105 deputados do PL.
Como comentaristas das palestras, participaram Gabriel Portillo, que é coordenador da Frente Sindical León Duarte, do Uruguai, e Giovani Culau, vereador em Porto Alegre, ex-dirigente da União Nacional dos Estudantes.
