O Brasil sob a Ameaça da Ultradireita e do Imperialismo foi o 4º tema debatido na I Conferência Internacional Antifascista, realizada em Porto Alegre (RS), entre 26 e 29 de março. Participaram como palestrantes a professora da UFABC Jana Silverman (EUA), o eurodeputado João Oliveira (PCP), a presidenta do PCdoB, Nádia Campeão, o ex-governador do Rio Grande do Sul e representante do PT Tarso Genro, a presidenta do Psol, Paula Coradi, e o presidente do PSB (RS) Beto Albuquerque, com mediação do historiador Raul Carrion. Como debatedores, estiveram presentes o deputado estadual do Rio Grande do Sul Leonel Radde e a representante da Marcha Mundial das Mulheres Tica Moreno.

Genro analisou especificidades do fascismo brasileiro, que naturaliza a palavra delinquente entre as instituições e a grande mídia monopolista, e citou o momento determinante em que o ex-capitão expulso do exército brasileiro Jair Bolsonaro foi ao microfone para celebrar a tortura. ”Em um estado de direito funcional que cumprisse suas promessas de combate ao crime e ao fascismo, ele teria de ser preso, e não foi. Ou teria de ser degradado pela mídia, mas foi compreendido. Houve uma articulação político-midiática que naturalizaram o fato por meio da palavra, e foi o primeiro momento de inflexão da formação deste fascismo”, pontuou.

Para Nádia Campeão, a extrema-direita todo o tempo esteve presente na história da constituição do país. A Ação Integralista Brasileira, no início da metade do século passado, embora com elementos contraditórios, baseava seu discurso em Deus, na pátria e na família, como Bolsonaro. “Vimos como foi a violência dos golpes na América do Sul. E, por trás disso, já haviam os Estados Unidos, a Casa Branca, o Departamento de Estado estadunidense, também influenciando e patrocinando as ditaduras, como hoje patrocinam guerras em outros países. Para nós, a transição deixou resquícios do que nós chamamos de entulho autoritário e não desmantelou completamente o núcleo duro da ditadura, pois tivemos oficiais formados na doutrina da segurança nacional que permaneceram nas forças armadas e nas polícias, preservando uma memória autoritária e resistindo à punição dos crimes de tortura, desaparecimentos e execuções”, lembrou.

Paula Coradi ressaltou que para enfrentar a direita é necessária uma articulação internacional que compartilhe experiências e ajude a pensar de forma coletiva. “A extrema-direita brasileira é heterogênea e representada por diversos segmentos, entre os quais o bolsonarismo compõe o grupo hegemônico. Também temos o setor dos coach-picaretas, como Pablo Marçal, expressão de um setor muito conectado com o viés econômico altamente liberal. E existe uma parte da extrema-direita que quer a total destruição do Estado, não só por um projeto econômico ultraliberal, mas também porque está ligada a todo tipo de crime que a gente possa imaginar, que vai de madeira e garimpo ilegal a ocupações do território. Não à toa o Congresso Nacional, durante esses quatro últimos anos, teve como um de seus principais projetos justamente facilitar esse tipo de acesso com o marco temporal e outras medidas”, afirmou.

A professora da UFABC Jana Silverman (EUA) falou sobre a relação dos EUA com o Brasil na conjuntura atual, em pleno auge do neofascismo. “Primeiro, é importante lembrar que o fascismo está no próprio DNA do Brasil e dos Estados Unidos. Tudo o que tem a ver com o legado da escravidão, o extermínio dos povos indígenas, o racismo institucional, estrutural e histórico marca os dois países. E temos agora o surgimento de um neofascismo e uma extrema-direita que são produtos também da ditadura militar e do macarthismo nos Estados Unidos, ou seja, o anticomunismo. Nesse contexto, vemos o surgimento de uma ação mais moderna, em teoria mais palatável, o que a torna mais perigosa, porque entra nas instituições políticas democráticas para miná-las por dentro e normalizar sua existência, seu “direito de contestar o poder em nossos países”, observou.

O eurodeputado João Oliveira, do Partido Comunista Português, afirmou que o momento atual é marcado pela crise estrutural do capitalismo e pela ofensiva exploradora e agressiva do imperialismo, que procura contrariar o declínio relativo dos Estados Unidos e das potências capitalistas do G7 e manter seu domínio hegemônico. De outro lado, é uma situação que mostra a resistência e a luta dos trabalhadores dos povos e o desenvolvimento de um amplo processo de rearrumação de forças no plano mundial. “Considero que tratamos de uma correlação de forças que, em nível internacional, seja mais favorável aos trabalhadores e aos povos. E o imperialismo recorre a instrumentos que não são novos e que já vimos no passado”, pontuou

Para ele, o fascismo hoje tem particularidades, mas no essencial continua a ser o mesmo do século XX: um instrumento do capital como uma expressão mais violenta e agressiva sobre os trabalhadores para procurar impor o controle e o domínio dos monopólios e do imperialismo à escala global. “Não é possível enfrentar e derrotar o fascismo sem enfrentar e derrotar o neoliberalismo, porque essas são duas faces da mesma moeda. “Por isso, na luta contra o fascismo temos de integrar a luta contra o neoliberalismo, pois são expressões dos mesmos fundamentos”.

O presidente do PSB, Beto Albuquerque, observou que, se olhamos para trás, na história do mundo, as lideranças que se alinharam à ditadura, ao fascismo é à negação de direitos foram muito militares. “Hoje, a construção do fascismo se dá por dentro, inclusive, da democracia, das eleições, das composições de governos. Vivemos uma ameaça rotunda contra a democracia, que, em primeiro lugar, é um direito. Não apenas um espaço onde eu posso votar, ser eleito ou não.

Ter o meu partido, organizá-lo, buscar novas filiações, participar do ativismo de esquerda necessário para as transformações. Na realidade, a democracia é um corte na atualidade, a ser usado para irmos contra o avanço anticivilizatório que acontece no mundo todo”, afirmou.

E destacou que no mundo praticamente não se vê mais o coletivo, apenas o individualismo. “A quebra da concepção de coletividade fez que todos nós ficássemos ainda mais expostos e enfraquecidos. Os aplicativos, as bets, todos esses instrumentos recentes servem para cada vez mais tornar individual a convivência da sociedade e explorá-la”, disse.

O deputado Leonel Radde mencionou o assassinato de Marielle Franco como um acontecimento que representa o risco à democracia nas eleições de 2026. “Ela foi assassinada com Anderson Gomes, às 21h30, e eu atuava na divisão de homicídios aqui de Porto Alegre. Às 8h30 da manhã seguinte já existiam pelo menos 4 ou 5 versões, todas indicando que a Marielle tinha vinculação com o Comando Vermelho, com Marcinho VP, fotos, vídeos distorcidos de outros parlamentares dizendo quem era ela, montagens e fake news em cima do ocorrido. E já tinha se formado uma opinião dentro das forças de segurança. A partir de então, foram meses de investigação não resolutivas”, relembrou.

“Um dos assassinos de Marielle Franco, Ronnie Lessa, morava no condomínio de Jair Bolsonaro, e o outro, Élcio Queiroz, foi buscá-lo no condomínio do Jair Bolsonaro, que tinha tinha fotos e homenagens a esses dois indivíduos. Então, essa eleição de 2026 não é disputa entre a democracia e os racistas e misóginos, não é apenas sobre nossa disputa ideológica por mais direitos e proteção contra o feminicídio. Estamos lidando, além de tudo isso, com uma facção criminosa”, afirmou.

E lembrou que no Rio de Janeiro, o ex-deputado estadual TH Joias e o deputado licenciado Rodrigo Bacelar, ex-presidente da Assembleia Legislativa, futuro candidato a governador do estado do Rio de Janeiro, foram indicados por Flávio Bolsonaro, ambos presos por envolvimento com o Comando Vermelho. Além disso, acusou Cláudio Castro, governador bolsonarista, pelo desvio de trezentos milhões de reais. “Todos eles são vinculados ao crime organizado. Inclusive, é o caso do Banco Master. Estamos lidando com esse tipo de criminoso, com os assassinos de Marielle Franco, porque todos eles estão envolvidos, se não como mandantes, tinham relações estruturantes e estruturais que permitiram esse assassinato. Estamos lidando com uma facção criminosa que quer novamente tomar conta do poder central do nosso país”.

A representante da Marcha Mundial de Mulheres Tica Moreno, disse que enfrentar a extrema direita neste momento de uma crise estrutural é um conflito do capital contra a vida, as condições objetivas que tornam a vida possível. “Isso significa o avanço do capital das empresas transnacionais sobre os nossos territórios, a natureza, a extração dos recursos naturais, nossos bens comuns, nosso trabalho, o avanço sobre os nossos corpos e o uso da violência e da militarização como instrumentos”, afirmou.

Para ela, em tempos de extrema precarização das condições de vida, do trabalho, temos o trabalho doméstico de cuidados cotidiano que a maior parte das mulheres faz como um colchão que ameaça a violência desse sistema. “Quando a gente fala sobre a família e entende o lugar da família no projeto fascista, não estamos falando só de valores, mas também das condições objetivas para que o aprofundamento do conflito do capital contra a vida possa avançar. O fato de que quatro mulheres foram assassinadas por dia em 2025 por serem mulheres não é um efeito colateral do sistema. Não é pouca coisa que as redes sociais, as “big techs”, essas que são pilar do governo Trump, estão monetizando a misoginia. E a gente não vai enfrentar isso sem um projeto de país, concluiu.

O vídeo completo da mesa está disponível no canal da Fundação Perseu Abramo no Youtube. No canal da Conferência Antifascista é possível assistir ao evento completo.