Faculdade ligada ao MST inaugura curso superior tecnólogo em Gestão de Cooperativas e estuda ofertar vagas a estudantes palestinos

Faculdade do MST é credenciada pelo MEC e inicia curso superior em Gestão de Cooperativas
Instalado no assentamento Filhos de Sepé, no município de Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre, o Instituto Educacional Josué de Castro passa a integrar formalmente o sistema federal de ensino superior
Foto: Divulgação IEJC

O credenciamento da Faculdade Josué de Castro pelo Ministério da Educação (MEC), a primeira Faculdade do MST, anunciado no início de fevereiro, marca um novo momento para a educação do campo no Brasil.

Instalada no assentamento do MST Filhos de Sepé, em Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre, a instituição passa a integrar formalmente o sistema federal de ensino superior e inaugurará sua atuação com um curso superior tecnólogo em Gestão de Cooperativas.

A inciativa é um desdobramento do Instituto de Educação Josué de Castro (IEJC), criado em 1995 para ofertar ensino médio, formação técnica e educação de jovens e adultos voltada a públicos oriundos de assentamentos, acampamentos e organizações populares do campo e da cidade.

Ao longo do tempo, o instituto desenvolveu experiências pedagógicas que articulam educação, trabalho e organização coletiva e também estabeleceu parcerias com universidades públicas para ofertar cursos superiores.

Em entrevista à Revista Focus Brasil, o coordenador-geral do IEJC e diretor-geral da nova faculdade, doutor e mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Miguel Stédile, afirmou que o credenciamento não é ponto de partida, mas reconhecimento de uma trajetória já consolidada.

Ao relacionar a conquista a décadas de experiência do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em práticas educativas no campo, destacou que a formalização institucional consolida um acúmulo histórico.

O coordenador define a faculdade como uma instituição de ensino superior credenciada pelo MEC, sem atribuir excepcionalidade ao status formal. “Em primeiro lugar ela não tem nada demais. É uma instituição de ensino superior credenciada pelo MEC para ofertar o curso de Tecnólogo em Gestão de Cooperativas”, afirmou.

Segundo ele, a proposta busca responder a demandas concretas dos territórios da reforma agrária: “Ela procura atender uma demanda que as famílias beneficiárias de reforma agrária têm de avançar na formação de recursos humanos para as cooperativas, para as associações, para os empreendimentos sociais”.

Da experiência do IEJC à autonomia da graduação

O credenciamento, segundo Stédile, abre uma etapa de maior autonomia. “Agora há uma instituição com autonomia para ofertar esses cursos e para atuar desde o território reformado”, afirmou. Para ele, a mudança amplia a capacidade de formação: “Essa faculdade materializa tudo que o MST acumulou nas escolas itinerantes, nas escolas de assentamento, na pedagogia sem terra, na utilização de métodos com a pedagogia da alternância”.

A localização, no assentamento Filhos de Sepé, é parte do sentido do projeto. Stédile descreveu o território como um “latifúndio conquistado, reformado e transformado em assentamento para quase 400 famílias na região metropolitana de Porto Alegre”. Ele explicou que o assentamento abriga “a maior extensão de produção de arroz orgânico do Movimento Sem Terra em todo o Brasil”.

Por que começar pela Gestão de Cooperativas

A decisão de iniciar a graduação com o curso de Tecnólogo em Gestão de Cooperativas está ligada a uma experiência já consolidada no IEJC. “O nosso principal curso técnico em cooperativismo, o ensino médio concomitante com o técnico, já formou 18 turmas”, disse. Há, segundo ele, “duas em andamento” e “uma terceira com abertura prevista para o próximo ano”.

A leitura do coordenador é que a complexificação dos empreendimentos exigiu formação superior. “O que a gente percebe? Que essa formação era insuficiente para as demandas que os assentamentos de reforma agrária foram colocando”, afirmou. Em sua avaliação, as cooperativas foram se complexificando, com ampliação para agroindústrias e agregação de valor. Com isso, cresceu a necessidade de capacitação em novas frentes. “Vai demandando a capacitação e a formação de outras áreas”, como “agroindústria”, “logística” e “comercialização”.

A faculdade não se destina apenas ao público beneficiário da reforma agrária. “Nós também queremos que essa seja uma escola a serviço das cozinhas solidárias, dos empreendimentos de economia solidária, do levante popular, da juventude, dos sindicatos”, disse. E completou: “Nós queremos que seja uma faculdade, uma instituição a serviço da classe trabalhadora como um todo”.

Pesquisa voltada aos problemas concretos dos territórios

A proposta institucional apresentada pelo IEJC associa formação superior e produção de conhecimento voltadas para desafios concretos vividos pela classe trabalhadora do campo. Na entrevista, Stédile insistiu que o projeto pretende conectar ensino, pesquisa e extensão às demandas reais.

“A gente vai ter a possibilidade não só da autoestima, da valorização, mas de pensar o ensino aprendizagem, uma pesquisa e uma aplicação a partir da realidade do que esses estudantes vivem”, afirmou.

A perspectiva exposta pelo coordenador é que o credenciamento amplia as condições de continuidade e escala, reduzindo a dependência de parcerias. Ao comentar a dinâmica de oferta de cursos superiores para beneficiários da reforma agrária, apontou limites quando políticas públicas são desmontadas ou quando faltam parceiros. “Nós sentimos que precisávamos ter uma instituição com autonomia”, disse, para garantir que cursos possam ser ofertados conforme a demanda.

Solidariedade internacional e horizonte de expansão

O coordenador também apresentou o internacionalismo como dimensão do projeto. “A gente quer também que essa solidariedade internacional se materialize nesses cursos”, disse. Ele afirmou que a prioridade, “na medida em que seja seguro e que haja essas condições”, seria ofertar vagas, “em especial para a juventude de Gaza”.

Stédile declarou que gostaria de receber estudantes palestinos cuja formação foi interrompida “pelo massacre, pelo genocídio que ocorre em Gaza”.

Segundo ele, a instituição também pretende estar aberta a parceiros internacionais e movimentos camponeses e urbanos identificados com o projeto pedagógico. “Não é uma escola só para os beneficiários da reforma agrária”, disse. A faculdade, afirmou, quer receber pessoas “de acordo com o seu projeto pedagógico, que é contribuir para a emancipação humana e para a melhoria, em especial para melhorar a vida, para que a gente tenha vida digna no campo”.

A previsão do coordenador-geral da faculdade é que a primeira turma inicie suas atividades no primeiro semestre de 2026. Com o curso em andamento, ele prevê iniciar atividades de pesquisa e extensão e, no médio prazo, avançar para outras áreas.

“A nossa intenção é, a médio e longo prazo, ampliar para as outras áreas”, citando “questão ambiental”, “educação, das licenciaturas” e “agronomia”. Também mencionou a possibilidade de ofertar especializações em temas ligados “à cooperação, à gestão”.

Quem foi Josué de Castro

Josué Apolônio de Castro (1908–1973) foi médico, nutrólogo, professor, geógrafo, cientista social, político, escritor e ativista reconhecido por sua atuação intelectual e pública no combate à fome, defendendo que ela não é um fenômeno “natural”, mas resultado de fatores sociais e estruturas econômicas.

Sua extensa obra inclui Geografia da fomeGeopolítica da fomeSete palmos de terra e um caixão e Homens e caranguejos.

Deputado federal eleito em 1955, foi reeleito em 1959 e renunciou ao mandato em 1962 para assumir o cargo de representante do Brasil junto aos organismos das Nações Unidas, com sede em Genebra. Foi presidente do Conselho Executivo da FAO e embaixador brasileiro na ONU. Recebeu o Prêmio Internacional da Paz, concedido pelo Conselho Mundial da Paz, e foi indicado ao Nobel da Paz em 1953, 1963, 1964 e 1965.

Para saber mais sobre sua vida e obra, a Editora Fundação Perseu Abramo disponibiliza o livro Josué de Castro e o Brasil, lançado em 2008.