Com Trump, tudo o que era aparentemente sólido desmanchou-se no ar, em um  ciclone político e geopolítico

O fracasso anunciado de Trump, por Marcelo Zero 
Foto: Gage Skidmore/Wikimedia Commons

Há uma onda de perplexidade no mundo. 

O governo Trump, em pouco mais de um mês de funcionamento, mergulhou o  planeta em um caos de “ordens executivas” que atira para todos os lados, sem uma  estratégia aparente, discernível e consistente, deixando observadores atônitos e  um tanto confusos. 

É difícil distinguir, à primeira vista, nessa névoa de medidas drásticas e autoritárias, objetivos racionais e factíveis de longo prazo para os interesses concretos dos EUA  e, particularmente, de suas empresas. Para onde vai o capitalismo dos EUA,  perguntam-se todos? 

Com Trump, tudo o que era aparentemente sólido desmanchou-se no ar, em um  ciclone político e geopolítico. 

É preciso considerar, antes de tudo, que o segundo governo Trump surge no  momento em que a ordem mundial passa por um momento delicado, imprevisível  e conflitivo. 

De fato, vivemos um complexo período de transição entre a antiga ordem  unilateralista da Pax Americana, surgida após o colapso da União Soviética e de seu  bloco, e o surgimento de um quadro internacional mais multipolar, no qual  potências emergentes, como Rússia e China, especialmente esta última, ocupam  espaços geoeconômicos e geopolíticos antes ocupados, de forma hegemônica  quase absoluta, pelos EUA. 

Também vivemos, desde o colapso financeiro de 2008, uma crise das políticas  neoliberais, que além de não promoverem crescimento sustentado, na maior parte  dos países, impulsionam as desigualdades de renda e de patrimônio, que voltaram  aos níveis do início do século XX, corroem a coesão social, eliminam e revertem as  antigas expectativas de melhorias na qualidade de vida intergeracional e promovem  uma persistente erosão das democracias e dos sistemas clássicos de  representação. 

Em artigo recente, Piketty assinala que a luta entre democracia e oligarquia é a luta  deste século, que definirá nosso futuro coletivo. Ao usar o termo oligarquia, Piketty  refere-se, obviamente, à crescente e extrema concentração de renda e patrimônio do “hipercapitalismo” desregrado, o qual conduz à mencionada fragilização das 

democracias. Tem ele razão.

Mas essa luta está indefinida. Como diria Gramsci, estamos naquele momento em  que velho ainda não morreu, mas o novo ainda não se consolidou, de forma clara e  definitiva. 

Na realidade, com Trump vivemos uma clara conjuntura de afirmação de interesses  oligárquicos, hipercapitalistas, e de fragilização da democracia, bem como de volta  a um unilateralismo geopolítico exacerbado. 

Como todo reacionário, Trump faz menção a um passado mítico, no qual os EUA  teriam tido muito afluência e prosperidade. Um passado ao qual os EUA teriam de  retroceder para serem “grandes de novo”. Hitler e Mussolini diziam a mesma coisa.  Mais recentemente, Milei também repetiu a fábula do passado de glória que precisa  ser retomado.  

O observador mais atento já deve ter percebido que, ao falar desse passado mítico  e de suposta grande afluência, Trump menciona um período que teria começado  em meados do século XIX e teria terminado em 1913. 

Mas qual a razão da menção a esse ano específico, 1913? 

É que até esse ano a principal fonte de receita do governo dos EUA eram as tarifas  e taxas de importação, as quais chegaram, em alguns momentos, à médias de  cerca de 60%. Alexander Hamilton, primeiro Secretário do Tesouro dos EUA, logo  advogou pela proteção da indústria do seu país, afirmando que os argumentos de  Adam Smith a favor do comércio livre “embora teoricamente verdadeiros  (geometrically true)’, eram ‘falsos, na prática’. 

Essa política amplamente protecionista ajudou a industrializar o Norte dos EUA,  embora desagradasse o Sul agrícola, que tinha de arcar com bens de capital e de  consumo mais caros. Foi um dos motivos que levaram à Guerra Civil estadunidense. 

Em 1913, porém, foi ratificada a décima-sexta Emenda Constitucional dos EUA, a  qual introduziu o imposto de renda federal. Até então, não havia existido imposto  sobre a renda nos EUA, à exceção de um curto período para cobrir os custos da  guerra civil. 

Os Republicanos sempre se opuseram à criação do imposto de renda. Naquele  período, defendiam e praticavam, quando no governo, tarifas de importação as  mais altas possíveis. Já os Democratas argumentavam que as tarifas muito altas  beneficiavam os ricos, mas prejudicavam o grosso da população, que tinha de arcar  com o consumo de produtos mais caros. Era necessário introduzir um imposto para  os mais ricos. 

Essa divisão só foi superada via Emenda Constitucional. Os conservadores  Republicanos concordaram com a apresentação da Emenda porque consideraram 

que ela jamais seria aprovada, uma vez que modificações no texto constitucional dos EUA requerem sua ratificação por três quartos dos Estados. Mas ela acabou  sendo aprovada e ratificada. 

Assim, por trás dessa idolatria de Trump pelas tarifas (a palavra de que mais gosta,  segundo ele) parece-nos que se escondem dois grandes objetivos combinados: 

1- Retomar a velha política de substituição das importações e de proteção das  suas indústrias, que predominou, com nuances, até o fim da Segunda  Guerra Mundial.  

Trump quer que as indústrias estadunidenses voltem a produzir em território do  EUA, transformando de novo seu país na fábrica do mundo e substituindo a China  nesse papel. Saliente-se que, no começo da década de 1950, os EUA respondiam  por mais de 60% da produção industrial do mundo. Hoje, respondem por apenas  15,9%. Já a China responde por 31,6%. Praticamente o dobro. Não se trata, por  conseguinte, de meras bravatas negociadoras. Não se trata de escusas para se  obter objetivos outros, como o controle do mercado de fentanil ou a contenção da  imigração indocumentada. Trump realmente acredita que o protecionismo e as  tarifas têm um papel fundamental a cumprir na economia estadunidense. Claro  que há também a finalidade corrupta de obter lucro com as flutuações de curto prazo no mercado de capitais, com base em inside information. Mas o objetivo  principal é mesmo a volta do protecionismo. 

2- Superar os desafios econômicos, fiscais e sociais dos EUA sem a  necessidade de aumentar o imposto de renda para os mais ricos. Ao  contrário, segundo seu ponto de vista, seria necessário reduzi-lo. Como no  passado mítico, tarifas de importação mais altas poderiam facilitar esse  objetivo. Ou seja, as tarifas teriam também a função de reduzir o déficit e a  dívida, mantando ou mesmo ampliando os privilégios milionários e os  bilionários. 

Trump e os Republicanos não admitem, de forma alguma, aumento de impostos,  nem em âmbito interno, nem em âmbito internacional, como o Brasil sugeriu na última cúpula do G20. Ao contrário, Trump e o MAGA têm uma agenda anti impostos, principalmente de impostos para os muito ricos. 

Durante o New Deal de Roosevelt, os impostos sobre os mais ricos chegavam, em  certos casos, a 70%. Reagan, que tinha o mesmo mote de Trump (Make American  Great Again) reduziu drasticamente, em 1986, a alíquota máxima para 28%. 

O problema é que os Democratas apoiaram essa agenda regressiva sobre  impostos. Biden, na época, votou favoravelmente à proposta de Reagan. Clinton e  Obama não ousaram tocar no assunto.  

Desde então, o aumento progressivo de impostos tornou-se um tema tabu, no  mainstream político dos EUA. Somente Bernie Sanders e Elizabeth Warren ousaram apresentar, em 2020, um projeto que visava criar um novo New Deal (com  perdão pela redundância), sustentado na sobretaxação dos bilionários. Foram  derrotados, no âmbito de um Partido Democrata muito capturado por interesses  privados.  

É também por causa dessa agenda contra impostos e em defesa dos bilionários e  milionários que Trump colocou Elon Musk, o homem mais rico do mundo, à frente  do DOGE (Department of Government Efficiency), com o intuito de reduzir  drasticamente os gastos públicos e o tamanho do Estado, nos EUA.  

Com efeito, Musk iniciou uma vasta e brutal ofensiva, permeada por fake news absurdas, contra os gastos públicos, principalmente os feitos no exterior e os  gastos sociais, e contra os próprios funcionários das agências dos EUA, tachando os, essencialmente, de parasitas e inúteis. O já tristemente famoso e-mail de Musk  para os funcionários públicos demonstra um intencional tratamento degradante desses trabalhadores. Uma das primeiras medidas do DOGE e de Trump foi  oferecer demissão voluntária para os cerca de 2 milhões de servidores públicos  civis dos EUA. 

Trump e Minsk querem cortar gastos em cerca de US$ 1 trilhão. Isso é simples  loucura. Só para se ter uma ideia, o orçamento federal dos EUA foi, em 2024, de  US% 6,8 trilhões. Obviamente, essa meta é impossível de ser alcançada, sem um  colapso em muitos serviços públicos. Mas demonstra o caráter e a natureza do  governo Trump. 

Como bem definiu Bernie Sanders, parafraseando Lincoln, o governo Trump é um  governo dos bilionários, pelos bilionários e para os bilionários.  

Contudo, a ofensiva contra os funcionários públicos não visa apenas “economizar  e cortar gastos”. Objetiva também aparelhar politicamente o Estado dos EUA, algo  que já estava previsto explicitamente no Projeto 2025, da Heritage Foundation. De  fato, Trump quer governar apenas com “gente leal” a ele e ao MAGA. Sua bizarra e  farsesca equipe governamental evidencia essa total ausência de “republicanismo”,  com perdão do trocadilho. Nem os militares do Pentágono estão escapando. 

Em suma, a estratégia de Trump para enfrentar os desafios impostos pela nova  ordem mundial e tentar retomar a hegemonia econômica e política dos EUA parece  ser uma mistura bastante singular, do ponto de vista histórico, de nacionalismo e  protecionismo econômicos, combinados com políticas neoliberais típicas, como a 

de redução do tamanho e do papel o Estado, a diminuição acentuada dos gastos  públicos, especialmente os sociais, e a manutenção ou mesmo intensificação de  uma política fiscal e econômica que visa preservar inteiramente os interesses de  uma parcela ínfima de bilionários e que rejeita quaisquer ações efetivas para  distribuir renda, prover serviços públicos de qualidade para a população e  reconstruir a classe média estadunidense. 

Não obstante, isso não é tudo. A aliança clara entre Trump e as Big Techs revela  também outras vertentes estratégicas.  

Trump estaria fazendo uma aposta estratégica no que Yanis Varoufakis chama de  “tecnofeudalismo”, o qual estaria substituindo, segundo ele (Yanis), o capitalismo  clássico. 

Existe uma espécie de “terra digital”, um território digital ubíquo, cada vez mais  verticalizado e oligopolizado, que controla as transações econômicas e  informacionais em nível global, e substitui o lucro capitalista por algo semelhante à renda fundiária que prevalecia no sistema feudal. 

A Amazon, por exemplo, alega Varoufakis, não produz absolutamente nada. Ela  apenas oferece seu território digital para que empresas e consumidores realizem  suas transações. Em troca, ela exige um percentual sobre as transações, a sua  renda referente ao uso de seu território, sua “gleba digital.” O que Varoufakis chama  de cloud rent. 

Mas, não se trata apenas de uma mera intermediação, de uma prestação de  serviços. As grandes plataformas digitais, alega ele, dominam os mercados. Essas empresas não operam em uma lógica puramente mercadológica. Segundo  Varoufakis, os usuários não são clientes no sentido clássico, mas “servos e  vassalos” que geram dados para tais empresas e que dependem dessas  plataformas para acessar informações, trabalho e serviços essenciais. 

Como no modo de produção feudal, haveria um sistema de dominação, difuso, porém muito eficaz, que manteria os “servos” e “vassalos”na gleba de propriedade  do senhor feudal digital. 

O capital da nuvem, segundo ele, eliminou os dois pilares do capitalismo clássico:  os mercados e os lucros. 

Não que eles não existem mais. Obviamente continuam a existir. Mas não determinam mais a dinâmica da economia, que está sobreterminada pela renda da  “nuvem.” 

Esses “territórios digitais” contam, hoje, com uma população de cerca de cinco  bilhões de pessoas, que dependem das plataformas para virtualmente todos os  aspectos de suas vidas.

Por isso, essas empresas já têm valor de mercado na casa de US$ 1 trilhão. Trata se de uma enorme concentração econômica e tecnológica nas mãos ou nos dígitos  (dedos) de muito poucos, que se reflete em um poderoso domínio político direto.  Frequentemente, esses poucos, de uma única nacionalidade (estadunidense), impõem suas próprias regras, desrespeitam leis e normas de muitos países e  interferem em eleições e nos processos democráticos.  

A internet, as redes sociais e as poucas empresas que as dominam tornaram-se o  oposto daquilo que fora imaginado, no início da popularização da rede mundial de  computadores. 

Com efeito, na década de 1990, o boom da internet nos países mais desenvolvidos,  notadamente nos EUA, suscitou a falsa esperança de que a rede mundial de  computadores, um espaço em tese neutro e democrático, propiciaria a todos os  cidadãos oportunidades únicas e homogêneas para informar-se, formar-se e  cooperar ativamente, de forma horizontal.  

São dessa época, note-se, os principais escritos de Manuel Castells sobre a  sociedade em redes, em tese não hierarquizadas e mais democráticas. 

Essa utopia digital transformou-se rapidamente, porém, na distopia de um “tecno  feudalismo” opressivo, ubíquo e antidemocrático. 

Note-se que as Big Techs têm, há muito, uma relação umbilical com a NSA e outras  agências de inteligência dos EUA. Trump, no entanto, está estreitando essa relação,  dessa vez com intuitos políticos próprios e de afirmação da extrema-direita, em  nível mundial. 

O debate, legítimo, conceitual, sobre a categorização do tecnofeudalismo nos  parece secundário, nessa análise. O ponto fulcral, é o de que essa aliança entre o  MAGA e as Big Techs compõe um poderosíssimo instrumento econômico,  financeiro, tecnológico, social, político e cultural, que ameaça frontalmente as  democracias e a soberania dos países, e que tem potencial para realizar fortes  intervenções na ordem mundial, em favor de uma nova hegemonia dos EUA. 

Não obstante, a principal utilidade da aliança provavelmente se relaciona a  possível solução da contradição básica da estratégia econômica de Trump. Trump  ao querer reindustrializar os EUA, precisa de um dólar relativamente fraco, que  estimule as exportações e dificulte as importações. Porém, isso poderia afetar o dólar como reserva de valor e sua hegemonia financeira no mundo. 

Tal dilema poderia ser resolvido. segundo os estrategistas de Trump, com o  estabelecimento de um fluxo financeiro das reservas internacionais em dólar (da  China, da Europa, do Japão etc.) para uma mistura de criptomoedas controladas  pelas fintechs e Big Techs estadunidenses.

Dessa maneira, o dólar poderia cair de valor, mas a hegemonia financeira dos EUA  poderia ser mantida, graças às cripto moedas assentadas na renda da nuvem. Uma  aposta, sem dúvida, extremamente duvidosa, sem um currency board que dê lastro  a essas criptomoedas de natureza volátil. 

Mesmo assim, nos parece pouco provável que essas estratégias de Trump e do  MAGA para enfrentar os problemas internos do EUA e contraporem-se à  consolidação de uma ordem mundial multipolar, simétrica e multilateral venham a  funcionar.  

Afinal, não se pode deter a passagem do tempo e as céleres mudanças  geoeconômicas e geopolíticas em curso não poderão ser contidas pela  ressuscitação de um passado mítico e por um protecionismo mirabolante,  indiscriminado e improvisado, sem uma estratégia de longo prazo de rearranjo das  cadeias produtivas. 

Entretanto, Trump, nesse processo de resistência reacionária, poderá causar  muitos problemas econômicos, sociais e políticos. Internos e externos. Em  especial, os danos à democracia poderão ser substanciais, se não houver resposta  concertada à articulação internacional da extrema-direita, turbinada pelas Big  Techs.  

Será necessário que haja uma reação internacional a Trump e às oligarquias  “tecnofeudalistas” (Varoufakis) ou “hipercapitalistas” (Piketty) para que as  democracias voltem a florescer. Isso imporá, talvez, algumas novas alianças internacionais. 

Em prazo mais longo, entretanto, esse isolacionismo político e econômico dos EUA  será um tiro pela culatra. A atitude hostil de Trump contra o mundo inteiro, mesmo  contra aliados históricos terá, evidentemente, consequência negativas, até para  muitas empresas dos EUA, já muito globalizadas. Afinal, não se promove uma nova  “indústria nacional” da noite para o dia, extinguindo, subitamente, as cadeias  internacionais ou regionais de produção. 

Ademais, é preciso considerar que o dinheiro que os EUA perdem com déficits  comerciais acaba “voltando”, em montante significativo, para os EUA, sob a forma  de investimentos financeiros e diretos, que beneficiam empresas norte americanas e o próprio governo estadunidense.  

No mínimo, essa antipolítica de Trump poderá contribuir para acelerar os  movimentos pela desdolarização do comércio e das finanças mundiais, mesmo  com a constituição da mencionadas cripto moedas, socavando, por dentro, os  pilares econômicos da hegemonia geoeconômica e geopolítica dos EUA.

Trump, entretanto, tem pressa e faz muitas coisas improvisadamente. Possui somente mais 4 anos para deixar alguma “marca”. Pensa em “impactos” de curto prazo. Vai acabar tropeçando nos próprios pés. 

Trump parece esquecer uma lição fundamental. Não há vácuo em política ou geopolítica. O “espaço” deixado por Trump na ordem mundial por seu  isolacionismo, seu protecionismo exacerbado e sua brutalidade desabrida será  inevitavelmente preenchido por outros atores. 

Não há império que se sustente sem um mínimo de soft power. 

A China, aliás, já se candidatou a liderar uma nova ordem mundial mais multipolar e simétrica. Parece evidente que o Sul Global acabará voltando-se mais  intensamente para o BRICS, buscando proteção em meio à desordem mundial  baseada da força bruta proposta por Trump. 

Piketty escreve, no artigo já mencionado, que acima de tudo, o resto do mundo pode  muito bem liderar as mudanças políticas mais progressistas nas próximas décadas. 

Muito embora Piketty afirme pouco se pode esperar de “oligarquias autoritárias  como China e a Rússia”, diz que dentro dos BRICS, há democracias vibrantes que  representam mais eleitores do que todos os países ocidentais juntos, começando  com a Índia, o Brasil e a África do Sul. Em 2024, o Brasil apoiou a ideia de um  imposto global sobre a riqueza de bilionários no G20. 

Piketty também afirma que “na batalha global entre democracia e oligarquia, só  podemos esperar que os europeus saiam de sua letargia e desempenhem seu  papel integralmente. A Europa inventou o estado de bem-estar social e a revolução  social-democrata no século XX, e é ela quem mais tem a perder com o  hipercapitalismo trumpista. 

Em tese, isso abriria um maior espaço de cooperação entre o chamado Sul Global  e a Europa. De fato, uma aliança entre as democracias do BRICS e do Sul Global e  a Europa poderia produzir resultados robustos, transmutando a correlação de  forças internacional. 

Parece-nos, contudo, que a Europa, ou parte dela,terá de abandonar suas posições  em prol de uma nova Guerra Fria e deixar de dividir o mundo, de modo artificial e  inútil e maniqueísta, entre autocracias e democracias.  

Afinal, nas articulações em nível internacional, o importante é estabelecer pontos  de confluência em prol de um mundo mais simétrico, igualitário, socialmente justo  e ambientalmente sustentável, como faz o Brasil, de forma exemplar.  Fundamental, também, é não interferir na soberania e nos assuntos internos de  outros países. 

Democracia, em nível mundial, significa, essencialmente, multilateralismo e  multipolaridade. 

Qualquer país que deseje se agregar à criação de uma ordem mundial voltada a  esses grandes objetivos tem de ser bem-vindo. Tolerância com as diferenças é  fundamental. É a base da diplomacia. 

Mais especificamente, parece-nos que a Europa, sem abandonar seus valores, teria de rever suas desconfianças e hostilidades referentes à China, à Rússia e a  outros membros dos BRICS.  

A Europa não deveria investir em um conflito com a Rússia. Em sentido contrário,  deveria se empenhar em acabar de vez com a guerra na Ucrânia, com uma paz  realista. A ideia de que a Rússia representa uma ameaça imperial à Europa não  parece ter fundamento na realidade.  

Jeffrey Sachs argumenta, com razão, que o Ocidente perdeu várias oportunidades  para estabelecer laços fortes de cooperação pacífica com a Rússia. No entanto, as  tentativas de aproximação da Rússia para o Ocidente sempre foram, em última  instância, rejeitadas.  

Em vez de investir tanto em armamentos e na obsoleta Otan, a Europa deveria  investir mais em parcerias com a Rússia, num jogo de “ganha-ganha”. Sobretudo, é  possível e necessário negociar com clareza, os novos espaços de influência, inseri los em tratados vinculantes e respeitá-los. O mesmo poderia ser feito com a China,  país que toma cuidado extremo em não interferir nos assuntos de quaisquer países. 

Precisamos de uma nova reunião de Yalta. 

O Brasil, na presidência do BRICS, poderá contribuir com esse processo para a  criação de uma ordem mundial mais inclusiva e simétrica, em sentido oposto à  ordem “hobbesiana” e desigual que Trump intenta impor ao resto mundo 

Todos teriam muito a lucrar, e nada a perder, com negociações, paz, multilateralidade e investimentos na igualdade entre os países e entre os povos. 

Afinal, o que está acontecendo agora, sob novas roupagens e formas, é o que  sempre aconteceu nas últimas décadas: as oligarquias e os muito ricos,  mergulhados numa insana desigualdade, não querem ceder seus privilégios e o  Império, mergulhando sua cabeça de avestruz no solo digital, não quer perder sua  antiga e absoluta hegemonia.  

Nem os EUA e nem o mundo terão futuro com Trump.  

Só seremos grandes e prósperos, se os nossos povos forem também grandes e  prósperos. 

A pior paz sempre será melhor do que qualquer guerra. E qualquer negociação é  mais inteligente que o uso da força bruta.