61 anos do golpe: a luta contra a ditadura militar e a origem do PT
As mobilizações que levaram à fundação do partido começaram com as greves no Grande ABC, no final dos anos 1970

Brasil, final dos anos 1970. O país ainda vivia por trás da falsa vitrine do “milagre econômico” que anunciava a ditadura militar, mas a realidade da população era outra: queda real do salário mínimo, maquiagem nos índices de inflação, arrocho salarial, aumento da desigualdade social e repressão cada vez maior contra lideranças políticas e sindicais.`
Diversas categorias estavam no limite da tolerância diante da retirada de direitos imposta pelo governo militar, e a luta não podia ser interrompida. Mesmo com a proibição de atos e com os agentes do golpe sempre à espreita, a única saída era cruzar os braços e mostrar aos patrões que a resistência seguia mais forte do que nunca.
O primeiro capítulo dessa jornada aconteceu durante a greve na Saab-Scania, em São Bernardo do Campo, em 12 de maio de 1978, com um operário chamado Luiz Inácio Lula da Silva à frente daquela multidão reunida na porta da fábrica. À época, Lula presidia o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema (hoje Sindicato dos Metalúrgicos do ABC).
“Foi naquele pátio que nós começamos a conquistar a redemocratização do nosso país. Aqui, no dia 12 de maio de 1978, um grupo de trabalhadores resolveu se exercitar, depois de muitos anos — porqude o regime militar não permitia o direito de greve, uma conquista universal, que é o exercício da greve. Eu estava no sindicato, às 8h, quando recebi o telefonema de que a Scania tinha parado”, contou Lula, em evento realizado na montadora, décadas mais tarde, em 2008.
Aquela greve, considerada um marco na defesa da democracia, reacendeu a esperança do povo e novas paralisações começaram a surgir. No ano seguinte, em 13 de março de 1979, aconteceria a também histórica Greve Geral do ABC, ainda com Lula como porta-voz da classe trabalhadora.
Professores, bancários, funcionários públicos, jornalistas e diversas outras categorias começaram a se unir aos operários para ampliar o alcance das reivindicações. Mas, ao mesmo tempo em que as mobilizações ganhavam força e colocavam o regime contra a parede, aumentavam também os casos de violência e prisões contra manifestantes, sobretudo as lideranças sindicais.
Foi então que, a partir de um grande anseio coletivo e com representantes religiosos, artistas e estudantes como novos apoiadores, surgiu a ideia de fundar um “partido dos trabalhadores” que agregasse todas as pautas consideradas urgentes. Em favor dessa perigosa decisão, havia o fato de que as causas, na transição de uma década para outra, iam muito além daquelas defendidas no chão de fábrica: era o futuro do Brasil que estava em jogo.
Pouco antes do surgimento
Mesmo com a perseguição política aos grevistas, muitos deles (como Lula) presos pelo DOI-CODI, a pressão sobre o governo do então presidente João Figueiredo só aumentava. Era preciso insistir na ideia de um partido que unificasse o país.
A história avançou durante o IX Congresso dos Trabalhadores Metalúrgicos, Mecânicos e de Material Elétrico do Estado de São Paulo, ocorrido na cidade de Lins, em 24 de janeiro de 1979, quando foi aprovada a tese proposta pelos metalúrgicos de Santo André, “chamando todos os trabalhadores brasileiros a se unificarem na construção de um ‘Partido dos Trabalhadores’”. Esse documento ficou conhecido como a Tese de Santo André-Lins.
“A história nos mostra que o melhor instrumento com o qual o trabalhador pode travar esta luta é o seu partido político. Por isso, os trabalhadores têm que organizar os seus partidos que, englobando todo o proletariado, lutem por efetiva libertação da exploração. Hoje, diante da atual conjuntura política, econômica e social que vive a sociedade brasileira, essa necessidade, com o peso de sua importância, se faz sentir”, diz trecho do documento.
Depois, com a elaboração da carta de princípios lançada em 1º de maio de 1979, ficou clara a disposição da classe trabalhadora para que o PT saísse de fato do papel. Mesmo com tantos desafios pela frente, a única certeza era que esse partido teria como objetivo principal seguir na luta contra o regime militar. Na carta, há o seguinte trecho:
“A ideia da formação de um partido só dos trabalhadores é antiga quanto a própria classe trabalhadora. Numa sociedade como a nossa, baseada na exploração e na desigualdade entre as classes, os explorados e oprimidos têm permanente necessidade de se manterem organizados à parte, para que lhes seja possível oferecer resistência séria à desenfreada sede de opressão e de privilégios das classes dominantes. Mas sempre que as lideranças dos trabalhadores e oprimidos se lançam à tarefa de construir essa organização independente de sua classe, toda sorte de obstáculos se contrapõe aos seus esforços.”
A fundação do PT: 45 anos
Ambos os casos abriram caminho para que, em 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion, em São Paulo, e com a presença de um grupo bastante heterogêneo, o Partido dos Trabalhadores fosse, enfim, fundado.
“O Partido dos Trabalhadores surge da necessidade sentida por milhões de brasileiros de intervir na vida social e política do País para transformá-la. A mais importante lição que o trabalhador brasileiro aprendeu em suas lutas é a de que a democracia é uma conquista que, finalmente, ou se constrói pelas suas mãos ou não virá. […] O Partido dos Trabalhadores nasce da vontade de independência política dos trabalhadores, já cansados de servir de massa de manobra para os políticos e os partidos comprometidos com a manutenção da atual ordem econômica, social e política. Nasce, portanto, da vontade de emancipação das massas populares”, reitera o manifesto de fundação do partido.
Em outro trecho, o documento afirma: “Em oposição ao regime atual e ao seu modelo de desenvolvimento, que só beneficia os privilegiados do sistema capitalista, o PT lutará pela extinção de todos os mecanismos ditatoriais que reprimem e ameaçam a maioria da sociedade. O PT lutará por todas as liberdades civis, pelas franquias que garantem, efetivamente, os direitos dos cidadãos e pela democratização da sociedade em todos os níveis.”
Já na ata de fundação, há a descrição do pronunciamento feito por Lula, escolhido para ser o primeiro a presidir o PT:
“Começamos a construir um partido que defende a autonomia dos sindicatos, associações profissionais, movimentos populares, entidades representativas de setores da sociedade independentes do próprio partido e nos sentimos satisfeitos por este acontecimento”, declarou.
Os anos 1980
Década nova. Velhos problemas. Os anos 1980 começaram e a situação do país só se agravou, marcando o período chamado por historiadores de “Década Perdida”. Foi nesse contexto que mais de dois milhões de trabalhadores e trabalhadoras se uniram pela greve geral, contra o arrocho e o FMI. Mais de 35 categorias profissionais foram às ruas, junto aos sindicatos e partidos políticos, para protestar contra as medidas econômicas do regime militar.
A greve geral foi convocada para o dia 21 de julho de 1983, por 24 horas. Mais uma vez, o PT esteve ao lado da população. Pressionado pelas mobilizações, o Congresso derrubou o decreto, forçando o governo ao recuo. O PT, que havia disputado as eleições pela primeira vez em 1982, elegendo oito deputados, seguia forte na luta para manter os direitos da população.
Dali em diante, com a abertura política ocorrida anos depois, o Partido dos Trabalhadores seguiria presente em qualquer luta que envolvesse a classe trabalhadora.