Enquanto o STF julga Bolsonaro e aliados por tentativa de golpe em 2022, o Brasil rememora os 61 anos da ditadura militar – e enfrenta o desafio de não repetir os erros que levaram à impunidade do passado

1964 e o 8 de janeiro: passado e presente se encontram no banco dos réus
Paulo Pinto/Agência Brasil

O Brasil chega aos 61 anos do golpe militar de 1964 em um momento crucial de sua história democrática. Enquanto o Supremo Tribunal Federal julga o ex-presidente Jair Bolsonaro e sete aliados militares por tentativa de golpe em 2022, a sociedade brasileira se vê diante de um espelho que reflete tanto as sombras do passado quanto os desafios do presente. 

O julgamento histórico, que pode resultar em penas de até 43 anos de prisão para os acusados, não se limita ao aspecto jurídico – ele representa um acerto de contas com um ciclo de violência política que parecia ter ficado para trás, mas que ressurgiu com força nos últimos anos.

Na quarta-feira (26), o STF aceitou a denúncia contra Jair Bolsonaro (PL) e sete aliados – entre eles generais, almirantes e ex-ministros – por liderarem uma trama antidemocrática após a derrota eleitoral de 2022. Os réus, que respondem por crimes como tentativa de abolição violenta do Estado democrático, podem pegar até 43 anos de prisão.

A sessão do STF que aceitou a denúncia contra Bolsonaro e seus aliados foi marcada por falas contundentes dos ministros. Cármen Lúcia, citando a historiadora Heloisa Starling, lembrou que “golpe não se faz em um dia”, traçando um paralelo direto entre os eventos de 2022 e o processo que levou ao golpe de 1964. Já Flávio Dino foi ainda mais enfático ao afirmar que “Golpe de Estado mata”, lembrando que as consequências de rupturas democráticas se estendem por anos, como bem mostra o caso do deputado Rubens Paiva, desaparecido durante a ditadura militar. A presença de familiares de vítimas do regime militar, como Ivo Herzog e Hildegard Angel, conferiu ao julgamento um peso simbólico ainda maior, conectando as lutas do passado com os combates do presente.

A ditadura militar (1964-1985) não foi um evento isolado na história brasileira, mas sim o ápice de um processo de militarização da política que remonta à Revolução de 1930. O regime que se instalou em 1964 combinou repressão política com um projeto econômico que, embora tenha promovido crescimento industrial, aprofundou desigualdades e concentrou renda. A transição para a democracia, marcada pela Lei da Anistia de 1979, deixou pendente a questão da responsabilização pelos crimes cometidos durante o regime – uma dívida histórica que hoje se reflete no debate sobre como lidar com os eventos de 8 de janeiro de 2023.

O governo Lula tem sido enfático em sua posição contra qualquer tentativa de anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 2023. Ministros como Luiz Marinho e Gleisi Hoffmann têm repetido que a responsabilização penal dos envolvidos é um “dever histórico” para a consolidação da democracia brasileira. Essa posição se choca, no entanto, com pressões de setores do Congresso que defendem um “esquecimento” dos eventos recentes – reproduzindo, em certa medida, o mesmo padrão que marcou a transição da ditadura para a democracia nos anos 1980.

O passado que não passa: o que 1964 e 2022 têm em comum

O Brasil enfrenta hoje desafios que vão além do julgamento dos responsáveis pela tentativa de golpe. A herança do governo Bolsonaro inclui não apenas a militarização de pastas civis e a apologia à tortura, mas também uma crise econômica e social agravada por anos de má gestão. Enquanto isso, setores golpistas continuam ativos tanto nas Forças Armadas quanto no Congresso, alimentando campanhas de desinformação que minam a credibilidade das instituições democráticas. Nesse contexto, a defesa da democracia não pode se limitar ao campo simbólico – ela exige reformas estruturais que vão desde a área de segurança pública até o sistema tributário, passando por uma profunda revisão do papel das Forças Armadas na sociedade brasileira.

Os 61 anos do golpe de 1964 e o julgamento dos envolvidos na tentativa de golpe de 2022 representam dois momentos cruciais de uma mesma história. Se em 1964 o Brasil sucumbiu ao autoritarismo, em 2022 as instituições democráticas resistiram – mas a vitória ainda está longe de ser completa. Como bem lembraram os ministros do STF, a democracia não se celebra apenas no discurso: ela exige vigilância constante, memória ativa e, acima de tudo, a coragem de fazer justiça quando necessário. O Brasil tem hoje a oportunidade de virar uma página triste de sua história – não apagando o passado, mas aprendendo com ele para construir um futuro mais justo e democrático. Como publicou o STF em suas redes sociais: “Lembrar para que nunca mais se repita”. O Brasil tem, agora, a chance de virar essa página – sem esquecer as lições do passado, mas com os olhos no futuro.