Para Marilane Teixeira, da Unicamp, redução da jornada pode beneficiar mulheres que acumulam trabalho formal e tarefas domésticas

Uma das pautas prioritárias do governo federal em 2026 é a redução da jornada de trabalho por meio de PEC (Proposta de Emenda à Constituição). No centro do debate está o fim da chamada escala 6×1, em que o trabalhador cumpre seis dias de expediente e tem apenas um de folga semanal.

O tema tem mobilizado lideranças do campo progressista e especialistas. Entre os argumentos apresentados estão o direito ao descanso e ao lazer e a possibilidade de geração de novos empregos. Outro aspecto que ganhou força no debate é a sobrecarga na vida de muitas mulheres que, além de cumprir o expediente, seguem responsáveis pela maior parte das tarefas domésticas e do cuidado com os filhos.

Para a economista Marilane Teixeira, pesquisadora das relações de trabalho e gênero e pós-doutora pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), esse é um ponto crucial da reforma. Dados do IBGE mostram que as mulheres dedicam, em média, quase o dobro de horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidados em comparação com os homens.

Marilane Teixeira, pesquisadora das relações de trabalho e gênero e pós-doutora pela Unicamp: “O combate inflacionário é uma escolha política”
Foto: Divulgação.

“As pessoas querem se dedicar a viver outras dimensões da sua vida. Eu não tenho dúvida nenhuma de que isso tem um impacto muito grande entre os homens e, especialmente, entre as mulheres, porque elas ainda estão submetidas a uma jornada de trabalho nos lares muito extensa”, explica.

“Todo o trabalho doméstico e de cuidados ainda segue sob responsabilidade majoritariamente das mulheres.”

Marilane ressalta, porém, que a redução da jornada precisa vir acompanhada de medidas estruturais que enfrentem a desigualdade na divisão do trabalho doméstico. “Se o número de horas que as mulheres dedicam ao trabalho doméstico e de cuidado é maior que o dos homens, então ter mais um dia livre, claro, não é exatamente o que a gente espera”, afirma.

Ter mais tempo livre, prossegue a acadêmica, também significa ampliar as possibilidades de lazer e convivência. Passear é um direito que todas as pessoas devem ter, mas sobretudo as mulheres, já que são as mais sacrificadas nesse sentido.

Cenário favorável

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, tem reiterado que a votação da redução da jornada da escala 6×1 é uma das prioridades da Casa. O tema deve entrar em debate nos próximos meses.

Atualmente, duas propostas tramitam sobre o assunto: a PEC 8/25, apresentada pela deputada Erika Hilton, e a PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes. O governo estuda a possibilidade de enviar um texto próprio que dialogue com as propostas em discussão.

Apesar da pressão de setores econômicos contrários à mudança, Marilane considera o ambiente político favorável à aprovação da PEC. “Eu considero que há um ambiente muito, muito favorável. Tanto que já se negocia as 40 horas semanais. E todos devem sair ganhando, já que setores empregadores têm pressionado o governo por concessões fiscais, desonerações e benefícios em troca da redução.”

Caso a medida avance, a professora avalia que ela poderá influenciar também a forma como trabalhadores negociam condições de emprego. “O fim da escala pode operar como uma bússola, porque um trabalhador que aceita um trabalho na informalidade com jornada de 44 horas ou de seis dias por semana poderá passar a dizer: ‘não, esse trabalho eu não topo’, porque essa não será mais a realidade do mercado de trabalho.”