A imagem histórica de Lula, sobre um palco improvisado e observado por milhares de metalúrgicos durante a greve que paralisou a fábrica da Scania em São Bernardo do Campo, em 1978, é espécie de prelúdio das lutas populares que se desdobraram até o presente.

Não à toa, o registro, feito pelo fotógrafo Juca Martins, foi novamente usado como inspiração para o lançamento da campanha do atual Presidente à reeleição. 48 anos depois, Lula voltou ao Estádio da Vila Euclides para, novamente, falar em nome da classe trabalhadora.

A maior parte da trajetória política de Lula acontece entre estes dois momentos. E está registrada numa vasta bibliografia que inclui teses acadêmicas, filmes, documentários, livros e uma série de reportagens que podem ser consultadas a um clique de distância.

A maior parte desse material está aí, para consulta gratuita na internet, mas é aí que um outro problema aparece. Para além da história oficial, Lula é também vítima constante de informações falsas a seu respeito. Antes mesmo da expressão fake news entrar na moda, ele já era obrigado a se explicar por coisas que nunca havia feito.

Isso explica porque as buscas por expressões como “O que Lula fez” têm aparecido com cada vez mais frequência no Google durante a campanha eleitoral. Não que as pessoas desconheçam Lula. Na verdade, o que as pessoas buscam é saber se aquele Lula que aparece por aí em imagens emblemáticas é o mesmo que hoje disputa a reeleição para o seu quarto mandato como Presidente. 

Nas eleições de 2022, por exemplo, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) derrubou 75 notícias falsas sobre ele. No pleito atual ainda não há um número fechado, mas já são muitas. Algumas criadas anteriormente; outras inventadas sob novos contextos.

Todos os dias, Lula aparece em histórias que nunca viveu. Em lugares em que nunca esteve. Com o uso de inteligência artificial, agora Lula também diz o que nunca disse. Assim, sua trajetória real é obrigada a conviver com um mundo paralelo que tenta desqualificá-lo e apagar o seu legado.

Mas, para quem ainda tem dúvidas sobre o que realmente Lula fez pelo país em 50 anos de vida pública, por que não relembrar alguns dos feitos mais importantes de sua trajetória? Da mobilização no chão de fábrica à recuperação do país pós-pandemia; da criação do Partido dos Trabalhadores à saída do Brasil do Mapa da Fome.

Greves no ABC

No final da década de 1970, Lula, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, tornou-se uma das principais lideranças das greves operárias do ABC paulista. Em plena ditadura militar, os trabalhadores se mobilizaram por melhores salários, contra o arrocho salarial e pelas liberdades sindicais, desafiando o controle do regime sobre o movimento trabalhista.

As greves iniciadas a partir de 1978 reuniram milhares de metalúrgicos e marcaram a retomada das grandes mobilizações populares no país. Lula ganhou projeção nacional como liderança sindical e símbolo da resistência dos trabalhadores, contribuindo para fortalecer o novo sindicalismo e o processo de redemocratização do Brasil. 

As imagens de Lula, liderando as mobilizações, ainda fazem parte do imaginário coletivo nacional como símbolo de lutas e foram relembradas durante a campanha eleitoral de 2026. 

Fundação do PT

Figura bastante popular entre os trabalhadores e com trânsito entre diversas camadas sociais, Lula era a figura ideal para liderar a criação de um partido realmente progressista e oposto às normas autoritárias vigentes. Foi daí que surgiu a ideia do Partido dos Trabalhadores, que unia o novo sindicalismo surgido das greves do ABC, com a presença massiva de artistas, intelectuais, militantes de esquerda, movimentos populares, estudantes, e comunidades eclesiais de base.  

Como liderança de projeção nacional, Lula ajudou a articular a criação de um partido que representasse diversas categorias e permitisse a participação direta na política tradicional. 

Desde sua origem, o PT abraçou, para além do chão de fábrica, as pautas dos negros, das mulheres, da ciência, da cultura, o que confirma a pré-disposição de Lula na articulação política e nas lutas coletivas.

Em abril de 1980, Lula foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional e detido pelo DOPS em sua casa. Permaneceu preso por 31 dias, período marcado por forte comoção social e manifestações de solidariedade até sua soltura em 20 de maio daquele ano.

Eleições de 1989

Na primeira eleição presidencial direta após a ditadura militar, em 1989, Lula concorreu pelo PT, junto à Frente Brasil Popular, com uma campanha marcada pela mobilização de trabalhadores, movimentos sociais, intelectuais e artistas.

Com o lema “Sem Medo de Ser Feliz”, chegou ao segundo turno e conquistou cerca de 31 milhões de votos, consolidando-se como uma das principais lideranças políticas nacionais. 

Lula foi derrotado por Fernando Collor de Mello, que obteve 53,03% dos votos válidos, contra 46,97% do petista. Apesar da derrota, a campanha representou um marco na consolidação do PT e da esquerda brasileira na disputa eleitoral nacional, levando ao centro do debate público temas como desigualdade social, direitos dos trabalhadores e distribuição de renda.

A derrota nas urnas não significou perda política, já que a imagem de Lula a partir daquele pleito tornou-se a principal referência do campo progressista brasileiro. 

Ao mesmo tempo, já era visível naquela época a perseguição política sofrida por ele e como o seu nome passou a ser vítima constante das fake news, muitas delas que tiveram peso direto na visão do eleitorado ao longo da campanha.

Caravanas da Cidadania 

Entre 1993 e 1996, Lula percorreu centenas de municípios brasileiros nas Caravanas da Cidadania, iniciativa organizada pelo Instituto Cidadania para conhecer de perto a realidade social, econômica e cultural do país. Ao lado de lideranças políticas, sindicalistas e especialistas, visitou comunidades frequentemente afastadas dos centros de decisão política, ouvindo moradores e conhecendo problemas como a pobreza, a fome e a falta de acesso a serviços públicos.

As viagens ajudaram a ampliar o conhecimento de Lula sobre a diversidade brasileira e contribuíram para a elaboração de propostas de desenvolvimento e combate à desigualdade. Mais do que uma agenda de viagens, as caravanas fortaleceram sua ligação com diferentes regiões do país e ajudaram a preparar a construção do projeto político que levaria à sua eleição à Presidência, em 2002.

“O PT foi ao encontro do Brasil, aquele que passa ao largo dos cálculos políticos e às vezes nem sabe que é possível pensar num futuro melhor”, diz reportagem sobre o tema no site da FPA.

As dezessete Caravanas da Cidadania percorreram 30 mil quilômetros e estiveram em 400 cidades. Ao final, várias alternativas para o desenvolvimento do país, a partir de experiências locais e regionais, foram elaboradas. Essas experiências foram acolhidas e alimentaram o processo de formulação dos programas de governo do PT, o chamado ‘Modo Petista de Governar’.

De 2003 a 2010

Em dezembro de 2002, logo após ser eleito para seu primeiro mandato, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva recusou o pedido de George W. Bush para que o Brasil apoiasse formalmente a invasão militar ao Iraque. Durante o encontro na Casa Branca, Lula rebateu a pressão do governo norte-americano com uma frase que se tornou emblemática: “A minha guerra não é contra o Iraque, a minha guerra é contra a fome no meu país”.

De fato, as políticas colocadas em prática a partir de janeiro do ano seguinte não deixam dúvidas sobre a promessa que Lula havia feito. Os dois primeiros mandatos foram marcados pela ampliação das políticas sociais, pelo crescimento do emprego e pela valorização da renda dos trabalhadores.

O combate à fome foi estruturado a partir da criação do Programa Fome Zero e da unificação e expansão de transferências de renda pelo Bolsa Família. Essas ações emergenciais foram integradas a políticas estruturais de longo prazo, como o fortalecimento da agricultura familiar, o estímulo ao emprego formal e a valorização real do salário mínimo, garantindo maior poder de compra para a população de baixa renda.

Entre 2003 e 2010, o salário mínimo teve valorização real de 38,1% até junho de 2010, segundo balanço oficial do governo. As medidas resultaram, quatro anos mais tarde, na saída do país do Mapa da Fome pela primeira vez em sua história.

Na educação, foram ampliadas as oportunidades de acesso ao ensino superior e técnico, com iniciativas como o Prouni, a expansão das universidades federais e a criação dos institutos federais. Na economia, o país registrou expansão do mercado interno, aumento do emprego formal e ampliação do crédito.

O governo também fortaleceu as relações com países da América Latina, África e Ásia, tornando-se uma grande referência econômica e diplomática no Sul Global. 

Prisão ilegal

Depois de oito anos de sucesso, com aprovação que chegou a 87% no final de 2010 (um recorde absoluto), Lula preparou o terreno para a sua sucessora Dilma Rousseff, que deu continuidade aos projetos iniciados nos anos anteriores. A gestão da primeira mulher eleita Presidenta do país teve marcas importantes como a criação do Programa Mais Médicos, que levou a saúde pública para lugares inimagináveis, e a confirmação da saída do Brasil do Mapa da Fome em 2014.

A perseguição política, no entanto, fez com que em 2016 Dilma fosse vítima de um golpe parlamentar que a tirou do cargo e, a partir dali, Lula também passou a ser novamente alvo de novos ataques.

A trama resultou, no âmbito da Operação Lava Jato, em sua prisão ilegal em 2018, por um processo onde não havia provas consistentes e que, mais tarde, comprovou-se parcial e insustentável.

Lula permaneceu 580 dias em cárcere, foi impedido de disputar as eleições de 2018, vencida por Jair Bolsonaro e os quatro anos seguintes mostraram ao Brasil o que acontece quando políticas públicas e sociais são desfeitas.

Com o legado construído anteriormente sob ameaça, com o retorno do país ao Mapa da Fome, aumento de desemprego, 700 mil mortes na pandemia e enfraquecimento da saúde, cultura e educação, Lula voltou à cena em 2022 como renovação da esperança do povo brasileiro.

Ainda que sob forte avanço da extrema direita, venceu as eleições para dar início ao seu terceiro mandato. 

Lula 3

O terceiro mandato de Lula foi marcado por um grande pacto para reconstruir o país. Após quatro anos de desmonte, era preciso dar uma resposta urgente à população. O primeiro passo foi restabelecer as políticas sociais, recuperar o orçamento da Saúde e, a partir do Novo PAC, gerar desenvolvimento de setores como a indústria e promover obras de infraestrutura em todos os estados da federação.

Mas não só. Lula também insistiu no que sempre teve como prioridade: promover crescimento econômico com justiça social. Daí veio um dos maiores legados da atual gestão com a aprovação da reforma tributária, a isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais e, mais recentemente, o fim da escala 6×1 – bandeira encampada como prioridade no último ano da gestão.

O terceiro mandato também foi marcado pela criação de novos programas de sucesso como Desenrola, Acredita, para dar respiro aos empreendedores endividados, e o Pé-de-Meia, que reduziu a evasão escolar em mais de 40%. 

Em dois anos, as políticas de segurança alimentar também tiraram o Brasil novamente do Mapa da Fome. Em 2025, segundo o levantamento da ONU, menos de 2,5% da população está em risco de subalimentação (situação em que uma pessoa consome, de forma habitual, menos calorias do que o necessário para manter uma vida ativa e saudável).