Introdução

 

Em 2020, o intelectual Mario Pedrosa teria completado 120 anos. Como forma de homenagem, foi realizado durante os meses de outubro e novembro o seminário Mário Pedrosa, 120 anos, transmitido ao vivo pelo canal da Fundação Perseu Abramo (FPA) no YouTube e por sua página no Facebook e agora permanentemente disponível no nosso canal.

O evento foi realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da Universidade de Brasília, o Programa de Pós-Graduação em História Econômica do Departamento de História da Universidade de São Paulo, juntamente com o Centro Sérgio Buarque de Holanda da Fundação Perseu Abramo. Os encontros foram realizados às segundas-feiras dos meses de outubro e novembro.

Também como forma de celebração, realizamos uma exposição artística que rememorou a obra de Mário Pedrosa, sob a curadoria de Márcio Tavares.

Essas atividades buscaram contribuir para a difusão do pensamento desse grande intelectual brasileiro do campo progressista e de esquerda, que atuou incansavelmente nas lutas em defesa da Democracia, dos interesses da classe trabalhadora e de um projeto socialista de país. Pedrosa foi um ativista político e grande conhecedor das artes que contribuiu de modo decisivo na formação e no desenvolvimento do meio político e artístico brasileiros. Em fins da década de 1970, apoiou a construção do Partido dos Trabalhadores e foi a primeira assinatura, em 1980, no livro de atas da fundação do partido no Colégio Sion ao lado de outros intelectuais e militantes.

Memórias de Mário

 

Como é possível esquadrinhar e traçar a vida de uma pessoa com tantas qualidades e contribuições para o País? Certamente, se podemos dizer que as vidas das pessoas em geral, nas suas experiências, se revelam muito mais complexas do que a tentativa de abarcá-las por meio de imagens ou palavras, ainda mais o que dizer dessa figura ímpar que foi Mário Pedrosa. Ele foi, sem dúvida, a grande referência da arte brasileira desde o século XX até o presente momento, que deixou legado imprescindível para debate sobre XXI em que a realidade se desvela sobre novo direcionamento. Pedrosa sempre esteve atento às modificações presentes na tênue relação entre a realidade existente e o movimento decisivo da arte no tempo, pelo conflito social, pela inter-relação das formas sociais em manifestação contraditória, em compasso de espera, na vida ainda não realizada. Se na volta ao Brasil, depois do segundo exílio, Pedrosa defendeu a arte de retaguarda e a formação de um partido de massas para a transformação política da realidade brasileira, isso não foi mero balanço crítico de erros e acertos sobre as apostas que ele fizera e sobre as que deixou de fazer nos anos anteriores. 

Pedrosa percebeu que os concursos dessas dimensões de expressão da vida humana precisavam ser alterados sob pena de, na dimensão artística, se ossificar a sensibilidade nos horizontes de uma situação acomodatícia na expressão sofrível do conforto em troca da autonomia e da liberdade. O mesmo se pode dizer da dimensão política que incorria no risco de se adequar ao modelo formal da democracia burguesa na periferia capitalista, com uma democracia controlada por grupos econômicos que se impõe sobre os interesses da maioria e sequestram por assim dizer a democracia para si, vencendo a plutocracia. As corporações, a hegemonia ideológica e os ricos transformaram a democracia em evidente instrumento de classe e causam a crise permanente da esfera política/social, podendo mesmo suprimir a democracia assim que essa não se mostra conveniente para seus interesses. Pedrosa queria com a formação do Partido dos Trabalhadores, a superação gradual do esquema restrito da representatividade política para a realização do sentido pleno de democracia em que as maiorias tomassem para si a consciência do exercício cotidiano no jogo político em suas próprias vidas. Estavam presentes, nesse entendimento de nosso intelectual, uma radicalização com efeito pedagógico a fim de politizar todas as dimensões da vida. Era isso exatamente que estava em jogo naqueles anos finais de 1970 e no ano de 1980. Por que não dizer que essas questões estão justamente na ordem dos dias atuais? 

Todos do meio da arte podem se recordar vivamente da importância de Pedrosa para lançamento e consolidação do projeto construtivo da arte brasileira, que nos anos e décadas posteriores pôde  lançar artistas como Almir Mavignier, Abraham Palatinik (morto recentemente por covid devido ao caos sanitário que vivemos em nosso país; perda irreparável!), Hélio Oiticica, Lygia Pape e Lygia Clark. Sim, certo, Pedrosa foi crítico-militante para defesa desses artistas nas instituições de arte moderna no Brasil; porém devemos também ter em mente que depois do golpe militar de 1964, nosso intelectual, assumiu posição cada vez mais crítica do modelo de modernização brasileira, que tinha consequências no plano local e no plano global, a saber: a modernização que ocorria em nosso país, não resolvia os problemas locais de exploração da mão-de-obra pelo capitalista, muito pelo contrário a exploração era agravada aqui na periferia. Modernizava-se o país à custa da superexploração da massa trabalhadora. A modernização do país nos atrelava submetidos a uma ordem internacional capitalista dominada pelo aparato tecno-científico e financeiro. Some-se a essa crítica da modernização conservadora ocorrida no Brasil, uma crítica das instituições de arte moderna. Pedrosa, percebeu que a instituição moderna se adequava muito confortavelmente à subordinação cultural da periferia pelo centro. Isso gerou um interesse muito vívido de Pedrosa pela arte de radicalidade crítica do próprio sistema das artes. É nesse período que Pedrosa está muito próximo de Antonio Manuel. Depois disso, em 1970, começa o segundo exílio de Pedrosa com sua colaboração decisiva para fundação do Museu da solidariedade com Chile. Uma proposta nova surge daí, na incorporação da arte experimental como uma das matrizes do museu junto à matriz da arte moderna já reconhecida internacionalmente. O museu para Pedrosa seria ao mesmo tempo lugar de divulgação da tradição do moderno e do experimentalismo mais atual. Some-se a isso, o interesse de Pedrosa pela produção das cooperativas de artesanato no Chile e a produção indígena dos Mapuche. 

Depois da derrocada da experiência chilena de socialismo com democracia, com o assassinato de Salvador Allende e fuga de Pedrosa para o México e depois para a França, muita coisa foi revista sobretudo na afirmação de um pensamento crítico do modelo de civilização ocidental baseada no modelo econômico e na lógica global do consumo-produção. Pedrosa vai se interessar cada vez mais pelos mecanismos radicais de negação da via de modernização predatória dos países centrais. O mote para Pedrosa será a originalidade possível da solução de transição para o socialismo, na periferia. Tratava-se do pensamento radical do terceiro-mundismo aliado ao interesse cada vez maior pelos indígenas e seu modo de produção. Se a arte no mundo estava cada vez mais relegada à sua condição precípua de mercadoria, restava não aceitar mais o objeto com solução do impasse que se vivia, mas aceitar a possibilidade revolucionária de um novo modo de produção (tal como era o contraponto da produção indígena) para a arte capaz de processar uma modificação radical da sociedade. Talvez Mário Pedrosa deva ser analisado agora pelos projetos que não concluiu… Um deles certamente foi a exposição sobre arte indígena, Alegria de Viver, Alegria de Criar. Ali o contraponto é com o nosso modo de civilização em profunda crise. 

Marcelo Mari
Professor do Departamento de Artes Visuais da UnB

 

Título: Depoimento de Sabrina Parracho sobre a exposição “Alegria de viver, Alegria de criar”;
Autoria: Sabrina Parracho;
Data: 2020;
Duração: 16min:31seg.

Título: Depoimento de Antonio Manuel sobre Mário Pedrosa;
Autoria: Mario Caillaux Oliveira;
Data: 20/08/2020;
Duração: 13min:43seg.

Título: Depoimento de Daisy Peccinini sobre Mário Pedrosa;
Autoria: Daisy Peccinini;
Data: 11/11/2020;
Duração: 49min:16seg.

 

Título: Abertura Oficial do Seminário Homenagem a Mário Pedrosa, 120 anos/Fascismo, bonapartismo e as ditaduras brasileiras
Participantes: Aloisio Mercadante, Elen Coutinho, Everaldo Andrade, Gleisi Hoffmann, Marcelo Mari, Márcio Tavares, Dainis Karepovs e Everaldo Oliveira;
Data: 05/10/2020;
Duração: 02hr:36min:00seg.

Título: Psicologia e a obra de Mário Pedrosa
Participantes: Bianca Dias, Gabriela Borges Abraços e Gustavo Dionisio;
Data: 13/10/2020;
Duração: 01hr:51min:55seg.

Título: Arte, política e crise do projeto moderno
Participantes: Francisco Alambert, Marcelo Mari e Tarcila Formiga;
Data: 19/10/2020;
Duração: 01hr:58min:05seg.

Título: Da crítica ao desenvolvimentismo à planificação socialista no Brasil
Participantes: Guilherme Wisnik, Josnei Di Carlo e Raul Pont;
Data: 26/10/2020;
Duração: 01hr:57min:36seg.

Título: Forma artística, forma social e instituições
Participantes: Cauê Alves, Marcelo Ribeiro Vasconcelos e Priscila Rufinoni;
Data: 09/11/2020;
Duração: 01hr:50min:41seg.

Título: Internacionalismo, Trotski e a 4ª Internacional
Participantes: José Castilho Marques Neto e Markus Sokol;
Data: 17/11/2020;
Duração: 01hr:29min:55seg.

Título: Rosa Luxemburgo, crise e o socialismo brasileiros
Participantes: Claudio Nascimento e Isabel Loureiro;
Data: 23/11/2020;
Duração: 01hr:34min:07seg.

Título: Encerramento oficial/Do exílio chileno à formação do PT
Participantes: Glaucia Villas Boas, Paulo Skromov e Quito Pedrosa;
Data: 30/11/2020;
Duração: 02hr:28min:50seg.