Ainda sem aval para prorrogar o prazo, comissão entra em fase decisiva entre depoimentos esvaziados, pressão por convocação de bancos e disputa sobre conexões político-religiosas

Sem confirmação de prorrogação e já operando contra o relógio, a CPMI do INSS caminha para o desfecho, em meio a reuniões esvaziadas e à disputa política crescente. Testemunhas cancelaram depoimentos e, com a pauta travada, a oposição aproveitou as brechas para transformar parte das sessões em palanque, sem conseguir sustentar, até aqui, a tese de conivência do atual governo com os desvios.

Conforme o cronograma vigente, caso não haja aval para prazo estendido, o relatório final deverá ser apresentado em 23 de março, com a votação prevista para o dia 26. Instalado para apurar fraudes em descontos não autorizados sobre benefícios e em empréstimos consignados, o colegiado se aproxima do fim após duas reuniões inconclusivas e uma sequência de suspensões do comparecimento de convocados, o que reduziu a capacidade de avançar com novos depoimentos e novas frentes de investigação.

Ainda assim, o que se consolidou desde o início dos trabalhos, em agosto, foi o retrato de uma rede de desvios ampla e organizada, que incorporou ao vocabulário político expressões como “Golden Boys” e “Bolsomaster”. Na leitura de parlamentares da base governista, o foco passou a recair não só sobre as entidades associativas que atuaram nos descontos, mas também sobre a engrenagem financeira que, segundo alegam, teria se beneficiado da fragilidade de controle sobre os descontos em aposentadorias e pensões.

Desde fevereiro, a comissão passou a dar mais ênfase aos consignados, cujo rombo, segundo os documentos, pode ser ainda maior do que o dos descontos associativos. Nas palavras do relator, isso ocorreria porque “não tem quem fiscalize”, o que exigiria regras mais claras para o sistema financeiro. Em depoimento, o presidente do INSS, Gilberto Waller, listou medidas adotadas pelo instituto para apertar as normas e as rotinas de controle, como a exigência de biometria e a restrição ao desbloqueio de benefícios para consignados no aplicativo do INSS.

A lista de bancos com reclamações sobre esses empréstimos inclui C6 Consignado, PicPay, Santander, Crefisa, BMG, Agibank, Daycoval, PAN, Master e Facta. Em reunião realizada na segunda-feira (9), ao menos dois presidentes dessas instituições deixaram de comparecer para depor, enquanto outros teriam sido “blindados” na votação de requerimentos.

Vazamento de informações

Durante a reunião, marcada por discursos da oposição em defesa dos suspeitos, o relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar, fez uma longa apresentação, tentando explicar o recente vazamento de dados sigilosos à imprensa. 

Apoiado pelo presidente da CPMI, senador Carlos Viana, Gaspar negou que o colegiado tenha sido a fonte de vazamentos envolvendo conversas do banqueiro Daniel Vorcaro e disse considerar injusta a acusação, afirmando que a comissão recebeu apenas uma fração mínima do material enviado à Polícia Federal (1 GB, diante de mais de 400 GB) e que a CPMI nem sequer dispunha dos conteúdos divulgados. Ele criticou o que chamou de “material irrelevante para a investigação”.

Já o presidente Carlos Viana ressaltou que outros órgãos e advogados também têm acesso aos dados e prometeu providências caso seja comprovado vazamento interno. 

Igrejas: tempo curto e cobrança por apuração de lavagem de dinheiro

Com o prazo no limite, a bancada do PT passou a cobrar que a CPMI avance sobre um flanco ainda pouco explorado: o possível envolvimento de estruturas religiosas na circulação de recursos. Desde dezembro de 2025, parlamentares petistas afirmam que documentos indicariam um suposto esquema de lavagem de dinheiro envolvendo Fabiano Zetel — pastor ligado à Igreja Lagoinha — e recursos associados ao Banco Master (antigo Banco Máxima), com ramificações que atingiriam o financiamento de campanhas e o patrimônio da instituição.

As acusações listadas pelos parlamentares incluem a identificação de Zetel como operador financeiro ligado a Daniel Vorcaro (controlador do Banco Master), relatos de intimidação a adversários e pedidos de rastreamento de movimentações envolvendo empresas, fundações mineiras e uma entidade citada como “Clava Forte”. Zetel foi um dos doadores das campanhas de Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro, além de desenvolver logística eleitoral com o uso de aeronaves em agendas do segundo turno de 2022.

O deputado Rogério Correia (PT/MG) defendeu enfaticamente a convocação e a quebra de sigilo de pastores ligados ao que chamou de “esquema do Banco Master”, com foco especial na figura de Fabiano Zetel.

Esse conjunto de suspeitas, porém, não avança devido ao fato de que o presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), não coloca em votação medidas como a quebra de sigilo e a convocação do pastor Zetel.

Com depoimentos suspensos e o prazo apertado, a comissão se aproxima do final, pressionada por duas tarefas simultâneas: consolidar o que já foi documentado sobre a rede de desvios e decidir se terá fôlego institucional — e tempo — para avançar nas conexões suspeitas, incluindo as que envolvem o sistema financeiro e o circuito político-religioso apontado por parlamentares governistas.