O governo federal anunciou nesta terça-feira, 14/4, que as dívidas do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) passarão a integrar o conjunto de medidas em elaboração para enfrentar o endividamento das famílias brasileiras.

O anúncio foi feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista a em entrevista concedida a jornalistas do Brasil 247, DCM e Revista Fórum no Palácio do Planalto. A medida insere o financiamento estudantil no centro de uma agenda que combina crédito, permanência educacional e mitigação das desigualdades. 

“A gente não tinha discutido o Fies na primeira reunião, mas outra vez o pessoal do Fies está devendo. Então, a gente vai ter que colocar também como é que a gente vai aliviar a conta do cara que fez um crédito para estudar e que está com dificuldade de pagar”, afirmou Lula.

Ao apresentar a medida, o presidente também indicou que o pacote está sendo fechado de forma articulada: “Vai ter coisa boa. Nós estamos pensando em vários setores. É um trabalho meticuloso. Exige muita seriedade.” 

A decisão amplia o alcance político de uma frente que o governo trata como estratégica. Não se trata apenas de renegociar dívidas, mas de atacar um dos pontos em que o endividamento trava trajetórias de mobilidade social. No caso do Fies, isso atinge justamente quem buscou o ensino superior como instrumento de ascensão e encontrou, na fase de amortização, um passivo difícil de sustentar.

“Vamos aliviar a conta do cara que fez um crédito para estudar e que está com dificuldade de pagar”, diz Lula ao anunciar inclusão do Fies em pacote contra endividamento.
Foto: Ricardo Stuckert/PR
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Crédito educacional entra no centro da agenda social

Ao incluir o Fies nesse pacote, o governo reposiciona o programa como parte de uma política pública mais ampla. O financiamento estudantil não aparece apenas como tema educacional, mas como ponto de interseção entre renda, crédito e desigualdade.

Hoje, o MEC prevê 112.168 vagas do Fies em 2026, sendo 67.301 no primeiro semestre. Metade das vagas é reservada ao Fies Social, voltado a estudantes inscritos no CadÚnico com renda familiar per capita de até meio salário mínimo, que podem financiar até 100% dos encargos educacionais. 

Também em abril, o MEC publicou o edital de vagas remanescentes do primeiro semestre de 2026. As inscrições dos estudantes estão marcadas para 22 a 29 de abril, pela internet, no Portal Acesso Único. Podem participar candidatos que tenham feito o Enem a partir de 2010, com média mínima de 450 pontos, nota acima de zero na redação e renda familiar bruta per capita de até três salários mínimos. 

Esses dados ajudam a dimensionar o peso da decisão anunciada por Lula. Ao mesmo tempo em que amplia a oferta do programa, o governo reconhece que parte relevante dos antigos beneficiários ficou presa entre a conclusão do curso e a dificuldade de pagamento.

Renegociação já existe, mas governo quer ampliar alcance

O governo já vinha adotando medidas de renegociação no Fies. Em novembro de 2025, o FNDE informou que estudantes com contratos firmados a partir de 2018 poderiam renegociar suas dívidas até 31 de dezembro de 2026, em processo totalmente digital. Segundo o órgão, a medida alcança cerca de 160 mil pessoas, com parcelas em atraso que somam aproximadamente R$ 1,8 bilhão em saldo devedor.

O modelo permite parcelamento em até 180 vezes, com perdão de 100% dos juros e multas, e parcela mínima de R$ 200. 

No relatório de gestão do FNDE, o governo também registra que a renegociação anterior, concluída em dezembro de 2024, repactuou 389.496 contratos e gerou R$ 799,97 milhões em arrecadação à União apenas com o pagamento da entrada. O mesmo documento informa que segue em formulação um modelo de cobrança vinculado à renda, discutido no âmbito do Comitê Gestor do Fies. 

Isso ajuda a entender por que o anúncio do Planalto tem peso político maior do que uma simples reedição de programa. O que Lula sinaliza agora é a incorporação formal do Fies a um desenho mais robusto de alívio financeiro das famílias, com potencial para atingir uma base ampla de ex-estudantes endividados.

Desigualdade, renda e permanência

O anúncio também conversa com a renda real do país. Segundo o IBGE, o rendimento domiciliar per capita do Brasil em 2024 foi de R$ 2.069. Para estudantes e egressos de baixa renda, esse dado ajuda a medir o esforço necessário para manter em dia prestações de financiamento educacional ao lado de aluguel, alimentação e transporte. 

Ao trazer o Fies para dentro da discussão sobre endividamento, o governo sustenta uma leitura que vai além da inadimplência bancária. A dívida estudantil passa a ser tratada como obstáculo concreto à recomposição da renda familiar e à própria promessa de inclusão que justificou a expansão do ensino superior nos últimos anos.

Há também uma dimensão econômica mais ampla. Aliviar dívidas dessa natureza significa liberar renda, reativar capacidade de consumo e reduzir a compressão financeira sobre uma parcela da população jovem e trabalhadora. Mas, sobretudo, significa evitar que o acesso ao diploma se converta em punição financeira duradoura.

Mais do que alívio imediato

A força política da medida está aí. Ao anunciar a inclusão do Fies no pacote, o governo tenta responder a um problema que não é apenas contábil. A dívida educacional é uma dívida social: ela recai com mais força sobre quem precisou de política pública para entrar na universidade e, depois, encontrou um mercado de trabalho incapaz de absorver essa formação com renda compatível.

Por isso, a nova frente em preparação não interessa apenas aos inadimplentes do programa. Ela recoloca uma pergunta central na agenda pública: que papel o Estado pretende cumprir quando o acesso à educação superior esbarra, depois da formatura, na realidade dura do endividamento.