Depois de quatro dias de protestos, a O’Connell Street, principal rua de Dublin, foi reaberta ao público no domingo, 12, após operação conduzida pela Garda para retirar tratores, caminhões e utilitários que ocupavam a via.

A mobilização, iniciada contra a alta do diesel em meio à guerra no Irã e ao custo de vida, rapidamente ultrapassou o impacto imediato no abastecimento e expôs um mal-estar social mais amplo, sem mediação sindical ou liderança política consolidada. 

O que começou como uma operação de lentidão no trânsito, em uma semana de recesso escolar e parlamentar, transformou-se em um movimento nacional, interrompendo o acesso à única refinaria do país e afetando diretamente o abastecimento no interior da ilha. Em vários locais, postos deixaram de funcionar, enquanto bloqueios em portos e terminais de combustível pressionaram o fluxo de suprimentos. 

A crise também abriu espaço para uma disputa de narrativa nas redes e no debate público. Sem uma estrutura organizada capaz de centralizar as demandas, o movimento passou a ser interpretado – e disputado – por diferentes grupos, incluindo tentativas de associação por setores da extrema direita, ainda que o eixo central dos protestos tenha permanecido ligado ao custo do combustível. 

Operação lentidão

No domingo, um navio-tanque carregando seis milhões de litros de combustível conseguiu atracar no porto de Galway após a remoção dos bloqueios. Os acessos aos terminais de Foynes (condado de Limerick) e Rosslare Europort (condado de Wexford) também foram liberados, permitindo a retomada do abastecimento de gasolina, diesel e óleo para aquecimento residencial. 

Além do custo de vida, outro ponto de tensão foi o aumento do imposto sobre o carbono, contestado pelos manifestantes. 

O governo associou a escalada dos preços ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do comércio mundial de petróleo. Na Irlanda, o diesel subiu de cerca de €1,70 para mais de €2,17 por litro nas últimas semanas, enquanto a gasolina registrou aumento de até €0,25 por litro em muitos postos. 

Protagonismo dos “deploráveis” irlandeses

Foto: Infomatique-Wickcommons

A dimensão mais reveladora dos protestos aparece na forma como eles se organizaram. Artigo do Gript.ie, intitulado The Revolt of the Irish Deplorables, analisa o perfil dos manifestantes e “aponta para um movimento que escapa das estruturas tradicionais de representação”.

Segundo a publicação, os protestos expressam a revolta de setores que não se enquadram nas organizações sindicais convencionais nem nas estruturas políticas estabelecidas. Em um país em que apenas 25% da força de trabalho está sindicalizada — concentrada principalmente no serviço público —, o descontentamento emergiu sem canais formais de mediação. 

O que começou com transportadores, agricultores e empreiteiros agrícolas rapidamente ganhou características de um movimento popular mais amplo. A referência aos “deploráveis”, evocada no texto, aponta para um segmento que se percebe marginalizado pelas elites políticas e econômicas, tanto à esquerda quanto à direita. 

Lideranças de direita

A trabalhadora Debbie Kelly, do condado de Kildare, afirmou que participou dos protestos em Dublin para apoiar colegas e pressionar pela redução dos custos dos combustíveis. “Cortar os custos do combustível e garantir um futuro para todos no país”, disse. Ela ressaltou não ter vínculo com sindicatos. 

Outro caminhoneiro, Noel, afirmou que estava no local desde o início e reforçou o caráter espontâneo do movimento. “Isso aqui foi sobre o custo do combustível e só isso”, declarou, destacando a ausência de liderança central. 

Nas redes sociais, nomes ligados à extrema direita ganharam visibilidade ao tentarem se apresentar como porta-vozes do movimento. O fazendeiro John Dallon afirmou, em debate na TV, que o governo estava “gastando muito com refugiados” e “enviando milhões para a Europa”. “Devemos olhar para o povo da Irlanda primeiro”, disse. Ele tentou participar de um encontro com representantes do governo, mas foi vetado sob a justificativa de que as negociações se dariam com representantes eleitos democraticamente.

Os próprios participantes rejeitaram essa associação. Noel afirmou que os protestos “não tinham nenhuma relação com os imigrantes ou com o centro de acomodação para refugiados”. 

O dado orçamentário ajuda a dimensionar o deslocamento do debate: a Irlanda prevê €117,8 bilhões para 2026, dos quais €1,6 bilhão — menos de 1,4% — é destinado à acomodação de refugiados e proteção internacional. 

Apoio civil

Foto: Fernanda Otero

Apesar dos transtornos, os protestos receberam apoio de parte da população. Voluntários organizaram doações de alimentos na ponte da O’Connell, enquanto grupos de motociclistas de Limerick e Clare foram ao centro de Dublin demonstrar solidariedade. 

O Gript.ie aponta que o movimento revela uma convergência entre setores rurais e urbanos “unidos pelo sentimento de abandono institucional”.

Pacote de € 505 milhões

Sob pressão, o governo anunciou um pacote de €505 milhões que inclui a extensão das reduções de impostos sobre gasolina, diesel e óleo marcado até 31 de julho, redução adicional de €0,10 por litro nos combustíveis, corte de €2,4 centavos por litro no green diesel e adiamento do aumento do imposto sobre carbono. 

A resposta não encerrou a crise política. O governo sobreviveu a uma moção de não confiança por 92 votos a 78, mas o ministro de Estado na Agricultura, Michael Healy-Rae, pediu demissão e votou contra a gestão da crise, afirmando que o Executivo não ouviu a população e que o pacote deveria ter ido mais longe.