Nada vos oferto
além destas mortes
de que me alimento
Caminho não há
Mas os pés na grama
os inventarão
Aqui se inicia
uma viagem clara
para a encantação
Fonte, flor em fogo,
que é que nos espera
por detrás da noite?
Nada vos sovino:
com a minha incerteza
vos ilumino
Ferreira Gullar faz 70 anos em 10 de setembro. Homem de múltiplos interesses e de tremenda paixão civil, Gullar dedicou-se, ao longo de cinco décadas, às mais diversas modalidades de criação e combate político-cultural: poesia, ficção, crônica, tradução, ensaísmo, crítica de arte, teatro, televisão. Impossível resumir em poucas palavras o significado de uma obra tão vasta e diferenciada, que experimentou, além do mais, importantes rupturas internas, tanto doutrinárias quanto estilísticas. Pode-se afirmar, no entanto, que nada do que Gullar produziu é rotineiro ou irrelevante. E que a poesia é, sem dúvida, a face mais transcendente de sua obra, desde o extraordinário A luta corporal, de 1954, que Fausto Cunha julgou, com inteira razão, “um dos melhores livros que a poesia brasileira viu aparecer nesta segunda metade do século”, até o recente Muitas vozes (1999), passando por Dentro da noite veloz (1975), Na vertigem do dia (1980), Crime na flora (1986) e Barulhos (1987), sem falar no magnífico Poema sujo, de 1976, poderosa “explosão catártica” e transfiguração lírica da tragédia brasileira.
