Minha terra tem palmeiras
Onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho
vira direto vinagre

Além de poeta, o mineiro Cacaso, no civil Antonio Carlos Ferreira de Brito (1944-1987), foi o principal teorizador e propagandista da poesia marginal ou da geração mimeógrafo, fenômeno carioca pós-AI 5 que se seguiu à derrocada das esperanças de ´68. Jovens poetas pelo país afora começaram a convergir em inspiração. Encontraram em Francisco Alvim, já escritor reconhecido, um precursor e amigo, que daria sua chancela ao movimento. Mais tarde, Ana Cristina César se achegaria, embora sua lira fosse bem diferente. Uma amostragem da produção coletiva encontra-se no volume organizado por Heloísa Buarque de Holanda, 26 poetas hoje (1975).

Para escapar tanto à censura oficial quanto ao recuo dos editores, esses franco-atiradores optaram por tiragens independentes, financiadas e feitas a mão por eles próprios, a baixo custo. Os livrinhos eram impressos em mimeógrafo e distribuídos de mão em mão, como panfletagem, em reuniões de amigos e fãs, em bares e escolas. Como expressão do “exílio interno”, essa arte de resistência em surdina ao horror do regime era inconformista, alternativa, coloquial, intimista, informal, com um pé na contracultura.

Cacaso praticou a  crítica literária, com ampla ressonância pessoal. Depois iniciaria uma carreira de disputado letrista de música popular, com numerosas e ilustres parcerias, carreira a que a morte precoce poria fim.

O poema que transcrevemos na quarta capa constitui um acerbo comentário ao “milagre brasileiro” daqueles anos. Em tom menor, nele reponta o humor, desmistificando sentimentos derramados e outras pretensões