Encontrei minhas origens
Em velhos arquivos
……..livros
encontrei
em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens
no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei
em doces palavras
……..cantos
em furiosos tambores
………ritos
encontrei minhas origens
na cor da minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei

Oliveira Silveira (1941-2009), poeta gaúcho, deu o exemplo de uma vida consagrada à promoção da consciência negra e ao combate sem tréguas contra o racismo, bem como à valorização da cultura negra e de suas realizações.

Formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor do ensino público, dedicou-se à militância política e à produção literária. Foi fundador da Associação Negra de Cultura e colaborador da revista Tição.

Numa folha de serviços interminável, sua última missão, aliás vitoriosa, foi conseguir que o Congresso aprovasse a data de 20 de novembro como o Dia Nacional da Consciência Negra e reconhecesse Zumbi dos Palmares como herói nacional. Alvo que já atingira em seu estado natal desde 1971.

No período mais recente, desempenhou mandato como membro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, da Presidência da República (2004-2008).

Publicou uma dezena de livros, entre eles Banzo, Saudade Negra (1970), Pelo Escuro (1977), Anotações à Margem (1994).

Sua poesia enaltece a dignidade negra manifestada em não acomodar-se passivamente ao cativeiro, ao contrário empenhando-se numa luta sem quartel contra seus grilhões, que durou por todo o período em que teve vigência o estatuto da escravidão no Brasil. Procurou esclarecer corações e mentes, dissipando o mito de uma liberdade outorgada pelo opressor. É o que faz o poema estampado aqui, constante do livro Roteiro dos Tantãs, ao reivindicar uma identidade étnica.