O pivete de óculos escuros
a comerciária
de pé inchado e sapato alto
o bacana de cordão de ouro
a madame mandona chorosa avoada
as varizes tortas da lavadeira
a carne branquela e sarapintada
dentro das bermudas dos aposentados;
suor azedo de ternos puídos
bijuteria
peitos caídos
o olho parado da empregada doméstica
a carapinha esticada;
chinelos de dedo
pés derramados
dedos que faltam nas mãos dos operários
bocas sem dentes
e mães sem fim
de unhas escalavradas
a reproduzir toda cidade do Brasil
atravessam
meu peito
e as avenidas presidente Vargas
Angela Melim nasceu em Porto Alegre (RS) em 1952, e vive no Rio de Janeiro, onde trabalha como redatora, tradutora e intérprete. É representante da chamada geração de poetas marginais da década de 1970, que se caracteriza pela experimentação rítmica e musical e pelo uso de meios não convencionais de divulgação de sua obra, como a própria voz do poeta, a exposição em varais, a distribuição de folhetos de mão em mão. Armando Freitas Filho lembra que nessa década à poesia começa a se incorporar uma nova dicção, “mais crua e nua da realidade ideológica e existencial da mulher”. Leila Micolis, Aurélia Prado, Ana Cristina César e Angela Melim destacam-se nessa nova maneira de expressão em poesia.
Angela foi coordenadora do Setorial Estadual de Cultura do PT do Rio de Janeiro entre 2002 e 2003, participou dos sindicato de tradutores e escritores, da União Brasileira dos Escritores e da Central Única dos Trabalhadores.
Recebeu o prêmio Eneida, da União Brasileira de Escritores, pelo livro de contos Ainda Ontem (1991) e o prêmio de Literatura da Fundação Vitae para as Artes com Personagem (2003).
Publicou os livros O Vidro o Nome (1974), Das Tripas Coração (1978), As Mulheres Gostam Muito (1979), Vale o Escrito (1981), Os Caminhos do Conhecer (1981), O Outro Retrato (1982), Poemas (1987), Possibilidades (2006). O poema que publicamos aqui faz parte de suas obras reunidas em Mais Dia Menos Dia (7 Letras, 1996). Leia outras poesias de Angela em www.germinaliteratura.com.br.
