Aqueles que a forasteiros e nativos dão sentenças
retas, em nada se apartando do que é justo,
para eles a cidade cresce e nela floresce o povo;
sobre esta terra está a paz nutriz de jovens e a eles
não destina penosa guerra o longividente Zeus;
nem a homens equânimes a fome acompanha nem
a desgraça: em festins desfrutam dos campos cultivados;
a terra lhes traz muito alimento; nos montes, o carvalho
no topo traz bálanos e em seu meio, abelhas;
ovelhas de pelo espesso quase sucumbem sob sua lã;
mulheres parem crianças que se assemelham aos pais;
sem cessar desabrocham em bens e não partem
em naves, pois já lhes traz o fruto a terra nutriz.
(versos 225 a 237)
Dentre os textos fundadores da literatura ocidental figuram os do poeta grego Hesíodo, a Teogonia e Os trabalhos e os dias (VIII A.C.- VII A.C.). Juntamente com a Ilíada e a Odisseia, de Homero, compõem o tesouro inaugural do verso épico. Afora partilharem a mesma língua, com variações, foram compostos no mesmo metro, o hexâmetro datílico. A Teogonia trata, como o nome indica, dos deuses do Olimpo, suas origens, suas linhagens, seus domínios, suas especialidades, a relação de harmonia ou de conflito entre eles e para com os mortais. Outro é o escopo de Os Trabalhos e os Dias. Impregnado de pensamento mítico, contém alguns dos mais importantes mitos da humanidade, como por exemplo o de Prometeu (que roubou o fogo do Olimpo para ofertá-lo aos homens, originando com esse gesto a civilização) e o de Pandora (presente ambíguo dos deuses aos mortais, portadora de todos os males mas também da esperança). Entretanto, o fulcro do poema são os trabalhos agrícolas, seus calendários, as estações do ano que se prestam aos diferentes cultivos, a labuta do camponês, seus problemas com os vizinhos e com os desastres naturais. Nem por isso deixa de dedicar-se a reflexões sobre a justiça que deve reinar entre os homens e sobre as graves consequências de infringir seus ditames. Há muitas traduções em prosa deste poema, mas a que apresentamos é, além de sua alta qualidade, a primeira em versos para nossa língua. Obra de uma helenista da USP, é feita verso a verso, ou seja, respeitando os limites de cada hexâmetro.
