No campo matinal
um cavalo assediado
pelo zumbir das moscas
mastiga avidamente
o capim do universo.
Os insetos volteiam
no anel azul do mundo
– esfera sem passado
nos ares momentâneos.
Não há mitologia
espalhada na relva
que é verde, sem caminhos,
longe das longes terras.
E o cavalo sobrado
da inenarrável guerra
e da paz defendida
à sombra das espadas
mata a fome no campo
onde não jazem mortos
nem retroam clarins.
Sua crina estremece.
e seus cascos escarvam
a plácida planície
coberta pelos pássaros.
Já sem fome, relincha
para os céus que não guardam
as fanfarras e flâmulas
e a fumaça da História,
e se muda em estátua.

[Ledo Ivo, Poesia Completa, Rio, Topbooks/Braskem, 2005, edição comemorativa de seus 80 anos]

Ledo Ivo, nascido em Alagoas em 1924, estreou com o livro de poemas As Imaginações, em 1945. Tal data o coloca, embora a contragosto, na chamada “Geração de 45”, aquela que procurou superar o vanguardismo experimentalista e de choque da Semana de Arte Moderna de 1922, pregando e praticando uma volta às formas fixas.

Com obra abundante e caleidoscópica, Ledo Ivo além de poeta é prosador, memorialista, cronista, ensaísta, pensador da literatura e das questões da cultura. As constantes reflexões sobre o ato criador a que se entrega, sempre instigantes para os leitores, ajudam a constituir uma via de acesso a sua poética.

Coerente com o que afirma em Confissões de um Poeta – “Viver é surpresa e mudança” – percorreu a gama completa das possibilidades da escrita, não se detendo em nenhuma e sabendo manter-se aberto a todas as aventuras. Em sua obra ressalta a fusão entre magia, erotismo e memória, além da fidelidade nunca renegada ao torrão natal.

O poema que selecionamos analisa com mão leve o patamar de superioridade em que se coloca um cavalo, despretensioso e rente à imanência, que passa incólume pela História em que os homens se debatem freneticamente porque, fina ironia, encontra-se predestinado à eternidade.