Isso é inveja, rapaz?

Então por que essa palavra
besta essa cara de
paralelepípedo?

Vira de costa
se afasta

(paso de desprecio)

Fizeste bem

Acha?
Para um tipo desses
é pouco
Se fosse meu pai
despachava com um murro
Se meu avô
com um tiro no sovaco

(Francisco Alvim, O Metro Nenhum, 2011)

Francisco Alvim publica pouco, de modo selecionadíssimo, embora há muito tempo. Alguns de seus (raros) livros desdobram-se entre o primeiro, Sol dos Cegos, e o penúltimo, Elefante. No início, foi identificado com a poesia marginal, ou da geração mimeógrafo, marca dos anos 1970. Seus poemas são em geral curtos, desataviados, enxutos: às vezes em chave dark, às vezes permeados por peculiar senso de humor. O caminho que escolheu camufla o artista erudito e suas muitas leituras, bem como as viagens do diplomata. Uma das vertentes dessa poesia é magistralmente demonstrada neste exemplar: a criação de uma fala, em que de repente emerge aos olhos do leitor o discurso da mais arcaica oligarquia, atravessando gerações em toda a sua brutalidade.