Presidente estadunidense acusa estatal britânica de distorcer seu discurso sobre o ataque ao Capitólio; caso integra estratégia de intimidação a veículos de mídia

Na mesma semana em que concedeu perdão “completo, total e incondicional” a dezenas de aliados envolvidos nos esforços para anular os resultados da eleição presidencial de 2020 — entre eles seu ex-advogado pessoal, Rudy Giuliani — o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, abriu mais um flanco de ataque contra a imprensa internacional.
O alvo da vez foi a BBC, ameaçada de um processo no valor de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,5 bilhões) por suposta difamação. Segundo os advogados do presidente, a emissora estatal britânica “editou de forma tendenciosa” um discurso de Trump para o documentário Panorama, a fim de sugerir que ele teria incentivado seus apoiadores a invadir o Capitólio em 6 de janeiro de 2021.
O episódio, que provocou uma das maiores crises institucionais da história recente dos EUA e resultou em mortes, tornou-se peça central na acusação contra Trump.
Perdões presidenciais, bilhão em jogo e cortes na cúpula da BBC: Trump transforma ataques à mídia em política de governo
De acordo com reportagem do The Guardian, a defesa do presidente alega que o documentário usou “declarações difamatórias, depreciativas e inflamatórias”, ao unir trechos desconectados do discurso em que Trump exortava manifestantes a “lutar como o inferno” horas antes da invasão.
A pressão já surtiu efeitos internos na emissora: Tim Davie, diretor-geral da BBC, e Deborah Turness, CEO de notícias, anunciaram suas renúncias. Em comunicado, a BBC afirmou que analisará a correspondência enviada pelos advogados de Trump e responderá “em tempo oportuno”.
Estratégia de intimidação
A ameaça à BBC não é um episódio isolado. Ela se soma a uma estratégia recorrente de intimidação judicial adotada por Trump contra veículos de comunicação que considera críticos à sua gestão.
Desde que reassumiu a presidência, há pouco mais de um ano, o republicano já obteve acordos judiciais que ultrapassam US$ 80 milhões com empresas de mídia e tecnologia.
Em julho, a Paramount Global, controladora da CBS News, pagou US$ 16 milhões em um acordo sigiloso para encerrar uma ação movida por Trump no Texas. A ABC News, pertencente ao grupo Disney, firmou um acordo semelhante no valor de US$ 15 milhões.
As gigantes Meta (Facebook) e Google (YouTube) também fecharam acordos financeiros para evitar disputas prolongadas com a administração Trump.
A escalada contra a imprensa coincide com o período eleitoral norte-americano e reforça a tática política de Donald Trump: transformar órgãos de imprensa em inimigos declarados, deslegitimando reportagens críticas por meio de ações judiciais bilionárias e alegações de parcialidade editorial.
