No dia 2 de junho de 2020, o Brasil registrava mais um recorde diário de mortes por Covid-19 em 24 horas. Em números oficiais 1.262 óbitos foram registrados naquela data, mais da metade deles de pessoas negras e pardas. Em paralelo, a mobilização global após a morte do afroamericano George Floyd, vítima de violência policial nos Estados Unidos, ganhava ainda mais força. Era a retomada da campanha Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). 

Em Divinópolis, cidade de pouco mais de 240 mil habitantes localizada na região Centro-Oeste de Minas Gerais, uma menina negra de 15 anos já sentia na pele o peso de sua ancestralidade e já dava sinais de que não acompanharia as tragédias do mundo de braços cruzados. 

“Enquanto tentarem calar o som da nossa cor vamos pra cima SIM!! Somos uma só voz, somos resistência, somos histórias, somos lutas, somos vidas CHEGA DE NOS MATAREM!! Quando um preto morre, todos nós morremos um pouco também”, postou Ana Elisa Santos Silva, em sua conta no Instagram, com o texto acompanhado de um punho negro cerrado. 

O post tem um único comentário e passou despercebido em meio à enxurrada de manifestações sobre o tema na internet. Mas Ana Elisa não desistiu. E, pouco mais de 6 anos depois, está em rede nacional ao lado do presidente da República organizando a frente de lutas contra uma nova onda de ameaças – agora não só à democracia quanto a ela própria. 

A ascensão de Elisa, a deputada federal mais votada da história de MG com 524.219 votos logo na primeira disputa eleitoral, é também explicada por sua habilidade e persistência em se comunicar nas redes.  Hoje, ela acumula mais de 4 milhões de seguidores nas redes sociais e foi com o uso das plataformas que consolidou o seu repertório político ao denunciar casos de racismo, explicar de maneira didática como funciona a engrenagem violenta da extrema direita e até mesmo para apontar novos caminhos ao campo em que escolheu defender. 

O resultado expressivo de Elisa nas urnas e a escolha do seu nome para liderar a campanha digital de Lula nas próximas semanas já deu início a uma nova e árdua batalha adiante: enfrentar não só a desconfiança da imprensa hegemônica, mas sobretudo os ataques criminosos dos adversários.   

Na noite de quinta-feira (8/10), as ameaças de morte e estupro contra ela saíram do controle depois que o também deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) passou a disseminar mentiras contra ela. Diante do histórico e dos métodos perigosos da  extrema direita, ela decidiu desativar seu perfil no X, antigo Twitter, onde usuários anônimos passaram a invadir sua conta com mensagens impublicáveis. 

O perigo é real e Ana Elisa não o ignora. Mas sabe também que tem a proteção de milhões de aliados e aliadas para além de Divinópolis. Estudante de Direito, filha de mãe solo e ligada ao congado, expressão religiosa de matriz africana, ela não parece disposta a recuar num momento em que mais o país precisa dela. 

“Eu vivo um dia de cada vez, porque eu sei que eu sou o sonho mais sonhado da minha ancestralidade”, afirmou, durante entrevista à Globo News. 

E este sonho, segundo ela própria, passa também pelas pautas que quer defender no Congresso, mesmo diante de cenário bastante desafiador: pelo fim da escala 6×1, pela Educação pública de qualidade e, claro, pela luta das mulheres, em especial as mulheres negras, de todo o Brasil.