“Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada.” A frase, publicada por Donald Trump ao impor um ultimato ao Irã sobre a reabertura do Estreito de Ormuz, não descreve um cenário hipotético distante.
Trata de um país que carrega entre 2,5 mil e 3 mil anos de história, herdeiro da civilização persa, cuja produção cultural, filosófica e científica atravessou séculos e moldou parte da organização do mundo antigo. Mesmo que tenha recuado no início da noite desta terça-feira (7), ao aceitar proposta do Paquistão para um cessar-fogo de duas semanas, a ameaça foi feita quando o conflito já produzia efeitos concretos sobre a população civil e o patrimônio histórico.
O Irã também confirmou oficialmente que também aceitou a proposta pela pausa no conflito.
Desde 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel iniciaram ataques coordenados ao território iraniano, autoridades locais relatam bombardeios a cerca de 300 unidades de saúde e 600 centros educacionais. Levantamentos indicam ainda que ao menos 160 monumentos históricos foram danificados ou destruídos.
Não se trata, portanto, de uma ruptura futura, mas de um processo em curso. Ao afirmar que pode “devolver o país à idade das pedras” e condicionar a sobrevivência de uma nação a uma decisão geopolítica, o presidente dos Estados Unidos transforma a linguagem da guerra em anúncio direto de destruição em larga escala.
Convenções como as de Genebra e a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio não deixam margem para ambiguidade: ataques a civis, destruição de infraestrutura essencial e ações desproporcionais são proibidos. Ao vocalizar a eliminação de uma sociedade como possibilidade legítima, a ameaça se aproxima do que essas próprias normas definem como crime.
A guerra ultrapassa seus próprios limites
O conflito teve início com a expectativa de uma rápida desestabilização do regime iraniano. Passados mais de 30 dias, o cenário é outro. O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo, ampliou o alcance da guerra e deslocou seus efeitos para além da região.
O ultimato de Trump, adiado também por conselho de aliados próximos sobre a possibilidade de um crime de guerra, com prazo definido e ameaça explícita, insere um novo elemento: a tentativa de impor uma solução pela destruição. “Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá”, escreveu, ao mesmo tempo em que falava em “mudança de regime completa e total”.
A resposta iraniana indica que a pressão não produziu recuo, embora o país tenha confirmado o cessar-fogo. O vice-presidente Mohammad Reza Aref afirmou que o país está preparado para “todos os cenários” e que nenhuma ameaça está além de sua capacidade de resposta. O governo também orientou a população a proteger instalações estratégicas, o que evidencia o grau de exposição de civis.
Crimes de guerra deixam de ser implícitos
Ao longo de conflitos recentes, violações do direito internacional costumam ser negadas ou encobertas. O que se observa neste caso é diferente. A ameaça não é indireta, nem posterior ao fato. Ela é anunciada.
Esse deslocamento altera a forma como a guerra é conduzida. Quando a possibilidade de destruição total passa a ser apresentada de forma aberta, o custo político da violência diminui. A exceção deixa de ser exceção.
Os dados sobre ataques a hospitais, escolas e infraestrutura civil reforçam esse quadro. O impacto não se limita à perda imediata de vidas, mas compromete as condições de funcionamento da sociedade no médio e longo prazo, ampliando a dimensão do dano.
Escalada verbal e ampliação do risco militar
A retórica da Casa Branca foi reforçada por J.D. Vance. O vice-presidente afirmou que os Estados Unidos dispõem de “ferramentas em nosso arsenal que ainda não decidimos usar” e que poderão ser acionadas caso o Irã não mude de conduta.
Após questionamentos sobre a possibilidade de uso de armamentos de maior escala, a Casa Branca respondeu que “literalmente nada” nas falas indicava esse caminho. Ainda assim, a combinação entre ameaça direta e ambiguidade estratégica amplia o campo de incerteza.
A porta-voz do governo reforçou essa lógica ao afirmar que “só o presidente sabe qual é a situação e o que ele fará”. A imprevisibilidade passa a operar como componente da própria estratégia militar.
Economia global pressionada pela guerra
O impacto do conflito já se traduz em indicadores econômicos. O barril de petróleo Brent, que estava próximo de 70 dólares no fim do ano passado, ultrapassou os 111 dólares, refletindo a instabilidade no Golfo e a incerteza sobre o fluxo energético global.
O fechamento do Estreito de Ormuz, mantido há mais de um mês, afeta diretamente preços de petróleo e gás, pressionando cadeias produtivas e custos em escala global.
Nos Estados Unidos, os efeitos são também políticos. A alta dos combustíveis contribuiu para a queda da aprovação de Trump para menos de 40%, segundo agregadores de pesquisa, evidenciando o impacto doméstico de uma crise que se projeta para além das fronteiras.
Diante da escalada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender uma saída diplomática. “Não há solução militar para conflitos dessa natureza”, afirmou, ao cobrar a retomada do diálogo.
O Itamaraty também tem reiterado a necessidade de respeito ao direito internacional e de proteção a civis. Em um cenário em que ameaças desse tipo passam a ser formuladas de forma aberta, a defesa dessas normas deixa de ser apenas posição diplomática e passa a ser uma tentativa de conter um processo de deterioração mais amplo.
