Sem nenhum acontecimento me provocando, sem nenhuma expectativa, de tarde, esta tarde, eu, aplicando-me na caligrafia como uma criança de escola, eu, também uma das freiras que costuram, em labor de abelha bordo a fio de ouro:

Viva Hoje.

A descoberta do mundo

Nos romances e contos pelos quais é justamente renomada, Clarice Lispector desenvolveu uma escrita tateante, que procede a sucessivos ensaios de abordagem do objeto, avançando e recuando. Parece recear seu poder de conjurar um simulacro de vida através das palavras, criando seres e situações que apesar de virtuais a assustam, já que se instauram como concretizações de seu dom de inventar. Ao alçar-se a demiurgo, a sucedâneo do Criador-de-todas-as-coisas, torna-se responsável pelo que passa a acontecer, o que a mergulha em angústia sem alívio. Resulta daí uma prosa agônica, característica de sua mão, em que entrecho, personagens e cenário tendem a ter menos relevo que a autoprospecção. Já o cunho fragmentário e heterogêneo de sua produção em periódicos, em parte recolhida num volume póstumo de quase oitocentas páginas (A descoberta do mundo – 1984), opera numa craveira diversa. Ali se encontram por vezes pequenos escritos, de extensão variável, que poderiam ser tomados por poemas em prosa. Não constituem  fragmentos de narrativas: ela os escreveu como coisas curtas em sua completude. Muitos poderiam passar por epigramas, na concisão lapidar: “Ter nascido me estragou a saúde”. Outros assemelham-se a um haicai ou um koan zen com um grão de humor, como se desferissem uma faísca fulminando as portas da percepção: “Sonhei que um peixe tirava a roupa e ficava nu”. Alguns trazem uma carga lírica forte, erigindo-se em meditações rentes ao fenômeno, sondagens de puro estado de espírito, aproximações relutantes ao ato de escrever. Como este, que tem o caráter de uma arte poética minimalista, referida a seu próprio e inconfundível estilo: “E já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas”.Tais filigranas, ao lado de textos da mesma natureza que por serem mais longos não cabem no espaço de uma capa de revista, podem aparecer mais tarde extraviadas – perdidas, ou achadas – em meio ao fluxo que compõe os romances e contos, meta para a qual tendem apenas idealmente estes poemas em prosa.