Por Nicolás Malinovsky

“Sempre acho que tenho um dedo de Deus na minha cabeça”, dizia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva após sua vitória na eleição de 25 de outubro contra o candidato de extrema direita Flávio Bolsonaro, apoiado pelo império norte-americano, por Israel e pelas big techs, como a Meta. Com os olhos do mundo voltados para o Brasil, Lula conquistou a vitória que o levará a assumir seu quarto mandato presidencial.

A virada foi histórica. Pela primeira vez em uma eleição presidencial brasileira, um candidato que terminou em segundo lugar no primeiro turno conseguiu vencer no segundo, com 51,79% dos votos contra 48,21% do miliciano. Lula ampliou, além disso, sua própria marca ao conquistar pela quarta vez a Presidência por meio do voto popular. A façanha desse dirigente de estatura mundial obriga a rever as análises que subestimaram sua capacidade de liderança e a força da organização popular. “Fui escolhido por Deus”, dizia Lula. E, poderíamos acrescentar, pelo povo.

No entanto, a explicação da vitória exige olhar além de sua figura. A mobilização popular nas ruas, a disputa nas redes sociais, a força da juventude e uma agenda em favor das maiorias permitiram reconstruir o vínculo entre a liderança de Lula e as bases populares. Aí está a chave do sucesso.

Em seu discurso após a vitória, o dirigente dos trabalhadores apresentou uma agenda de transformações que poderia definir seu legado histórico e o do Partido dos Trabalhadores (PT). Entre seus principais eixos, destacam-se:

  1. A regulação das plataformas digitais.
  2. Uma maior participação popular nas decisões do governo.
  3. Uma revolução educacional.
  4. Fortalecer e ampliar o Sistema Único de Saúde (SUS).
  5. O desenvolvimento de uma inteligência artificial brasileira.
  6. O aproveitamento do potencial energético renovável para o desenvolvimento tecnológico e a instalação de centros de dados.
  7. O processamento de terras raras no país para agregar valor a esses recursos, dos quais o Brasil possui as segundas maiores reservas do mundo.
  8. Uma estratégia de desenvolvimento apoiada na economia digital, na economia verde e na economia criativa.
  9. A construção de um Brasil capaz de superar sua condição periférica e ocupar um lugar central no mundo.

O desafio será converter essa agenda em transformações concretas. A energia social mobilizada durante a campanha será a chave para construir uma força popular capaz de impulsioná-las.

O 17 de outubro brasileiro

O resultado do primeiro turno, realizado em 4 de outubro, deixou o hoje fugitivo em primeiro lugar e Lula em segundo. Esse cenário acendeu os alarmes e ativou uma reação popular diante da possibilidade de que a extrema direita voltasse a governar o Brasil.

Lula foi o primeiro a transformar esse resultado adverso em um chamado à luta. Com um megafone no comando de campanha, anunciou que começava uma nova partida e afirmou de forma categórica: “Eu sou especialista no mata-mata”.

No dia seguinte, imprimiu uma virada na campanha e reforçou o diálogo com jovens comunicadores e influencers militantes de esquerda e recorreu a vídeos em formato selfie para convocar a mobilização. A mensagem foi direta: “Bora, gente, para rua”.

Essa convocação encontrou uma resposta nas bases sociais. A mobilização estudantil de 5 de outubro na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, Rio de Janeiro, foi a faísca que acendeu uma série de manifestações massivas. Durante dezenove dias, estudantes, professores, trabalhadores, sindicatos, partidos políticos, organizações populares e cidadãos sem filiação partidária ocuparam as ruas de forma sustentada para virar a eleição.

A presença nas ruas se articulou com uma forte intervenção no território digital. O “exército de Lula”, coordenado pelo deputado André Janones, contribuiu para organizar a comunicação, a circulação de conteúdos e as convocações à ação nas redes sociais, com datas e horários definidos. A articulação entre ambos os espaços gerou uma atmosfera de debate político que se estendeu por toda a sociedade.

As conversas sobre os candidatos, suas propostas e os modelos de país se multiplicaram em comércios, academias, locais de trabalho e feiras de bairro. O segundo turno adquiriu, assim, uma intensidade política que não havia alcançado durante o primeiro.

A essa mobilização se somou a agenda social e trabalhista impulsionada pelo presidente Lula, com impacto direto na vida da maioria da população. A medida contra as apostas on-line – as chamadas bets – e seus efeitos sobre o endividamento familiar. O aumento do Bolsa Família e a aprovação do fim da escala de trabalho 6×1 – que entrará em vigor em 15 de dezembro – reforçaram a discussão sobre a distribuição de renda, o tempo de trabalho e as condições de vida. Também teve peso o compromisso de manter e ampliar os direitos das pessoas idosas, incluindo o acesso a medicamentos por meio do programa Farmácia Popular. A redução da jornada de trabalho foi fundamental nessa disputa.

Em síntese, a vitória foi possível pela articulação entre participação popular, presença nas ruas, organização nas redes e políticas em favor das maiorias. Essa combinação voltou a conectar a política e a liderança de Lula com as bases populares, particularmente com as juventudes, mulheres, dissidências e pessoas idosas. “O Brasil teve seu 17 de outubro eleitoral”, nas palavras de Cristina Fernández de Kirchner. Outra vez, na região, o subsolo da pátria sublevado contra o império e o povo brasileiro demonstrando, mais uma vez, sua lealdade na última de Lula.

O terceiro tempo

A vitória eleitoral de Lula não desarticula por completo a extrema direita enraizada na sociedade brasileira, com forte presença parlamentar e vínculos com setores das elites econômicas locais e transnacionais.

A fuga como um rato do candidato de extrema direita para os Estados Unidos faz parte desse cenário. Não por acaso, ele o fez através da Argentina, com a intervenção de funcionários estadunidenses e a cumplicidade de Javier Milei e do governo argentino. Isso evidencia tanto as conexões e articulações internacionais da extrema direita quanto o interesse do império norte-americano no controle territorial para além de suas fronteiras.

No plano político, o projeto de extrema direita oferecia uma convergência com a orientação do libertário na Argentina, ou seja, alinhamento com Washington, enfraquecimento das capacidades estatais e subordinação aos interesses econômicos dos setores dominantes. Essa convergência se insere na estratégia estadunidense de reforçar sua influência sobre a América Latina no contexto da disputa hegemônica com a China. A vitória de Lula adquire, portanto, uma relevância que transcende o Brasil e repercute no cenário regional e mundial.

O terceiro tempo desse combate também trará disputas e tensões dentro da própria força social que Lula conduz. A implementação das transformações anunciadas exigirá sustentar uma participação popular que ultrapasse o calendário eleitoral. Aí surge uma pergunta central. Como converter a mobilização popular que permitiu ganhar a eleição em uma força social capaz de impulsionar as reformas? O resultado dependerá da capacidade do governo e das organizações políticas e sociais de manter abertos os canais de participação, organizar as demandas e disputar as decisões sobre o desenvolvimento do país.

A potência do povo brasileiro, expressa nas ruas neste novo outubro, será fundamental para impulsionar as transformações estruturais necessárias para construir uma sociedade mais igualitária, que busque a soberania política, a independência econômica e a justiça social. Sustentar essa mobilização será decisivo para converter a vitória eleitoral em um legado histórico.

Aos 17 anos, Lula perdeu um dedo trabalhando em uma fábrica. Aos 80 anos, reconhece que foi tocado pelo dedo de Deus. Agora, é o povo que o devolve a ele para continuar escrevendo a história.

* Este artigo foi publicado originalmente em espanhol, no jornal El Cohete a la Luna.

Nicolás Malinovsky é autor de Crítica de la energía política (2025). Doutorando em Economia Política Mundial (UFABC, Brasil), formado em engenharia elétrica (UNRC), mestre em Gestão da Energia (UNLa), diplomado em Antecipação Estratégica e Gestão de Riscos (UNDEF). Docente na UNPAZ. Redes: @nicomalinovsky

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