Consagração com uma das mais importantes premiações da indústria do cinema, colocou o ator brasileiro e o diretor Kleber Mendonça Filho como um dos grandes destaques da temporada
Quando o Coronel Nascimento tramou uma falsa blitz para acertar as contas com um político corrupto, com direito a socos e ameaças, a plateia que via a estreia de Tropa de Elite 2, no Festival de Cinema de Paulínia, levantou-se e aplaudiu a cena por vários minutos.
O ano era 2010 e o mundo, não só o Brasil, já dava sinais de que o discurso da extrema direita ganhava uma nova cara. E a cara que fez milhões de brasileiros amarem e odiarem o agente do Bope que enfrentava o sistema é a do ator Wagner Moura — declaradamente progressista. Não só a cara. Mas a voz. Os gestos. As frases de efeito. O discurso que zombava dos ideais humanitários ao mesmo tempo em que acreditava estar fazendo justiça.
É bem provável que o personagem não se tornasse um produto atemporal da cultura pop, não fosse a entrega visceral de Wagner Moura. O papel no filme do diretor José Padilha é o mais famoso, mas não o único a retratar tipos brasileiros carregados de complexidade.
E a prova maior veio 15 anos depois, com a recente conquista do Globo de Ouro por sua atuação, como definiu a revista Variety, hipnotizante em O Agente Secreto. No filme, cotado para concorrer ao Oscar, Moura mostra que também pode ser contido, discreto, dando ao protagonista um cansaço e uma prepotência que caminham lado a lado — numa atuação que confunde o espectador, num retrato poderoso de um país que ainda buscava sua própria identidade durante o final dos anos 1970.
Antes mesmo de ser confirmado como o vencedor de um dos prêmios mais importantes da indústria do cinema, o ator já dava mostras de que Hollywood nunca foi um lugar assim tão estranho para ele, até porque sua imagem já marcava presença em produções das mais variadas naturezas — do Pablo Escobar da série original da Netflix ao papel principal no filme dirigido por Alex Garland, nome cultuado por cinéfilos e fãs de tramas distópicas.
Mas a consagração teria que acontecer, como era o seu próprio desejo, em língua portuguesa, atuando em seu próprio país e com a bênção de outro nome que tem representado tão bem o cinema nacional: Kleber Mendonça Filho.
Difícil imaginar outro ator de sua geração que conseguisse captar tão bem um personagem que não é exatamente um herói como sugere o título do filme, tampouco tem seu arco narrativo feito para que viva a jornada clássica dos grandes protagonistas.
Para a revista Variety, uma das mais influentes publicações sobre cultura e cinema do mundo, Moura trouxe profundidade ao personagem Armando, descrevendo sua performance como um dos pilares do longa de Kleber Mendonça Filho. Além da técnica individual, a revista enfatizou o impacto histórico de sua performance, descrevendo-a como o momento em que Moura “transcende o status de estrela regional para se tornar um ícone do cinema mundial”.
A Variety ressaltou que sua vitória no Globo de Ouro de 2026 não foi apenas um reconhecimento por um papel específico, mas um tributo à sua habilidade de navegar entre grandes produções de Hollywood e o cinema autoral brasileiro com a mesma intensidade. Para a crítica da revista, Moura entregou em O Agente Secreto uma performance que equilibra a “vulnerabilidade de um homem comum com a gravidade de um herói trágico”, cimentando seu lugar na história do cinema contemporâneo.

Das fake news a um dos melhores filmes do ano
Escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto acompanha a trajetória de um personagem envolvido em redes de vigilância e repressão durante a ditadura militar brasileira, em 1977. O filme teve sua consagração ampliada com o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira, reconhecimento que marcou a afirmação definitiva da obra no cenário internacional e consolidou um ponto de virada para o cinema nacional, ao destacar uma produção brasileira autoral, politicamente incisiva e formalmente rigorosa em um dos palcos mais visíveis da indústria audiovisual global.
A trajetória internacional teve início no Festival de Cannes, onde o longa competiu pela Palma de Ouro e, desde a primeira exibição, foi apontado por críticos estrangeiros como um dos trabalhos mais consistentes do cinema brasileiro recente.
Antes da estreia comercial no Brasil, o longa passou a circular nas redes sociais associado a fake news que alegavam, de forma equivocada, financiamento via Lei Rouanet — prática recorrente em campanhas de desinformação que transformam o mecanismo de incentivo cultural em alvo preferencial de ataques políticos. Essas narrativas se disseminaram em ambientes de polarização ideológica e foram utilizadas para questionar o filme e seus realizadores, apesar de não corresponderem aos dados oficiais de produção.
Diante da repercussão, a equipe do filme e entidades do setor audiovisual esclareceram que O Agente Secreto não utilizou recursos da Lei Rouanet. O financiamento veio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), administrado pela Ancine, além de investimentos privados e coproduções internacionais.
O episódio reacendeu o debate sobre desinformação e o uso recorrente de políticas de fomento cultural como instrumento de disputa política. No circuito comercial brasileiro, o filme apresentou uma trajetória consistente de bilheteria, impulsionada pelo prestígio internacional acumulado desde Cannes e reforçada pela visibilidade do Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira.
Após uma estreia concentrada em salas de arte, o longa ampliou sua presença no país, mantendo bom desempenho ao longo das semanas e figurando entre os filmes nacionais de maior arrecadação do ano dentro do segmento autoral.
No exterior, a recepção positiva se refletiu tanto na circulação em festivais quanto na distribuição em mercados estratégicos da Europa e da América do Norte. Ao longo de sua trajetória, O Agente Secreto passou a integrar listas de melhores do ano em publicações como The New York Times, The Guardian, BBC Culture e The Hollywood Reporter.
Ao final de seu percurso, o filme consolidou-se como um dos títulos brasileiros mais relevantes do ano, ao combinar reconhecimento crítico, circulação comercial, premiação internacional e um debate público que extrapolou o campo do cinema.
O cenário do cinema nacional
O cinema brasileiro vive um ciclo de crescimento quantitativo e qualitativo, refletido em números de público e bilheteria que não eram vistos há anos. Em 2024, as produções nacionais responderam por cerca de 10,1 % da bilheteria total nas salas do país, com mais de 12,6 milhões de espectadores e arrecadação acima de R$ 250 milhões — crescimento expressivo frente a anos anteriores, quando esse percentual era consideravelmente menor.
O desempenho geral das exibições também se refletiu em um aumento no número de salas e sessões destinadas a filmes brasileiros, reforçando a presença do cinema nacional no circuito comercial. Esse movimento ganhou um impulso adicional com o sucesso esmagador de Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, que ultrapassou 5 milhões de espectadores e arrecadou mais de R$ 100 milhões, consolidando-se como uma das maiores bilheterias nacionais desde 2018.
O desempenho não só alavancou o market share dos filmes brasileiros para mais de 30 % em determinados períodos de exibição, como também contribuiu de forma decisiva para atrair público às salas e elevar a presença do cinema local em diferentes regiões do país.
A consagração de Ainda Estou Aqui foi coroada com a conquista do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, a primeira estatueta da Academia para uma produção brasileira nessa categoria, um marco histórico para a cinematografia do país.
Lula: “O cinema brasileiro mais uma vez no topo do mundo!”

Logo após a confirmação dos prêmios no Globo de Ouro, o presidente Lula usou as redes sociais para exaltar o grande momento do cinema nacional. O cinema brasileiro mais uma vez no topo do mundo! Sensacional a vitória do talentosíssimo Wagner Moura como Melhor Ator de Drama no Globo de Ouro. A merecidíssima estatueta premia a performance de excelência do querido artista baiano que tanto nos emociona em O Agente Secreto. Como o próprio Wagner Moura tem dito, o cinema brasileiro vem mobilizando a atenção e o respeito das pessoas em todas as regiões, e tem sido um símbolo importante da volta da valorização dos artistas em nosso país”,
Wagner Moura repetiu o feito de Fernanda Torres, que no ano passado venceu o Globo de Ouro como melhor atriz em filme de drama pelo longa Ainda Estou Aqui. Esta foi a primeira vez na história que um filme brasileiro conquistou dois prêmios em uma mesma edição do Globo de Ouro. É também a primeira vez em 27 anos que o Brasil volta a vencer o Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa, desde Central do Brasil, em 1999. No ano passado, Ainda Estou Aqui fez história ao se tornar a primeira obra brasileira a vencer o Oscar – conquistou a estatueta na categoria de Melhor Filme Internacional.
