1.
“Nunca se falou tanto em liberdade e nunca ela foi tão descaracterizada, vilipendiada e sequestrada no mundo dominado pela super acumulação capitalista ao qual devemos servir e não temos a liberdade de criticar e substituir. Eis o verdadeiro caminho da servidão!”, anota Wolfang Leo Maar no Prefácio a Um ensaio sobre a libertação (1969), de Herbert Marcuse. A segunda obra na trilogia que inicia em O homem unidimensional (1964) e encerra em Contrarrevolução e revolta (1972), com uma reestabilização sistêmica e os agentes despertados para mudanças progressistas.
O filósofo frankfurtiano aproxima o cotidiano da história, destaca a importância da práxis material sensível para criar as condições sociais e culturais de emancipação. A metamorfose radical da sociedade exige a transformação na relação dos humanos e a natureza – a sua própria e do meio ambiente. A temática do Antropoceno interpela a um tempo a totalidade das espécies e as vanguardas comutativas: mulheres, negros, núcleos LGBTQIA+.
A “nova sensibilidade” junta a redenção individual à coletiva. O agir em grupo e a vontade de libertação pessoal implicam uma maneira distinta de estar em comunidade, em meio a diversidade. Nem o multiculturalismo é o herói e nem o universalismo um vilão. Há que evitar a “armadilha da identidade”, na expressão de Yascha Mounk, para que ninguém se sinta perdido no contexto hostil e caiam os índices crescentes de violência nos noticiários.
O sistema retira a felicidade e a paz do horizonte ao banalizar o mal-estar social. A “Grande recusa” marcuseana é o facho de luz na escuridão. Respostas promissoras advêm de assentamentos no campo, ocupação dos prédios ociosos nas cidades, movimentos sociais, sindicais, estudantis e resistência dos povos originários. O fundamental é não desviar os olhos das graves injustiças em toda a sua complexidade, para não distorcer a realidade e trair os ideais.
O neoliberalismo se viabiliza à medida que redimensiona nossa subjetividade para o caos, normaliza a competição no lugar da fraternidade e transfere uma responsabilidade do Estado e das empresas nas relações de trabalho para o livre arbítrio. Assim, o empreendedorismo introjeta uma noção de “capital humano” no indivíduo que se considera um produto mercadológico à venda.
A vitrine em shopping centers celebra a unção da mercadoria. O consumismo induzido por algoritmos coroa um alheamento. O cidadão é fagocitado pelo consumidor. As aspirações rendem-se à fúria da mercantilização de tudo e todos. A publicidade que inunda a internet reforça a frustração com as coisas, as que se compra à noite e as que não estão ao alcance. O desencanto é real.
O jovem do curso de poesia, que larga um cargo na multinacional para dar aula na periferia, associa o dinheirismo a uma rotina do executivo de sucesso e se reinventa. Abdica da servidão oculta na tecnologia, da privação da alteridade por detrás do conforto e da poluição no ciclo implacável de reificação e apatia diante da porta do inferno. Opta pelo instigante e subversivo slogan sessentista: “Não mude de empregadores, mude o emprego da vida”. Quiçá.
Com um despudor, Ludwig von Mises afirma na década de trinta que “o fascismo e todas as orientações ditatoriais semelhantes salvaram a formação civilizatória europeia”. Embora tergiverse hoje, o neoliberalismo expande o diagnóstico sinistro. A invasão do Capitólio pela horda trumpista e o vandalismo bolsonarista na Praça dos Poderes alertam ao risco: eles ainda estão aqui. Agora a desdemocratização da democracia ameaça o direito a ter direitos.
2.
À época das considerações de Herbert Marcuse sobre “a libertação para a liberdade” não se vivia sob uma cosmovisão neoliberal. O capitalismo industrial não havia entregue o bastão às finanças, as big techs estavam em preparação e a democracia não tinha um predicado de iliberal. A política não enfrentava a acusação de uma antipolítica. A ordem do egoísmo, as categorias empresariais da produtividade e da performance – indispensáveis às engrenagens – bateram cartão ponto depois com o “princípio do desempenho”.
Na contramão do economicismo, o pensador radicado nos Estados Unidos enxerga na contestação das injustiças uma negação das autoridades de poder e da governança, da moral e da cultura para a abolição da fome e da labuta sob alienação. O desejo de mudar a si mesmo impulsiona um posicionamento e um engajamento na dialética do social, na marcha para a sensatez. Que “o sensual, o lúdico, a tranquilidade e o belo” componham nossas vivências.
A sensibilidade e a consciência prospectam uma outra linguagem para comunicar os novíssimos valores, gestos, palavras, imagens, tons. A ruptura com o continuum da dominação deve também ser a ruptura com o vocabulário de dominação. A tese surrealista de que o poeta é o não conformista acha na linguagem poética elementos semânticos da revolução. O novo requer o destemor, a audácia.
O sujeito da história vai além do proletariado. Inclui aqueles e aquelas que têm motivos para lutar contra a barbárie – os que são vítimas de opressão, de discriminação e de exploração. Com a incontornável condição de a ação não ser apenas uma reação, porém uma criação. A transmutação social gera uma estética relacional impactante. Outro mundo é possível e mais bonito.
“Obscena, sublinha Marcuse, não é a fotografia de uma mulher nua que mostra seus pelos pubianos, mas a de um general fardado dos pés à cabeça expondo suas medalhas conquistadas em guerras de agressão; obsceno não é o ritual dos hippies, mas a declaração de um dignitário da Igreja de que a guerra é necessária para que a paz seja possível”. Para não citar os tombados na Coreia e Vietnã.
As formas contemporâneas de submeter a vida ao poder da morte (necropolítica) se propagam com uma sofisticação destrutiva inimaginável. Ao revés do alegre lema “Paz e Amor” prevalece o triste mandamento “Guerra e Ódio”. As eleições viram plebiscitos pró-vida ou pró-morte. O genocida mente ao negar a postura de coveiro. O neofascismo é o cemitério das utopias participativas.
O Maio de 1968 postula a transvalorização de valores em defesa de estilos de existência qualitativamente diferentes, que unem Karl Marx e André Breton. Reatualiza o direito de ser feliz. A Confederação Geral do Trabalho não apoia les enfants terribles, de Daniel Cohn-Bendit (Dany le Rouge), da Universidade Paris Nanterre. A adesão cresce, a CGT convoca a greve geral. A intelligentsia crítica acompanha a enorme onda revolucionária.
O catalisador é o afeto de solidariedade, inimigo da hobbesiana guerra de todos contra todos. Na equação da democracia, o autogoverno de pessoas livres e sua concretização pressupõe superar o sistema. A cidadania nas ruas é decisiva. Uma fusão de energias é factível na campanha eleitoral a depender do teor do discurso. O desafio é tornar os pontos luminosos esparsos numa constelação de estrelas, com a coragem de brilhar. Quem vem.
Luiz Marques é docente de Ciência Política na UFRGS; ex-Secretário de Estado da Cultura no Rio Grande do Sul
Este é um artigo autoral. A opinião contida no texto é de seu autor e não representa necessariamente o posicionamento da Fundação Perseu Abramo.
