Não bastasse a violência e arbitrariedade que a gestão de João Dória vem utilizando em sua política de tratamento aos usuários de crack, dados recém-divulgados pela Prefeitura de São Paulo apontam que apenas 17% dos usuários do Programa Redenção concluíram a etapa de desintoxicação, a primeira do tratamento oferecido ao vício do crack. Foram 122 tratamentos concluídos de 734 iniciados.
Em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo hoje (8/8), vários são os motivos para a desistência apontados por especialistas e usuários entrevistados. Entre eles, as péssimas condições dos abrigos, a dificuldade para visita da família, a morosidade no acesso a serviços, a impossibilidade de intermediação para outros tratamentos médicos, equipe de tratamento mal dimensionada, a política de tolerância zero ao consumo de drogas (enxergada por muitos especialistas como um metodologia equivocada), a falta de oferta eficaz de oportunidades de geração de ocupação e renda aos usuários e a natural e muito consequente recaída dos usuários ao consumo da droga. Segundo o paciente M. F., de 45 anos, ele não se adaptou ao local “…Fiquei dias dopado. Daí parei de tomar os remédios. Quando fiquei consciente, pedi para sair”.
Para o coordenador do Programa Redenção, Arthur Guerra, as desistências são comuns, “faz parte do quadro clínico nessas doenças crônicas. Isso na clínica mais simples, com pouco recurso, em clínicas chiques, caríssimas, em que a internação é voluntária”. Para a especialista Ana Cecília Marques, coordenadora da comissão de drogas da Associação Brasileira de Psiquiatria, a adesão na rede particular é de cerca de 50%, três vezes maior do que no Programa municipal.
O estudo sobre tratamento aos usuários de crack, realizado em 2016 pela Plataforma Brasileira de Política de Droga, identificou que, no antigo programa De Braços Abertos, iniciativa da gestão do ex-prefeito Fernando Haddad encerrada pela atual gestão, dois de cada três usuários reduziram o uso da droga e 95% destes declararam ter percebido um impacto positivo ou muito positivo em sua vida. O De Braços Abertos trabalhava a ressocialização dos dependentes a partir do conceito de redução de danos. A ação incentivava o usuário a reduzir o consumo e a aumentar sua autonomia, sem internação, e pela oferta de emprego e moradia. O Programa era também fundamentado nos estudos do neurocientista norte-americano Carl Hart, professor da Universidade de Columbia, cujas experiências comprovam que quando são oferecidas oportunidades efetivas e não moralistas de bem-estar social aos usuários, as possibilidade de sucesso no tratamento são bem maiores.
