A vitória eleitoral democrática do presidente Lula no dia 25 de outubro, sem dúvida nenhuma, representa uma das maiores vitórias do período histórico para o nosso campo da disputa política e social brasileira. Ainda, tornou-se exemplo para as esquerdas e campos democráticos do mundo inteiro no desafio civilizatório de enfrentamento ao programa ultraneoliberal, conservador e anticivilizatório que vem avançando de forma acelerada nas disputas de países por todo o globo.

Impulsionada pela liderança do trumpismo estadunidense, a extrema direita produziu, nos últimos anos, vitórias eleitorais em países do norte ao sul global, com graus diferentes de intervenção norte-americana em processos internos. Na América Latina, a política neocolonial da Casa Branca é dita em alto e bom som pelo secretário de Estado, Marco Rubio, que prometeu retomar o poder dos EUA sobre os latinos subalternos em uma espécie de Doutrina Monroe atualizada para tempos neoliberais.

Com Javier Milei na Argentina e Daniel Noboa no Equador, o governo de Donald Trump e sua coalizão de bilionários influenciaram as vitórias em El Salvador, na Bolívia, no Chile e, mais recentemente, foram fundamentais para a eleição do candidato do narcotráfico na Colômbia, Abelardo de la Espriella, e da herdeira dos tempos ditatoriais no Peru, Keiko Fujimori. Todas essas com participação importante de jovens que estão em constante disputa.

Na Venezuela e em Cuba, o uso da força com requintes de crueldade foi e continua sendo brutal e explícito, em uma ofensiva de dimensões nunca antes vistas após os períodos ditatoriais civil-militares nas Américas.

Todas as experiências eleitorais recentes das Américas e, mesmo em diversos países do mundo, com destaque positivo para o México, o Uruguai e o Brasil, vinham sendo de vitórias da extrema direita com apoio direto dos EUA.

Avanço do neofascimo

Nesse sentido, as eleições de 2026 foram permeadas por essa tendência mundial de avanço do neofascismo de programa ultraneoliberal, com apoio sistemático das forças do capital financeiro e das big techs na construção e manipulação da opinião pública.

De maneira estratégica, os Estados Unidos e o governo Trump miravam o Brasil como mais um território a ser conquistado na grande missão geopolítica empreitada com o objetivo de retomar sua hegemonia econômica global. Os recursos estratégicos naturais brasileiros, desde as terras raras até uma das maiores reservas de água potável do planeta, eram a peça de acordo entre a família Bolsonaro e a cúpula da inteligência norte-americana.

Negociaram, para garantir o apoio das big techs e de Trump, tudo que era nosso, junto também dos nossos sonhos. O programa entoado por Flávio Bolsonaro era tudo o que esse bloco histórico reivindicava para potencializar suas formas de exploração do Brasil, tanto do ponto de vista dos nossos recursos, de um profundo entreguismo, quanto do ponto de vista da regressão máxima nas condições de vida da maioria do povo e dos trabalhadores, com a diminuição do investimento público em direitos e políticas sociais.

Com esse apoio sistemático, sem que o nosso campo ainda tivesse enxergado de forma mais pública e organizada essa intervenção, o resultado do primeiro turno no Brasil acendeu uma luz de alerta máximo e refletia a tendência internacional de avanço da força da extrema direita. A vitória animou o campo de lá, que já radicalizou no seu discurso, com Flávio Bolsonaro afirmando a pretensão de fazer mudanças constitucionais com a maioria que elegeram na Câmara e no Senado, e de produzir uma forte política de arrocho fiscal e redução de programas sociais com o chamado “tesouraço”.

Chamado à juventude

O alerta para as juventudes foi quase instantâneo. No dia seguinte ao resultado do primeiro turno, estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) de Niterói mobilizaram milhares para as ruas, o que iniciou uma onda de mobilizações incentivadas pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e por organizações juvenis (com destaque para os Fandons) de todo o país naquela mesma semana, com participação decisiva e massiva de jovens, organizados, mas também, em ampla maioria, não organizados em nenhum movimento social tradicional.

A direção de juventude foi expressiva em todas as mobilizações, que ganharam dimensões históricas ao longo do processo. A cada nova convocação, as proporções aumentavam, o que as tornou as maiores mobilizações populares já vistas em toda a história do país, com hegemonia explícita do campo da esquerda.

Junto das ruas, a disputa digital também foi invadida pelo sentimento coletivo de enfrentamento à ameaça neofascista e seu programa regressivo. Com menos conhecimento das esquerdas sobre as ferramentas das redes sociais e suas plataformas privadas (big techs), as juventudes também se engajaram em estratégias coletivas de mobilização digital e puxaram para cima nosso campo.

Com uma renovação importante nas bancadas da esquerda, a tônica da mudança da presença da campanha de Lula nas redes foi perceptível após a reunião com parlamentares jovens eleitos e eleitas com votações expressivas. Além disso, junto da estratégia digital do canal “Exército do Lula”, esse engajamento tornou possível abrir um novo momento da disputa com o chamado “algoritmo” das redes sociais.

Mesmo com operações deliberadas de aumento do alcance dos conteúdos da extrema direita — como os casos escandalosos das redes de Nikolas Ferreira superarem visualizações de astros do futebol e artistas pop internacionais —, a campanha Lula superou todas as metragens de inserção e presença nas redes digitais, em uma mobilização coletiva nunca antes vista no nosso campo.

O protagonismo juvenil, perceptível pelas “caras” de lideranças, perfis e “influencers” jovens, chamou para si a tarefa de invadir as redes na disputa política mais importante da sua geração. Foi um movimento de verdadeiro protagonismo para apontar à campanha onde estava sua principal lacuna, mostrando que os caminhos eram exatamente os de mais diálogo sobre futuro para as novas gerações. A linguagem para acesso às redes demandou, necessariamente, o formato de engajamento juvenil para que fosse possível o crescimento exponencial da campanha, impulsionando uma agenda mais de futuro do que exclusivamente de legado.

As juventudes, portanto, foram centrais tanto para a disputa das ruas quanto das redes, o que contribuiu para a maior queda da abstenção eleitoral desde a redemocratização.

De olho no futuro

Esse movimento foi fundamental para a reorganização programática da campanha. Lula começou a apontar para o futuro e apresentar uma agenda mais positiva ainda de avanços e conquistas sociais. A disputa pelo futuro de uma geração que estava “pronta pra mais” precisou apontar para propostas como a universalização do Pé-de-Meia no ensino médio e sua expansão para o ensino superior, o perdão da dívida dos Microempreendedores Individuais (MEIs) e o Pix MEI, além da defesa intransigente da proposta de fim da escala 6×1 e da tarifa zero no transporte público nos finais de semana em todo o país. Um programa, portanto, de avanços sociais profundos e continuidade de uma agenda de expansão de direitos.

Logo após o primeiro turno, entre os jovens de 16 a 24 anos, a vantagem do presidente era expressiva. Segundo a BTG Pactual/Nexus, Lula registrava 57% das intenções de voto nessa faixa etária.

A queda histórica das abstenções teve papel decisivo da população idosa, mas foi nas escolas com mais jovens onde a virada de votos foi maior. O Radar do Voto fez um levantamento em 93 mil locais de votação principais do país e mostrou que, nas escolas com mais jovens, Lula terminou o segundo turno com 57,7% dos votos. Ainda, o estudo apontou que, onde a juventude vota, quatro de cada cinco votos novos conquistados entre os dois turnos foram para Lula, em grande parte vindos de eleitores que tinham anulado no primeiro turno e decidiram escolher no segundo, com redução de 33% dos brancos e nulos.

Apesar desse ápice do que ficou conhecido como “psicose política”, a mobilização social das juventudes nas redes por mais futuro e mudanças não se iniciou nesse segundo turno da campanha. Desde 2023, demonstrou sua força com a pauta do fim da escala 6×1, campanha iniciada por Rick Azevedo, um jovem negro, gay e balconista de farmácia, eleito agora deputado federal, que lançou o movimento Vida Além do Trabalho (VAT) a partir de um vídeo na plataforma TikTok. Desde lá, as redes vinham acumulando disputas por futuro. Só não viu quem não quis.

Segundo levantamento da Nexus no início de 2026, 82% dos jovens brasileiros de 16 a 24 anos (geração Z) e também 82% dos de 25 a 40 anos (millennials) eram totalmente favoráveis ao fim da escala 6×1 sem redução de salário. Era, sem dúvida, a pauta de maior mobilização popular juvenil do período.

Em busca de sentido

Essa experiência, se lida em sentido histórico, aponta para a construção de caminhos em que as redes se tornaram, a partir da mobilização social de jovens e de sua força histórica, arenas de construção de mobilizações para avanços, e não somente como caixa de ressonância para as ideias da extrema direita, apesar das profundas limitações de plataformas que são privadas e não possuem controle público. Abriram, com o pé na porta, a oportunidade para pautar as disputas de futuro nesse ambiente.

A posição do governo e da campanha foi a de tornar, portanto, a reivindicação histórica e estruturante das lutas juvenis pelo fim da escala 6×1 no Brasil o principal motor-mobilizador de sua reeleição. Essa decisão, em que pesem os erros do início, foi, sem dúvidas, a mais importante para a mobilização juvenil, que potencializou as mobilizações sociais.

A expressão desse acerto deu à nossa campanha um lado, mais do que nunca. E era o lado das maiorias e da esperança de uma vida melhor e mais digna. De avanço, de mudança para o que fosse melhor e mais justo; de mais conquistas sociais e mais direitos.

Ameaça descartada

Enquanto isso, Flávio Bolsonaro e sua equipe econômica anunciavam um “tesouraço” cada vez mais arrebatador, com ameaça de cortar mais de R$ 200 bilhões em investimentos sociais, o que logo a campanha e as redes, também com protagonismo de jovens, já denunciavam para a conta de quem essa tesoura iria pender: para os mais pobres, no corte de programas sociais e redução nos investimentos em educação e saúde — com destaque para a lembrança do corte de mais de R$ 2,4 bilhões no orçamento do Ministério da Educação (MEC) e o fim do Farmácia Popular no governo Bolsonaro.

Além disso, continuavam declarando sua contrariedade ao fim da escala 6×1, propondo mais desregulamentação, com uma proposta de escala de trabalho “negociada” entre patrão e empregado. Logo, a juventude também percebeu a cilada e pautou o debate denunciando a desigualdade de condições de negociação entre essas duas forças.

Essa discrepância profunda entre um programa altamente regressivo em direitos e conquistas representado por Flávio — que também entregaria, junto, nossas riquezas aos estrangeiros e, com isso, nossa possibilidade de futuro — e um programa de avanço e ampliação de programas sociais, melhoria das condições de trabalho e defesa dos interesses nacionais foi um dos fatores mais determinantes de mobilização e narrativa pública de crescimento da campanha Lula pós-primeiro turno, visto que o debate sobre corrupção, com o ápice do Banco Master e outros dos vários casos envolvendo Flávio, pouco estava fazendo efeito.

A campanha começou, perceptivelmente, a ganhar uma dimensão de disputa entre o programa dos ricos e bilionários representados por Flávio e o programa das maiorias sociais representado por Lula. A disputa estava entre o fim dos programas sociais versus a ampliação e criação de outros; entre a entrega do país em oposião ao futuro de desenvolvimento que nos espera. Por fim, entre o Programa do Mercado ante o Programa do Povo.

Essa percepção não demandou sofisticação intelectual para entendê-la. As redes e ruas foram inundadas pela contradição e esta virou a tônica do que significavam essas eleições para as gerações. Os millennials queriam ter possibilidade de avançar em conquistas profissionais e salariais que os pais tiveram nos primeiros governos Lula, assim como a geração Z não queria enxergar seu futuro com desesperança, mas sim com possibilidade de mudanças para avançar em direção a uma vida que valha mais a pena ser vivida.

Então, o que esperam do Lula 4 os jovens?

A mobilização juvenil na campanha do segundo turno do Lula foi uma demonstração da relação dialética entre programa de avanços e mobilização social.

Foi a agenda de avanços representada por Lula que deu a chave e as condições para que setores da juventude se mobilizassem na perspectiva de enxergar um presente e futuro melhor na nossa vitória eleitoral, ao mesmo tempo que a mobilização social dessa juventude foi o que possibilitou as condições da vitória do presidente Lula no próximo quarto mandato.

Se as condições de vitória foram essas, portanto, assim serão as condições de governar. Só com a capacidade de mobilização pelo programa de futuro é possível tanto conquistar o que deve ser conquistado quanto garantir as condições de governabilidade do nosso governo.

Uma pesquisa da Fundação Friedrich Ebert com mais de 2 mil jovens brasileiros de todas as regiões aponta que as principais preocupações das juventudes brasileiras são a pobreza, o desemprego e a falta de acesso a direitos (61%). O mercado de trabalho segue marcado pela precariedade e pela desigualdade: apenas 36% dos jovens de 18 a 35 anos têm emprego estável, com disparidades entre classes sociais, gênero e raça. A insegurança também é um tema central para os jovens, constatação que converge com os dados de que, entre 2012 e 2021, 298 mil jovens foram assassinados, 76% deles negros, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o que reafirma a condição de que são maiores vítimas da violência, não causadores dela.

No mundo do trabalho, o engajamento nas pautas do movimento VAT se explica por onde a juventude está concentrada nos postos de trabalho, que são, em sua maioria, nos setores de comércio e serviços, majoritariamente em regime de escala 6×1 e menores salários. Além disso, em 2021, aproximadamente 62% dos jovens entre 15 e 29 anos trabalhavam, buscavam trabalho ou combinavam trabalho e estudos, segundo levantamentos do Ministério do Trabalho.

Apesar desse cenário, que mostra que os jovens ainda acham insuficientes os direitos e garantias hoje existentes, na mesma pesquisa realizada pela FES, 88% dos entrevistados acreditam que seu futuro será melhor, refletindo que, mesmo na adversidade, as juventudes mantêm viva a expectativa de transformação social e de uma vida melhor. Ainda, a maioria continua apostando no Estado como ator central para enfrentar desigualdades e garantir um futuro mais justo com direitos.

Anseios da juventude

A campanha eleitoral de Lula teve um programa vitorioso por esse conjunto de elementos, porque conseguiu representar a demanda por mais futuro e avanços frente a esses desafios latentes no seio dos sonhos de esperança de jovens de todo o país.

A resposta do governo precisa ser na mesma medida, pensando na ampliação dos investimentos públicos nas políticas sociais de maior preocupação das novas gerações. Devemos apontar para uma política de geração de empregos que combine a industrialização do país — a partir de uma oportunidade importante com nossa soberania com relação às terras raras — e a criação de novos postos qualificados e com salários maiores. Além disso, deve-se continuar defendendo a combinação entre redução da jornada de trabalho e maiores oportunidades para usufruir da cidade, dos espaços públicos, da cultura, do esporte e do lazer, afastando as noções criminalizadoras das trajetórias juvenis brasileiras e qualquer proposta, por exemplo, de redução da idade penal no Brasil. Os jovens nitidamente querem viver livremente, com autonomia e condições de emancipação econômica e social.

Portanto, nenhuma resposta mais nítida podemos ter do que a rejeição majoritária da juventude ao programa regressivo e neoliberal de redução de investimento social, ajuste fiscal ou mesmo de corte em políticas sociais, visto que são exatamente esses os elementos que mobilizaram as novas gerações a lutar, se mobilizar e não fugir da raia a troco de nada para conquistar um futuro de mais direitos.

Lula, em seu primeiro governo, foi o presidente que criou a Política Nacional de Juventude no Brasil e que, ao longo dos anos, produziu a mudança profunda do entendimento do Estado sobre os jovens brasileiros, passando de risco social para juventude enquanto sujeito de direitos. Esse é o legado que deve se tornar potência para o futuro. Ampliar os horizontes dos nossos sonhos para construir uma vida que valha a pena. E esse desafio combinará mobilização social (digital e de ruas) com programa de avanços. Sem uma coisa, a outra não será possível.

Só assim governaremos de fato e daremos a resposta à altura da maior mobilização geracional da história recente.

Guilherme Barbosa é diretor na Secretaria Nacional de Juventude do Governo Lula