Mais de cinco décadas depois de ter sido preso por agentes do Estado e desaparecer, Honestino Guimarães voltou a ocupar as ruas. Lambe-lambes com o rosto do líder estudantil foram espalhados como parte da divulgação do documentário Honestino, em cartaz nos cinemas desde 13 de agosto.
A campanha adota o lema “Honestino, presente!” e recoloca no espaço público a imagem de um jovem que a repressão tentou apagar também dos registros históricos.

Foto: Guto Alves/Rio de Janeiro.
A ação acompanha o lançamento nacional do filme dirigido por Aurélio Michiles. A produção mistura documentário e cenas ficcionais para reconstruir a trajetória do ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), desaparecido aos 26 anos. Bruno Gagliasso interpreta Honestino nas sequências dramatizadas.
Com 85 minutos, o longa utiliza cartas, poemas, fotografias e imagens de arquivo, além de depoimentos de familiares, amigos e antigos companheiros de militância. O roteiro é assinado por Michiles e André Finotti, com produção de Nilson Rodrigues e distribuição da Pandora Filmes. Entre os entrevistados estão Almino Afonso, Jorge Bodanzky, Franklin Martins e a pesquisadora Betty Almeida, autora do livro Paixão de Honestino.
Da escola pública à presidência da UNE
Honestino Monteiro Guimarães nasceu em 28 de março de 1947, em Itaberaí, Goiás. Em 1960, mudou-se com a família para Brasília e estudou no Centro de Ensino Médio Elefante Branco, uma das escolas marcadas pela mobilização política de seus estudantes durante a ditadura.
Aos 17 anos, foi aprovado em primeiro lugar geral no vestibular da Universidade de Brasília (UnB) e iniciou o curso de Geologia em 1965. No movimento universitário, presidiu o diretório acadêmico do curso e, em 1967, foi eleito presidente da Federação dos Estudantes Universitários de Brasília (Feub) enquanto estava preso.
A liderança exercida por Honestino fez dele um dos principais alvos da repressão dentro da UnB. Em 29 de agosto de 1968, tropas do Exército e agentes policiais invadiram o campus para cumprir mandados de prisão contra ele e outros estudantes. Honestino foi retirado da sede da Feub e permaneceu preso até novembro. No mês seguinte, após a edição do Ato Institucional nº 5, passou a viver na clandestinidade.
Ligado à Ação Popular, seguiu atuando no movimento estudantil em São Paulo e no Rio de Janeiro. Assumiu interinamente a UNE após a prisão de Jean Marc von der Weid e, em 1971, foi eleito presidente da entidade em um congresso clandestino realizado na Baixada Fluminense. A UNE estava proibida de funcionar legalmente desde o início da ditadura.
A prisão e o desaparecimento
Em 10 de outubro de 1973, Honestino foi preso no Rio de Janeiro por agentes do Centro de Informações da Marinha, o Cenimar. A partir daquele momento, o Estado ocultou seu paradeiro. Sua mãe, Maria Rosa Leite Monteiro, percorreu unidades militares e órgãos de segurança em busca de informações. Chegou a receber a promessa de que poderia visitá-lo no Pelotão de Investigações Criminais, em Brasília, no Natal daquele ano. Ao chegar ao local, foi informada de que ele não estava preso ali.
O corpo de Honestino nunca foi localizado. A Comissão Nacional da Verdade concluiu que ele desapareceu após ser detido por forças de segurança do Estado, em um contexto de violações sistemáticas dos direitos humanos. O relatório recomendou a continuidade das investigações, a localização dos restos mortais e a identificação dos agentes envolvidos.
Seu nome passou a integrar a lista oficial de mortos e desaparecidos políticos da Lei nº 9.140, de 1995. Em 2013, a Comissão de Anistia reconheceu Honestino como anistiado político. Em julho de 2024, a UnB concedeu a ele, postumamente, o diploma de geólogo.
Antes da estreia comercial do filme, uma sessão no Cine Alvorada reuniu o presidente Lula, a primeira-dama Janja, integrantes da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e familiares de vítimas da ditadura. Estavam presentes Juliana Botelho Guimarães Lopes e Lucas Botelho Guimarães Lopes, filha e neto de Honestino. Na ocasião, foi apresentada a certidão de óbito retificada, que passou a registrar sua morte como não natural, violenta e causada pelo Estado brasileiro.
Memória recuperada pelo cinema

A realização do documentário também atravessa a história pessoal de Aurélio Michiles. O diretor conheceu Honestino ainda na juventude, participou de reuniões clandestinas com ele e manteve contato durante o período em que o líder estudantil viveu escondido em São Paulo. Michiles contou que adiou o projeto porque filmar Honestino significava retornar à própria experiência de perseguição durante a ditadura.
Na estreia em Brasília, a presidente da UNE, Bianca Borges, afirmou que a obra devolve humanidade a quem foi reduzido pela repressão à condição de inimigo do Estado. Aos 26 anos, a mesma idade de Honestino quando desapareceu, ela destacou que o filme apresenta também o jovem, o pai, o amigo e o estudante que existiam antes do símbolo político.
Bruno Gagliasso defendeu que o cinema brasileiro continue abordando os crimes cometidos durante a ditadura. Questionado sobre quantos filmes ainda seriam necessários para tratar daquele período, respondeu: “Nunca vai ser suficiente”.
O longa estreou comercialmente em 18 cidades brasileiras. Paralelamente às sessões, os lambe-lambes levam às ruas a fotografia de Honestino e o lema que acompanha há décadas as homenagens aos mortos e desaparecidos políticos: “Honestino, presente!”.
Serviço
Honestino
Brasil, 2025, documentário, 85 minutos
Direção: Aurélio Michiles
Roteiro: Aurélio Michiles e André Finotti
Elenco: Bruno Gagliasso
Distribuição: Pandora Filmes
Em cartaz nos cinemas
