Doutor João queria saber de tudo. “Se visse aquele pau ali, queria saber o nome daquele pau. Se ouvisse uma conversa, queria saber do que a gente falava. E ia escrevendo tudo nas cadernetas que levava penduradas no pescoço”. Quem conta é Zito, um dos oito boiadeiros que acompanharam a comitiva. A viagem, que durou 10 dias e percorreu cerca de 240 quilômetros entre as cidades mineiras de Três Marias e Araci, resultou num dos maiores clássicos da literatura moderna brasileira: Grande Sertão Veredas. 

A obra do médico, poeta, diplomata e ecritor João Guimarães Rosa, lançada em 16 de julho de 1956, chega aos 70 anos com a mesma força com a qual foi concebida. Resultado de um trabalho experimental do autor, reúne como nenhum outro livro recursos que até então apareciam de maneira pontual aqui e ali. Em Grande Sertão, a estrutura do romance moderno é radicalmente subvertida ao apresentar o monólogo ininterrupto de Riobaldo, um ex-jagunço que narra suas memórias a um interlocutor silencioso. 

A genialidade da obra reside em sua linguagem inventiva, caracterizada pela fusão do falar sertanejo com o erudito e pela criação de neologismos poéticos (como o “Nonada (não e nada) que abre a história), transformando o cenário árido do interior mineiro em um labirinto estético sem paralelos.

Para além da inovação formal, o romance transcende o regionalismo ao elevar o sertão à categoria de espaço mítico e universal, onde são debatidos os grandes dilemas da condição humana. Por meio da jornada de Riobaldo e de sua complexa relação com o enigmático Diadorim, Rosa explora temas metafísicos profundos, como as fronteiras entre o bem e o mal, a existência do demônio e a inevitável travessia existencial da vida. 

Embora ainda seja considerado por muitos uma obra complexa, de difícil compreensão e com traduções que muitas vezes deixam o leitor estrangeiro à margem de sua verdadeira essência, Grande Sertão também encantou os colegas de Rosa. Para o peruano Mario Vargas Llosa,  em entrevista à Folha de S.Paulo em 2010, João Guimarães Rosa só não ganhou o Nobel da Literatura justamente porque ninguém soube traduzir o poder linguístico de sua obra.

70 anos depois, e com novas versões em inglês e alemão, o trabalho magistral de Rosa ainda segue a desbravar leitores mundo afora. Ainda sem um Nobel de Literatura, mas com a grandeza de quem deixou rastros sem precedentes na história.

Edição especial

Grande Sertão: Veredas acaba de ganhar uma nova edição comemorativa pela Companhia das Letras (608 págs.; R$ 209,90). A publicação foi feita a partir da segunda versão da obra, de 1958, que Guimarães Rosa declarou como definitiva. 

A nova versão traz documentos com marcas a lápis, símbolos e cores, revelando detalhes curiosos do processo de produção do livro, como o fato de que a obra quase se chamou Veredas Mortas.

A edição ainda inclui a transcrição de uma entrevista que Guimarães Rosa deu ao jornalista e tradutor Günter Lorenz, realizada em Gênova, em 1965, e depoimentos inéditos de leitores ilustres, como Mia Couto, Caetano W. Galindo, Eduardo Giannetti, Milton Hatoum, Ana Martins Marques e Itamar vieira Junior.

Frases icônicas de Grande Sertão: Veredas

1. O Sertão e a Travessia

“O real não está na saída nem na chegada: ele se mostra pra gente é no meio da travessia.” 

2. A Natureza Humana

“O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam.” 

3. A Desmistificação e o Fim

“O diabo não há! É o que eu digo, se for ver. Existe é homem humano. Travessia.” 

4. A essência do destino:

“O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia.”

5. A coragem:

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”