O senador e candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, participou nesta-sexta (28) da série de entrevistas realizadas pela TV Globo com os postulantes ao Palácio do Planalto. O representante da extrema-direita foi o penúltimo convidado da sabatina intermediada pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos.

Durante 40 minutos, o filho do presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado, tentou se esquivar da prestação de contas que deve não só ao eleitorado, mas principalmente a Justiça Brasileira, sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro e o entorno da produção do filme Dark Horse.

Flávio Bolsonaro, que pouco se dedicou a apresentar propostas ao país, insistiu na tese de que o tema já está superado, embora não tenha apresentado a aguardada planilha de gastos com o destino do dinheiro enviado por Vorcaro para a produção da cinebiografia sobre seu pai. Foi pressionado por 12 minutos e usou as mais variadas teses para tentar justificar a falta de transparência na relação com o empresário preso por fraudes bilionárias.

“Eu falei: ‘quero, em 30 dias, que a produtora apresente uma prestação de contas’. E, antes desse prazo, a prestação de contas foi feita, inclusive na investigação que estava acontecendo na Polícia Civil de São Paulo”, declarou.

Os apresentadores o desmentiram ao relembrar o caso. O laudo apresentado pela defesa da produtora Karina Ferreira da Gama, que está na mira da Polícia Federal, não comprova a prestação de contas do filme “Dark Horse”, pois o documento carece de notas fiscais, recibos ou registros de transferências bancárias.

Além disso, o caso segue sob investigação ativa na PF e no STF para apurar um possível desvio de recursos públicos destinados à instalação de pontos de wi-fi na periferia de São Paulo.

Tarifaço

Quando questionado sobre se teria atuado, junto ao irmão Eduardo Bolsonaro, para que Donald Trump aplicasse o chamado tarifaço contra as exportações brasileiras, Flávio voltou a ser desmentido ao vivo pelos apresentadores.

O candidato tentou emplacar a tese de que foi o único a defender o país presencialmente na reunião sobre o tema no próprio EUA, mas foi lembrado de que pediu o adiamento e não a anulação das tarifas. Depois, reconheceu que o irmão, deputado federal cassado e condenado por tentar interferir no processo contra o pai, errou ao agradecer pela imposição de tarifas ao Brasil.

A troca de cartas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ocorrida em junho de 2026, tornou-se um dos principais focos de debate na diplomacia e na política brasileira. Nela Flávio mostra seu interesse eleitoreiro junto ao tarifaço ao reiterar o pedido para que as taxas sejam retiradas somente depois das eleições.

Sobre ter sido o único a defender o país no caso, mais uma mentira. Desde o início da aplicação do tarifaço, Lula e sua equipe têm realizado tratativas com a Casa Branca para encontrar uma saída diplomática para reverter a medida.

Novas mentiras sobre o Pix

“O Pix foi criado no governo do presidente Bolsonaro”. Esta é uma das fake news em que os bolsonaristas mais insistem em disseminar. Segundo matéria publicada pela Fundação Perseu Abramo, a ferramenta de pagamentos instantâneos foi idealizada em 2018 pelo Banco Central.

Na época, foi criado um grupo de trabalho para desenvolvimento do sistema e no final daquele ano, a instituição aprovou os principais requisitos para o que seria o PIX.

O lançamento da ferramenta, no entanto, foi realizado durante o mandato de Jair Bolsonaro (PL), no final de 2020. Na ocasião, o então presidente demonstrou desconhecimento sobre a proposta a ponto de dizer durante entrevista que sequer sabia do que se tratava o Pix.

Anistia e milícia


Flávio prometeu anistiar o próprio pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e todos os condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e pela trama golpista. E disse que, se isso não for possível, vai conceder indulto presidencial a todos os condenados. Para ele, a condenação foi “uma grande farsa foi armada para tirar Bolsonaro da vida pública”.

Flávio ignora o fato de que a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República contra Jair Bolsonaro, que o acusa de liderar organização criminosa armada, não se restringe ao dia 8 de janeiro e envolve também fatos anteriores que integram a trama golpista, como o plano de assassinar o então presidente eleito Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do STF.

Quando disse que não havia sequer uma arma de fogo nos atos criminosos de 8 de janeiro ele também falta com a verdade. Durante as investigações relacionadas ao golpe, a Polícia Federal cumpriu 47 mandados judiciais, sendo 46 de busca e apreensão e um de prisão, e apreendeu armas de fogo. No plano Punhal Verde e Amarelo, que tinha como objetivo o assassinato das autoridades, estava previsto o uso de armas como “quatro pistolas 9mm ou .40” e “quatro fuzis 5,56 mm, 7,62mm ou .338”.

O primogênito de Jair também justificou a relação com o miliciano Adriano da Nóbrega, morto em 2020, dizendo que, enquanto manteve contato com ele, não havia denúncias contra ele por ser liderança do Escritório do Crime, no Rio de Janeiro. No entanto, Flávio manteve familiares do miliciano trabalhando em seu gabinete mesmo depois do caso ser revelado.

















“É um PIX, que foi ali criado no governo do presidente Bolsonaro.”

A portaria do Banco Central 97.909, que instituiu o grupo de trabalho para desenvolver uma ferramenta interbancária de pagamento instantâneo (à época, sem o nome de PIX) foi publicada em 3 de maio de 2018, quando Michel Temer era o presidente. Jair Bolsonaro tomou posse meses depois, em 1º de janeiro de 2019.
O comunicado 32.927, divulgado pelo BC em 21 de dezembro de 2018, informou que uma reunião realizada na véspera havia aprovado os requisitos fundamentais para o ecossistema de pagamentos instantâneos brasileiro.
Em 3 de agosto de 2022, o Fato ou Fake publicou a seguinte checagem: É #FAKE que Bolsonaro foi o criador do PIX. Questionada na ocasião, a assessoria de imprensa do BC enviou uma nota dizendo: “O PIX foi desenvolvido pelo BC ao longo de um processo evolutivo. As especificações, o desenvolvimento do sistema e a construção da marca se deram entre 2019 e 2020, culminando com seu lançamento em novembro de 2020. A agenda evolutiva do PIX é permanente e prevê o lançamento de diversas novas funcionalidades, a serem entregues nos vários anos à frente”.
Já Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal) afirmou que o sistema de pagamento instantâneo foi criado e implementado pelos analistas e técnicos, servidores concursados do BC.
O PIX começou a funcionar em 16 de novembro de 2020, durante o governo Bolsonaro. Mas, já a partir de 5 de outubro daquele ano, era possível fazer o cadastramento das chaves. Questionado naquela mesma data por um apoiador sobre o sistema, o então presidente respondeu: “Tem um documento aí, da turma do Tarcísio [de Freitas, então ministro de Infraestrutura] esta semana que vai praticamente desregulamentar, desburocratizar tudo sobre aviação civil aí, carteira de habilitação para piloto”.
Ao perceber que Bolsonaro não havia entendido a referência, o apoiador disse: “Esse é do Banco Central, para pagamentos”. O presidente, então, respondeu: “Não tomei conhecimento, vou conversar esta semana com o Roberto Campos Neto [então presidente do BC]”.