Às vésperas de um novo ano, quando o mundo costuma renovar promessas de esperança e recomeço, o Brasil é novamente confrontado com uma realidade dura e persistente: a violência contra as mulheres segue fazendo vítimas, comprometendo vidas, famílias e o próprio tecido social. Diante desse cenário, ganha relevância o fato de o presidente Lula ter anunciado o enfrentamento à violência contra as mulheres como uma prioridade política. Trata-se de um sinal importante de compromisso do governo federal com um tema que não pode mais ser tratado como periférico.
Assim como o Brasil reassumiu protagonismo internacional ao recolocar o combate à fome e à pobreza no centro da agenda global, o país tem agora a oportunidade de afirmar, no plano interno e também no externo, que a vida e a dignidade das mulheres são valores inegociáveis. A violência de gênero não é um problema restrito à esfera privada; ela expressa desigualdades estruturais profundas e afeta diretamente a democracia, o desenvolvimento e a justiça social.
A violência contra as mulheres se manifesta de múltiplas formas — física, psicológica, sexual, patrimonial e simbólica — e atinge de maneira desproporcional aquelas que vivem em contextos de maior vulnerabilidade social. O feminicídio é sua face mais extrema, mas não pode ser analisado isoladamente, pois é precedido por ciclos prolongados de agressões, silenciamentos e ausência de proteção efetiva do Estado.
É igualmente necessário reconhecer que o impacto do discurso de ódio no espaço público contribui para a naturalização da violência. Quando práticas discriminatórias, misoginia e desumanização das mulheres circulam sem contestação, cria-se um ambiente social mais permissivo à agressão. Esse fenômeno não depende de relações causais simplistas, mas está associado à forma como valores e comportamentos são legitimados ou combatidos na vida política e institucional.
O enfrentamento à violência contra as mulheres exige políticas públicas contínuas, integradas e sustentadas no tempo. Isso passa pelo fortalecimento das redes de proteção, pela ampliação do acesso à justiça, pela prevenção e pela responsabilização dos agressores. Exige, sobretudo, atuação coordenada entre a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios, reconhecendo que a resposta do Estado precisa ser articulada e capilarizada para produzir resultados concretos.
Essa inflexão política não ocorre no vazio. Ela dialoga com um momento em que o campo progressista é chamado a assumir, com maior clareza, a centralidade da agenda de enfrentamento à violência contra as mulheres. Nesse processo, a atuação pública de Janja Lula da Silva tem contribuído para dar maior visibilidade e densidade política ao tema, reforçando a compreensão de que cuidar da vida das mulheres é uma responsabilidade coletiva e institucional.
Os partidos progressistas, por sua vez, têm um papel decisivo nesse caminho. Defender o enfrentamento à violência contra as mulheres implica também combater todas as formas de violência e discriminação no interior de suas próprias estruturas, especialmente na política. A coerência entre discurso e prática é condição indispensável para que essa agenda avance com legitimidade.
Enfrentar a violência contra as mulheres é, em última instância, uma escolha política e civilizatória. Significa afirmar que não há democracia plena onde mulheres vivem sob medo, ameaça e desigualdade. Colocar esse tema no centro do projeto de país é um passo essencial para construir um Brasil mais justo, solidário e verdadeiramente democrático.
Vanda Pignato, Consultora de Políticas Públicas e Gênero, Ex-secretária de Inclusão Social de El Salvador
