Os eleitores estadunidenses votam nesta terça-feira, 3 de novembro, nas eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, que definem as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado. O pleito ocorre na metade do segundo mandato de Donald Trump e pode alterar a relação de forças entre o Congresso e a Casa Branca. Também estão em disputa 36 governos estaduais, além de legislativos estaduais e cargos locais.
Embora o presidente não apareça nas cédulas, a avaliação de seu governo ocupa o centro da disputa. Pesquisa Reuters/Ipsos realizada entre 29 de outubro e 2 de novembro aponta 64% de desaprovação e 32% de aprovação a Trump. O levantamento ouviu 1.765 adultos e tem margem de erro de 2,4 pontos percentuais para a amostra total.
Os republicanos chegam à eleição com maioria nas duas Casas. Uma mudança no controle do Legislativo poderá dificultar a aprovação da agenda presidencial e ampliar as investigações sobre a administração. O novo Congresso inicia seus trabalhos em janeiro de 2027, para os dois últimos anos do mandato de Trump.
Maiorias em disputa
Na Câmara, os republicanos têm 218 representantes, contra 214 democratas, além de um independente alinhado aos governistas e duas vagas em aberto. Para alcançar a maioria absoluta de 218 das 435 cadeiras, os democratas precisam ampliar sua bancada em quatro assentos em relação à composição atual.
No Senado, são 53 republicanos, 45 democratas e dois independentes que integram a bancada democrata. A oposição precisa de um ganho líquido de quatro cadeiras, passando de 47 para 51. Isso exige compensar eventuais perdas de vagas que já ocupa. Uma divisão de 50 a 50 favorece os republicanos, porque o vice-presidente J. D. Vance pode desempatar as votações.
O controle de cada Casa define o comando das comissões e a condução dos trabalhos legislativos. Uma maioria democrata poderia convocar audiências e aprofundar a fiscalização do Executivo. No Senado, também teria influência sobre a confirmação de autoridades e juízes indicados pelo presidente. Trump conservaria o poder de veto e a possibilidade de editar ordens executivas, sujeitas a controle judicial.
Custo de vida e rejeição
O custo de vida aparece entre os principais fatores de desgaste do governo. Segundo a Reuters/Ipsos, 78% dos eleitores consideram a alta dos preços um tema muito importante ou o mais importante para decidir o voto. Questionados sobre qual partido lidaria melhor com o problema, 43% apontam os democratas e 32%, os republicanos.
A rejeição ao presidente também mobiliza os independentes. Entre os eleitores registrados que se identificam dessa forma, 50% afirmam que seu voto nas eleições legislativas é contra Trump. Outros 13% dizem votar a favor dele, enquanto 33% declaram que o presidente não interfere na decisão.
Na consulta sobre a preferência partidária para a Câmara, a pesquisa registra 52% para os democratas e 44% para os republicanos entre os prováveis eleitores, incluindo aqueles que indicam inclinação por uma das legendas. Para esse recorte, a margem de erro é de 2,9 pontos percentuais. O resultado nacional mede o ambiente político, mas não determina quantas cadeiras cada partido conquistará.
Projeções favorecem os democratas
A avaliação final do Sabato’s Crystal Ball, publicação do Centro de Política da Universidade da Virgínia, divulgada na segunda-feira (2), classifica 239 distritos da Câmara como favoráveis aos democratas e 196 aos republicanos, somadas as diferentes categorias de favoritismo.
Para o Senado, a projeção aponta uma composição de 53 cadeiras alinhadas aos democratas e 47 aos republicanos. O total inclui os parlamentares cujos mandatos continuam em vigor e que não disputam a eleição deste ano. Entre as corridas acompanhadas de perto estão as de Texas, Kansas, Ohio e Maine.
Esses números são avaliações das disputas, não resultados de apuração. As eleições são decididas distrito por distrito na Câmara e estado por estado no Senado. Por isso, uma vantagem nacional nas pesquisas pode produzir distribuições diferentes de cadeiras conforme o desempenho dos candidatos nas áreas mais competitivas.
Como funciona a votação
O voto nos Estados Unidos é facultativo, e os integrantes do Congresso são escolhidos diretamente pelos eleitores, sem a participação do Colégio Eleitoral usado na disputa presidencial. A administração da votação cabe principalmente a autoridades estaduais e locais, que precisam cumprir a legislação federal. Não há um órgão nacional com as mesmas atribuições do Tribunal Superior Eleitoral brasileiro.
Na Câmara, o número de representantes de cada estado depende da população, e cada distrito elege um deputado para um mandato de dois anos. No Senado, todos os estados têm duas cadeiras, independentemente do tamanho de sua população, com mandatos de seis anos e renovação escalonada. Neste ano, são 33 disputas regulares e duas eleições especiais, na Flórida e em Ohio.
As regras de registro, votação antecipada e contagem variam entre os estados, assim como os horários de fechamento dos locais de votação. Os primeiros resultados são divulgados na noite da eleição, mas a contagem de todas as cédulas e a certificação oficial podem levar dias ou semanas. Em disputas apertadas, a definição do controle das Casas também pode demorar.
Mapas eleitorais e voto pelo correio
A disputa pela Câmara começou antes da abertura das urnas, com uma ofensiva para redesenhar distritos. Como cada área elege um representante, mudanças em suas fronteiras podem concentrar ou dispersar os eleitores de um partido e alterar suas chances de vitória. A manipulação desses limites para obter vantagem eleitoral é conhecida como gerrymandering.
O Texas aprovou um novo mapa em agosto de 2025, em uma iniciativa apoiada por Trump. Na Califórnia, os eleitores autorizaram mudanças em novembro do mesmo ano, em resposta dos democratas. Segundo levantamento da Associated Press, nove estados usam distritos diferentes dos adotados em 2024, após mudanças legislativas ou decisões judiciais.
O voto pelo correio é outro foco de disputa. Todos os estados permitem alguma modalidade de votação postal; em 37 deles e no Distrito de Columbia, não é preciso apresentar justificativa. Uma ordem executiva assinada por Trump em março determinou novas exigências para o envio das cédulas. Em 14 de setembro, a Suprema Corte manteve uma liminar que impede a aplicação, neste pleito, de regras do Serviço Postal destinadas a implementar a medida.
Esquerda em campanha
A eleição também reúne candidaturas apoiadas pelos Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês). Segundo a Ballotpedia, a organização nacional e suas seções locais apoiam 131 nomes em 30 estados e no Distrito de Columbia. São dez candidatos à Câmara federal, 52 a legislativos estaduais e 69 a cargos locais.
O DSA não constitui um partido político nem mantém filiação formal ao Partido Democrata, embora muitos candidatos que apoia concorram pela legenda. A organização reúne ativistas e sindicalistas em torno de propostas de ampliação dos direitos sociais e de enfrentamento ao poder das grandes corporações.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Luisa Martinez, integrante da direção nacional do movimento, afirmou que uma eventual vitória democrata deve ser lida como expressão do descontentamento com o governo. “Os votos a favor dos democratas devem ser entendidos como votos contra Trump”, disse.
Reflexos no Brasil
O resultado também pode repercutir na fiscalização da política dos Estados Unidos para o Brasil. Deputados democratas, em uma iniciativa liderada por Sydney Kamlager-Dove e Dina Titus, cobraram explicações do secretário de Estado, Marco Rubio, sobre o possível envolvimento do governo estadunidense na saída de Flávio Bolsonaro (Partido Liberal) do Brasil e em sua entrada nos Estados Unidos.
Candidato derrotado à Presidência da República, o senador era alvo de uma ordem judicial para entregar os passaportes. Em 27 de outubro, um alto funcionário do Departamento de Estado confirmou à CNN Brasil que o órgão emitiria vistos para Flávio e seus familiares e permitiria a entrada deles no país.
Na carta, os congressistas questionam a base jurídica para a emissão dos vistos e se autoridades estadunidenses ajudaram a organizar a viagem apesar das restrições judiciais brasileiras. Os parlamentares solicitaram esclarecimentos e uma reunião com o Departamento de Estado até 13 de novembro.
Com informações de Reuters, Ipsos, CNN Brasil, Brasil de Fato, Ballotpedia, Associated Press e do Centro de Política da Universidade da Virgínia
