Por Wagner Romão

O voto é uma expressão de confiança em alguém. De que você se sente representado por uma pessoa. Seja porque ela expressa ideias nas quais você acredita, porque é defensora de ações para o seu território ou, ainda, porque apresenta empatia ou carisma

Os motivos da decisão do voto são muitos e todos, em algum nível, expressam essa ideia de representação, de alguém que te representa em algum lugar de poder que não comporta todas as pessoas. Essa é a síntese do que entendemos por democracia representativa.

A democracia direta é possível em pequenos grupos e organizações ou até em bairros. É quando não é necessário estabelecer instâncias intermediárias de representação para que as ações públicas sejam realizadas. Em geral, isso ocorre em assembleias onde as próprias pessoas tomam decisões por elas mesmas.

Mas, mesmo no grêmio estudantil, quando é necessário interagir com outros grêmios ou com a direção da escola, é inevitável que alguém represente os estudantes. Ou no seu coletivo cultural, quando é preciso intermediar contato com órgãos públicos ou participar de fóruns mais amplos de articulação com coletivos semelhantes, alguém terá que representar o grupo.

Ou seja, a vida em sociedade exige que pessoas representem pessoas e há algumas delas que se dedicam mais a essa ação, ao ponto de se especializarem nelas. Esses são os políticos.

Porém, a representação não pode ser uma via de mão única em que o eleitor elege um político e deixa tudo nas mãos dele. Isso porque aquilo que motivou seu voto pode se perder ao longo dos anos de mandato daquele que se elegeu com seu voto.

Acompanhar o desempenho daquele político que você elegeu – ou até mesmo a trajetória de vida daquela pessoa em quem você votou e não se elegeu – é verificar o quanto você continua se sentindo representado por ele ou ela. Isso é fundamental nas democracias!

Em outubro deste ano teremos novas eleições para os cargos do Poder Executivo (governador/a e presidente/a) e do Poder Legislativo (deputados/as estaduais e federais, e senadores/as).

Talvez você não se lembre em quem votou nas últimas eleições, principalmente para deputado ou deputada. São muitos candidatos e é difícil escolher entre um deles. Mas, embora muitas vezes as alturas do poder pareçam distantes da nossa vida cotidiana, as ações dos políticos nos impactam diretamente. Para melhor e para pior!

O preço dos alimentos, da água e da energia elétrica, a coleta e reciclagem do lixo, a ação das polícias, a qualidade da saúde pública e das escolas, o quanto pagamos de imposto, os nossos direitos trabalhistas: tudo isso e muito mais se relaciona às decisões tomadas por pessoas que nós elegemos.

O outro lado da representação se expressa quando passamos a ter capacidade de orientar aquilo que os políticos farão em seus mandatos. E isso começa conhecendo como eles agem.

No contexto do Poder Legislativo, desde as câmaras municipais até o Congresso Nacional, desde a retomada da democracia no Brasil na década de 1980, há muitas experiências interessantes de observação e acompanhamento das ações dos políticos.

Uma delas, que permanece atuante até hoje, é a do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP). Criado em 1983, o DIAP é constituído atualmente por mais de 900 entidades sindicais que analisam o comportamento de parlamentares do Congresso Nacional a partir do comprometimento deles com as necessidades da classe trabalhadora.1

Seu grupo de amigos, seu coletivo, seu movimento cultural pode ser um desses observatórios de acompanhamento de políticos. Claro que analisar o desempenho de todos eles nos mais variados aspectos seria bem complexo. Mas, vocês podem desenvolver formas de avaliar o quanto eles realmente são importantes para temas e utas que lhes interessam mais como grupo ou território.

Uma estratégia legal é observar a partir da identidade do grupo. Por exemplo, se o grupo se mobiliza pelas questões da saúde, observar quanto e como os parlamentares da sua cidade (vereadores/as) e do seu estado (deputados estaduais e/ou federais, senadores/as) se importam com este tema é um bom primeiro passo. Vocês podem verificar isso a partir dos projetos de lei apresentados, pela quantidade de recursos públicos (emendas) destinados à saúde ou mesmo pelo posicionamento deles em votações importantes sobre esta política pública. O mesmo vale para a cultura, as políticas para as mulheres, a educação, o meio ambiente e tantos outros temas. Vocês podem se dedicar também a observar o quanto um parlamentar se dedica à sua cidade ou bairro.

Em um momento de tanta mentira e tanto ódio na política, tornar a decisão do voto mais baseada em fatos e menos em suposições é extremamente necessário. Promover ações de observação e acompanhamento da política que possam motivar a escolha coletiva de um candidato ou candidata pode ser uma enorme contribuição para a conscientização política e para a democracia.

1 Para mais informações veja www.diap.org.br

Wagner Romão é professor do Departamento de Ciência Política da Unicamp co-coordenador do Núcleo de Pesquisa em Participação, Movimentos Sociais e Ação Coletiva (Nepac), membro do INCT Participa e vereador pelo PT em Campinas.