Em 31 de agosto de 2016, depois de seis dias de julgamento e mais de 60 horas de sessão, 61 senadores retiraram Dilma Rousseff da Presidência da República. Vinte votaram contra o impeachment. Em uma segunda votação, o Senado preservou seus direitos políticos.
Diante das câmeras, já fora do governo, ela respondeu com uma frase que seus adversários trataram como despedida: “Eles pensam que nos venceram, mas estão enganados”.
Dez anos depois, Dilma não ocupa um lugar de memória. Ocupa a presidência do Novo Banco de Desenvolvimento, o NDB, criado pelos países do BRICS. Foi eleita por unanimidade em 24 de março de 2023 e reeleita, também por unanimidade, em 19 de março de 2025.
Seu mandato vai de 7 de julho de 2025 a 6 de julho de 2030. Aos 78 anos, a mulher que tentaram reduzir a uma página encerrada da política brasileira dirige, em Xangai, uma instituição estratégica para os países emergentes.
Até o fim de 2025, o banco havia aprovado US$ 42,9 bilhões para 139 projetos desde a sua criação. São investimentos em energia limpa, transportes, água, saneamento, proteção ambiental e infraestrutura social e digital.
Em 2024, já sob a gestão de Dilma, o NDB aprovou US$ 2,5 bilhões em financiamento climático, o equivalente a 55,3% das aprovações daquele ano, o maior percentual anual registrado pelo banco. Esses números pertencem à instituição, não a uma biografia individual. Mas ajudam a medir o tamanho da responsabilidade entregue a ela.
A história de Dilma Vana Rousseff nunca coube na caricatura fabricada para diminuí-la. Nascida em Belo Horizonte, em 14 de dezembro de 1947, começou a militância política aos 16 anos, depois do golpe que depôs João Goulart em 1964. Passou pela Polop, pelo Colina e pela VAR-Palmares. Em 1970, foi presa pelos órgãos de repressão da ditadura, torturada e teve os direitos políticos cassados. Saiu da prisão no fim de 1972, depois de quase três anos. Quarenta e quatro anos mais tarde, diante dos senadores que julgavam seu mandato, resumiu aquele aprendizado em quatro palavras: “Mas não cedi. Resisti”.
Em liberdade, retomou os estudos, formou-se em Economia e fez da administração pública seu campo de atuação. Foi secretária da Fazenda de Porto Alegre e secretária de Minas, Energia e Comunicação do Rio Grande do Sul. Em 2003, Lula a nomeou ministra de Minas e Energia. Em 2005, ela assumiu a Casa Civil. Era uma formuladora de políticas públicas conhecida pelo domínio técnico e pela cobrança dura dentro do governo. Em 2010, saiu dos bastidores para disputar sua primeira eleição.
No dia 1º de janeiro de 2011, Dilma subiu a rampa do Palácio do Planalto e tomou posse como a 36ª presidente da República. Pela primeira vez, uma mulher recebia a faixa presidencial no Brasil. Em outubro de 2014, foi reeleita com 54.501.118 votos. Meses antes, em julho, havia participado da criação do NDB na cúpula do BRICS em Fortaleza. A instituição que presidiria nove anos depois nasceu durante seu governo.
A engrenagem do golpe
O segundo mandato começou em 1º de janeiro de 2015 sob os efeitos da desaceleração econômica, da queda de popularidade, das manifestações iniciadas em 2013 e de uma Lava Jato transformada em força permanente da política. A eleição fora a mais apertada desde a redemocratização. A oposição elevou a contestação do resultado a método, enquanto a base governista se desfazia no Congresso. Nesse ambiente, a crise econômica encontrou um projeto de poder.
Eduardo Cunha presidia a Câmara e respondia a um processo no Conselho de Ética por ter negado a existência de contas no exterior. Reportagens publicadas naquele momento registraram sua ameaça: se os deputados do PT votassem contra ele no conselho, um pedido de impeachment contra Dilma poderia avançar. Em 2 de dezembro de 2015, a bancada petista anunciou que não salvaria Cunha. No mesmo dia, ele aceitou a denúncia assinada por Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal.
O processo não acusava Dilma de receber propina, esconder dinheiro ou enriquecer com o cargo. A denúncia se apoiou na edição de decretos de crédito suplementar e em operações ligadas ao Plano Safra, as chamadas pedaladas fiscais. A defesa sustentou que não houve empréstimo ilegal, dolo da presidenta nem atentado à Constituição. A disputa jurídica ocorreu dentro de um movimento político cuja data de abertura ficou ligada à sobrevivência parlamentar de Cunha.
Cinco dias depois, em 7 de dezembro, Michel Temer enviou a Dilma a carta em que reclamava ter sido tratado como “vice decorativo”. Disse que perdera protagonismo e que era chamado quando o governo precisava de votos do PMDB ou enfrentava crises. O texto, divulgado em meio à ofensiva do impeachment, deixou documentada a ruptura do vice com a presidenta eleita.
A operação política teve uma escolta cultural. Às vésperas da votação na Câmara, a edição 2417 da revista IstoÉ estampou “As explosões nervosas da presidente” e publicou a matéria “Uma presidente fora de si”. O enquadramento substituía a discussão sobre orçamento por uma sentença sobre a sanidade emocional de uma mulher no poder. A Justiça do Distrito Federal determinou depois que a revista concedesse direito de resposta a Dilma pelas publicações ofensivas.
Dilma identificou o roteiro. “A mulher é sempre histérica ou descontrolada”, disse em 2016. Quando não cabia nesse estereótipo, era chamada de trator. A firmeza celebrada em homens aparecia nas manchetes como desequilíbrio, teimosia ou incapacidade de diálogo. O sexismo não foi um detalhe de linguagem. Ajudou a construir o ambiente em que a primeira presidenta pôde ser tratada como uma intrusa no cargo conquistado por duas eleições.
Em 17 de abril de 2016, a Câmara autorizou a abertura do impeachment por 367 votos a 137. Poucos deputados falaram dos decretos ou do Plano Safra. Houve votos por Deus, pela família, pelos filhos e por municípios. Jair Bolsonaro dedicou o seu ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, nome associado ao aparelho de tortura da ditadura, e o chamou de “o pavor de Dilma Rousseff”. A sessão expôs, em rede nacional, o conteúdo político e moral da maioria que afastaria a presidenta.
Em 12 de maio, por 55 votos a 22, o Senado abriu o processo e afastou Dilma por até 180 dias. Em 29 de agosto, ela foi pessoalmente ao plenário. Recordou a prisão, reconheceu erros de governo, negou crime de responsabilidade e advertiu: “Receio que a democracia seja condenada junto comigo”. Dois dias depois, o mandato conferido por mais de 54 milhões de votos foi encerrado por 61 senadores. Doze dias mais tarde, a mesma Câmara cassou Eduardo Cunha por 450 votos a 10.
O caminho de volta
Dilma deixou o Planalto, mas não entregou sua versão da história. Nos pronunciamentos de 12 de maio, quando foi afastada, e de 31 de agosto, quando perdeu o mandato, denunciou a ausência de crime e recusou uma despedida definitiva. Chamou o impeachment de segundo golpe de Estado de sua vida e, no Alvorada, anunciou: “Nós voltaremos”.
A eleição seguinte mostrou que a volta não seria uma marcha sem derrotas. Em 2018, candidata ao Senado por Minas Gerais, recebeu pouco mais de 2,5 milhões de votos, 15,17% do total, e terminou em quarto lugar.
Antes disso, em junho de 2017, o Tribunal Superior Eleitoral absolvera por quatro votos a três a chapa Dilma-Temer nas ações sobre a campanha de 2014. Em agosto de 2023, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região manteve, também por unanimidade, o arquivamento de uma ação de improbidade relacionada às pedaladas fiscais. A decisão judicial não anulou o julgamento político do Senado e o processo foi arquivado sem resolução do mérito. Impediu, porém, que aquela ação fosse usada como prova de uma condenação judicial de Dilma por improbidade, condenação que nunca existiu.
O plural de “nós voltaremos” ganhou materialidade em 2023. Lula retornou ao Palácio do Planalto em 1º de janeiro. Em 24 de março, os governadores do NDB escolheram Dilma para a presidência da instituição. Ela voltou ao centro das decisões por uma porta que ajudara a construir em 2014, agora com a missão de ampliar o financiamento ao desenvolvimento e reduzir a dependência dos países emergentes em relação às estruturas comandadas pelas potências tradicionais.
Na posse, Dilma fixou prioridades concretas: mais empréstimos em moedas locais para diminuir o risco cambial dos projetos, integração com bancos nacionais e multilaterais, financiamento de infraestrutura sustentável e atenção à inclusão social e digital. Sob sua presidência, o banco aprofundou a agenda climática, ampliou sua presença internacional e manteve a incorporação de novos membros. O NDB não substitui o Banco Mundial nem rompe sozinho a arquitetura financeira global. Oferece aos países do Sul uma fonte adicional de crédito e mais espaço para formular suas próprias escolhas.
Em julho de 2025, o banco realizou no Rio de Janeiro sua décima reunião anual, de volta ao país onde o acordo de criação havia sido assinado. Dilma chegou ao encontro com um novo mandato, assegurado pela decisão unânime dos países membros. Não era uma homenagem compensatória. Era uma escolha de governança para mais cinco anos.
Aos 16 anos, Dilma começou a enfrentar a ditadura. Aos 22, conheceu a prisão e a tortura. Aos 55, assumiu um ministério. Aos 63, tornou-se a primeira mulher presidente do Brasil. Aos 68, foi retirada do cargo por um golpe parlamentar. Aos 75, assumiu o banco dos BRICS. Seu mandato no NDB vai até 6 de julho de 2030. Dez anos depois de ser expulsa do Planalto, Dilma Rousseff segue presidenta.
Linha do Tempo
1964 | Aos 16 anos, inicia a militância política depois do golpe contra João Goulart
1970 | É presa pelos órgãos de repressão da ditadura e submetida a tortura
Fim de 1972 | Deixa a prisão depois de quase três anos e retoma a vida política e os estudos
1º de janeiro de 2003 | Assume o Ministério de Minas e Energia no primeiro governo Lula
21 de junho de 2005 | Torna-se ministra-chefe da Casa Civil
1º de janeiro de 2011 | Toma posse como a primeira mulher presidente do Brasil
26 de outubro de 2014 | É reeleita com 54.501.118 votos
31 de agosto de 2016 | O Senado retira seu mandato por 61 votos a 20 e preserva seus direitos políticos
7 de outubro de 2018 | Recebe mais de 2,5 milhões de votos na disputa pelo Senado em Minas Gerais, mas não se elege
24 de março de 2023 | É eleita por unanimidade presidente do Novo Banco de Desenvolvimento
19 de março de 2025 | É reeleita por unanimidade para um mandato de 7 de julho de 2025 a 6 de julho de 2030
