O Disque 100 recebeu, até agosto de 2026, 1.393 denúncias de violações de direitos humanos contra mulheres lésbicas. Os dados foram divulgados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania no mês em que o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica completou 30 anos.
A data, celebrada em 29 de agosto, foi marcada por marchas, festivais, debates e atividades culturais em diferentes regiões do país. Em Belém, a 16ª Marcha LesBi reuniu cerca de 50 mil pessoas, segundo os organizadores. Mobilizações também ocorreram em capitais do Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Goiás lidera os registros do Disque 100, com 329 denúncias, seguido por São Paulo, com 299, e Rio de Janeiro, com 136. Mulheres negras concentram 550 ocorrências e a faixa etária entre 45 e 49 anos aparece como a mais atingida, com 282 registros.
A residência da própria vítima é o principal local das violações, com 846 casos. O número corresponde a aproximadamente 61% das denúncias. O ambiente virtual aparece em seguida, com 113 ocorrências, e a casa da pessoa suspeita reúne outros 71 casos. Familiares, vizinhos e desconhecidos são os agressores mais citados.
Trinta anos de organização
O Dia Nacional da Visibilidade Lésbica surgiu durante o primeiro Seminário Nacional de Lésbicas, realizado em 29 de agosto de 1996, no Rio de Janeiro. O encontro reuniu cerca de cem participantes para discutir saúde, educação, moradia, segurança, enfrentamento à violência e participação social.
A articulação também enfrentou os estigmas relacionados ao HIV e à Aids, em um período em que mulheres lésbicas eram frequentemente ignoradas pelas políticas de prevenção e atendimento. O seminário ajudou a criar redes entre organizações que já atuavam nos territórios e estabeleceu uma agenda nacional de reivindicações.
Trinta anos depois, o movimento voltou ao Rio de Janeiro para a nona edição do seminário. Realizado entre 2 e 5 de julho, o encontro reuniu cerca de 200 mulheres de diferentes regiões do país e retomou o espaço nacional de articulação após 12 anos. A última edição havia ocorrido em Porto Alegre, em 2014.
Com o tema “Lésbicas tecendo histórias, construindo futuridades”, o seminário debateu memória, representação política, saúde integral, trabalho e enfrentamento ao lesbocídio. A realização do encontro no mesmo ano em que a data completou três décadas reforçou a ligação entre a organização histórica do movimento e as reivindicações atuais.
Atos ocuparam cidades de diferentes regiões
Em Belém, cerca de 50 mil pessoas participaram, no domingo, 30, da 16ª Marcha LesBi. A caminhada percorreu o centro da capital para defender políticas públicas, respeito à diversidade e proteção contra a violência. A mobilização fez parte da Semana de Visibilidade LesBi, realizada entre os dias 28 e 30 com debates sobre cidadania, saúde e direitos humanos.
Fortaleza promoveu atividades entre os dias 24 e 29, em parceria com coletivos locais. A programação incluiu oficina de autodefesa, curso de fotografia, encontro entre diferentes gerações e o Festival da Visibilidade Lésbica Fortaleza+, realizado na Praça da Gentilândia. O encerramento reuniu apresentações musicais e feiras de empreendedoras LGBTQIA+, negras e mulheres.
Em Porto Alegre, a 12ª Jornada Lésbica Feminista, Antirracista e Antitransfóbica ocupou a cidade durante três semanas. A programação teve debates, oficinas, sessões gratuitas de cinema e uma caminhada. Em São Paulo, a quinta Semana da Visibilidade Lésbica da Casa 1 promoveu mais de 20 atividades artísticas e formativas, enquanto saraus e encontros culturais ocorreram em diferentes regiões da capital.
No Rio de Janeiro, rodas culturais e atividades musicais se somaram à retomada do Seminário Nacional de Lésbicas. Em Curitiba, mulheres lésbicas e bissexuais realizaram a segunda Caminhada LésBi do Paraná no dia 29.
Em Campo Grande, a quarta edição do Sarau Delas, organizada para marcar a data, foi cancelada durante a montagem. A fiscalização municipal informou que o evento não possuía licença ambiental e apontou uma ligação elétrica irregular. As organizadoras negaram responsabilidade pela ligação e criticaram a presença de agentes armados durante a abordagem.
Reconhecimento de iniciativas
Em 2026, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania também realizou uma nova edição do Prêmio Luana Barbosa. O edital previu o reconhecimento de 29 programas, projetos e ações de enfrentamento à lesbofobia, promoção da cidadania e defesa dos direitos de mulheres lésbicas.
Entre as iniciativas selecionadas estão projetos de produção de dados, formação de profissionais, atendimento a vítimas de violência, promoção da saúde e criação de redes locais de proteção. O prêmio leva o nome de Luana Barbosa dos Reis, mulher negra e lésbica que morreu em 2016 após ser agredida durante uma abordagem policial em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.
As denúncias de violações de direitos humanos podem ser feitas gratuitamente pelo Disque 100, que funciona 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana e feriados. O atendimento também está disponível pelo WhatsApp, no número (61) 99611-0100, pelo Telegram, no canal DireitosHumanosBrasil, e por videochamada em Libras
