O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez um pronunciamento em rede nacional na noite desta quarta-feira (1º), sua primeira fala televisionada sobre a guerra no Irã desde o início da operação militar. Ao longo de 18 minutos, o republicano recorreu a superlativos e a uma retórica de vitória para apresentar o que chamou de “progressos extraordinários” em campo — e repetiu declarações que não se sustentam diante de informações públicas e de registros de cobertura internacional.
No discurso, Trump descreveu uma sequência de “vitórias rápidas, decisivas e esmagadoras” e disse que a operação Epic Fury não teria como objetivo “mudança de regime” no Irã. Em diferentes trechos, porém, a fala presidencial combinou versões amplificadas dos fatos, comparações sem base e acusações sem comprovação.
Além da sua percepção disruptiva da realidade, foram 18 minutos em que o ex-apresentador de reality show disse várias mentiras (mais de cinco), mas separamos algumas que merecem destaque.
- Sobre os ataques à Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro: “Foi rápido, letal, violento e respeitado por todos no mundo inteiro”
Fato: Em janeiro, os Estados Unidos bombardearam quatro cidades da Venezuela e sequestraram o presidente Nicolás Maduro, acusado por Washington de narcotráfico. O ataque deixou entre 77 e 80 mortos entre civis e militares venezuelanos e cubanos. A ideia de que a ação teria sido “respeitada por todos no mundo inteiro” não se confirma: segundo reportagem do SBT News, 26 países-membros da União Europeia condenaram a ofensiva. Governos da China, de Cuba, da Colômbia, da Rússia, do México e do Chile também criticaram os ataques. Segundo o Brasil de Fato, até a líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, condenou a operação. Nos EUA, o conselho editorial do The New York Times discordou da iniciativa.
- Sobre investimento nas Forças Armadas: “Reconstruímos nossas Forças Armadas no meu primeiro mandato”.
Fato: Segundo a repórter Tatiana Cozzarelli, do Esquerda Diário, ao final de 2021, Joe Biden, seu sucessor, “aprovou um orçamento militar de U$ 777 bilhões de dólares, o maior pacote de gastos militares desde a Segunda Guerra Mundial, um orçamento 5% maior do que a administração de Trump”. Durante seu primeiro mandato, Trump teve desentendimentos com generais e fez declarações controversas sobre militares, incluindo chamar soldados mortos em combate de “perdedores”. Quanto a reconstruir, sua “reconstrução” foi implementar políticas como a proibição de pessoas transgênero nas forças armadas, além da eliminação de programas de diversidade, equidade e inclusão.
- Produção de petróleo e gás da Venezuela: “Estamos nos dando incrivelmente bem na produção e venda de enormes quantidades de petróleo e gás — as segundas maiores reservas da Terra, depois dos Estados Unidos da América“
Fato: A declaração contraria rankings amplamente divulgados. Levantamentos públicos indicam que a Venezuela concentra as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, acima de 300 bilhões de barris, sobretudo na Faixa do Orinoco. Arábia Saudita e Canadá aparecem na sequência. Os EUA aparecem em 9º lugar, atrás da Rússia. A Venezuela tem aproximadamente 5-6 vezes mais reservas do que os EUA, não menos. Embora os EUA sejam o maior produtor mundial de petróleo (devido ao fracking e à produção de xisto), isso não se traduz em reservas maiores. Produção é diferente de reservas.
- Guerra em Gaza: Irã teria cometido “atrocidades” em Israel
Fato: Os ataques foram executados pelo Hamas com apoio de outros grupos palestinos. O Ministério das Relações Exteriores do Irã emitiu um comunicado após os ataques ocorridos em 7 de outubro de 2023, afirmando que a ação marcaria “um ponto de virada na história da luta legítima da nação palestina contra a ocupação e a opressão do regime sionista”, mas a alegação de que o Irã teria participado diretamente da ação não passa de especulações, disseminadas, em especial, pelo jornal The Wall Street Journal.
- Marinha iraniana “completamente destruída”.
Fato: Trump repete a tese desde o dia seguinte ao início da operação, mas a BBC Verify não confirmou que a Marinha iraniana tenha sido “completamente destruída”. O serviço ouviu o ex-chefe das Forças Armadas irlandesas, Mark Mellett, que avaliou que ataques americanos e israelenses parecem ter “neutralizado, em grande parte, ou, pelo menos, suprimido” a capacidade iraniana de manter ofensivas convencionais com seus maiores navios de guerra. A reportagem aponta que o Irã ainda teria capacidade para ações não convencionais no mar, com drones, minissubmarinos e “navios fantasmas” — petroleiros que operam à margem de regras marítimas e usam métodos para ocultar identidades.
Em momentos de conflito armado, esse tipo de discurso não apenas desinforma — também influencia as percepções públicas, pressiona aliados e amplia riscos. Por isso, checar o que é dito, com base em registros e evidências, deixa de ser um detalhe e passa a ser uma obrigação.
