Por que a eleição chilena não foi apenas uma virada à direita, mas um realinhamento profundo do Estado, do eleitorado e das expectativas sociais
As eleições presidenciais chilenas de 2025 foram rapidamente classificadas, dentro e fora do país, como uma “virada conservadora” ou um “giro à direita”. A vitória de José Antonio Kast, com cerca de 58% dos votos no segundo turno, reforçou essa leitura apressada. No entanto, uma análise mais cuidadosa, informada pela ciência política, pela economia política e pela geografia eleitoral, revela um processo mais complexo e, sobretudo, mais inquietante.
O que se decidiu no Chile em 2025 não foi apenas quem governa, mas como a sociedade responde ao medo, à incerteza e à frustração institucional acumulada desde o estallido social de 2019. A eleição expressa menos uma conversão ideológica coletiva e mais um deslocamento das prioridades do eleitor mediano, catalisado pelo retorno do voto obrigatório, pela centralidade da segurança pública e pela sensação difusa de que o Estado perdeu capacidade de controle.
Este artigo sustenta uma tese central: a vitória de Kast é produto de um realinhamento estrutural, onde quatro fatores se reforçam mutuamente economia política, segurança e capacidade estatal, fragmentação partidária e geografia do voto sob obrigatoriedade.
Um erro recorrente nas análises pós-eleitorais é olhar apenas para indicadores macroeconômicos. Inflação sob controle relativo, recuperação parcial do crescimento ou melhora fiscal não garantem apoio político quando o eleitor percebe deterioração no custo de vida cotidiano, na segurança do emprego e no horizonte de previsibilidade.
No Chile de 2025, a variável decisiva foi a economia percebida, não a economia estatística. O eleitor avaliou o governo Boric de forma retrospectiva, perguntando não “o que foi prometido?”, mas “minha vida está mais segura e previsível do que antes?”. A resposta dominante foi negativa.
Esse mecanismo, conhecido na literatura como retrospective voting, penaliza incumbentes em contextos de incerteza. Mesmo políticas socialmente progressistas perdem tração quando são percebidas como parte de um ciclo de instabilidade.
Após dois processos constitucionais fracassados, grande parte do eleitorado passou a associar mudança estrutural a risco. Não houve rejeição automática à redistribuição ou ao Estado social, mas aversão à ideia de reinvenção permanente do país. O Chile entrou num momento em que o eleitor aceita reformas apenas se elas forem percebidas como graduais, tecnicamente sólidas e politicamente controláveis.
Nesse contexto, Kast não venceu por apresentar um programa econômico detalhado, mas por sinalizar previsibilidade, disciplina e ruptura com o ciclo de experimentação institucional. A mensagem foi simples: menos debate sobre o que o Chile deve ser e mais foco em fazê-lo “funcionar”.
A segurança pública não venceu a eleição apenas porque os índices de criminalidade cresceram, embora tenham crescido de forma relevante, com aumento expressivo de homicídios e sequestros nos últimos anos. O fator decisivo foi a visibilidade do crime e a sensação de perda de controle territorial.
O eleitor não votou em estatísticas; votou na ideia de que “o Estado já não manda”. Esse sentimento é politicamente explosivo. Quando se instala, desloca todas as outras pautas, inclusive econômicas e sociais.
Kast soube explorar esse deslocamento com precisão. Sua campanha construiu issue ownership sobre segurança, associando criminalidade, migração irregular e fraqueza estatal numa mesma narrativa.
A migração, especialmente no norte do país, tornou-se uma experiência cotidiana, não um debate abstrato. Pressão sobre serviços públicos, informalidade, conflitos urbanos e associação, correta ou não, com crime organizado transformaram a fronteira em símbolo nacional.
Aqui, a política opera por atalhos cognitivos. O eleitor não distingue política migratória, cooperação regional e capacidade administrativa. Ele quer ver controle. Propostas de deportação, militarização e endurecimento de fronteiras têm alto retorno simbólico imediato, mesmo que sua implementação seja limitada.
O problema começa após a vitória. Segurança não se entrega por discurso, mas por capacidade estatal: polícia, investigação, sistema judicial, prisões, coordenação federativa e gestão territorial. Sem isso, a política de “mão dura” vira teatro.
O novo governo enfrenta um dilema clássico: quanto mais promete soluções rápidas, maior o risco de frustração. Prisões sem condenação, prisões superlotadas e militarização sem inteligência podem fortalecer o crime organizado no médio prazo, fenômeno amplamente documentado na América Latina.
Apesar da vitória expressiva no segundo turno, Kast não conquistou maioria legislativa automática. O Congresso chileno permanece fragmentado, com Senado dividido e uma Câmara altamente volátil.
Esse é o ponto onde leituras plebiscitárias falham. Mandato eleitoral não equivale a capacidade governativa. O Chile possui múltiplos veto players, e reformas estruturais dependem de coalizões negociadas.
O Partido Republicano cresceu, mas não o suficiente para governar sozinho. Isso cria um paradoxo: a base exige coerência ideológica; a governabilidade exige moderação. Cada concessão ao centro amplia capacidade legislativa, mas desgasta a identidade do projeto.
O resultado provável é um governo que entrega mais por via administrativa e orçamentária do que por grandes reformas legislativas, ao menos no curto prazo.
A coalizão que deu 58% a Kast é ampla, heterogênea e circunstancial. Inclui eleitores avessos ao risco, setores populares preocupados com segurança e classes médias cansadas de instabilidade. Essa coalizão não se traduz automaticamente em apoio contínuo.
O eleitor obrigatório, que entrou com força nessa eleição, cobra resultados e pune rapidamente frustrações. O discurso de que “o Congresso não deixou” tem eficácia limitada junto a esse público.
O retorno do voto obrigatório não apenas aumentou a participação, alterou radicalmente quem decide. Entrou em cena um eleitor menos ideológico, menos militante e mais orientado por desempenho.
Esse eleitor é mais sensível a temas concretos: crime, serviços públicos, custo de vida. Ele tem baixa tolerância à instabilidade e pouca paciência com debates identitários abstratos.
Regiões do Norte, especialmente fronteiriças, funcionaram como amplificadores da agenda de segurança e migração. O que era vivido localmente foi nacionalizado como ameaça futura.
Esse mecanismo de difusão territorial do medo é conhecido na literatura: problemas localizados, quando associados à incapacidade estatal, tornam-se argumentos nacionais.
Kast venceu em todas as regiões no segundo turno, mas isso não significa apoio uniforme. Significa que sua narrativa conseguiu atravessar clivagens territoriais distintas, adaptando-se a medos locais variados.
Essa amplitude é politicamente poderosa, mas frágil. Se a promessa central, controle e ordem, falhar em regiões específicas, a erosão começa exatamente onde a expectativa foi mais alta.
A eleição chilena de 2025 não encerra um ciclo; inaugura um período de teste contínuo da capacidade estatal. Kast venceu porque soube ler o humor social, mas governará sob condições institucionais restritivas e expectativas elevadas.
Se entregar redução perceptível do crime, estabilidade econômica cotidiana e alguma previsibilidade institucional, pode consolidar uma nova hegemonia. Se falhar, a mesma coalizão que o elegeu pode se desfazer rapidamente.
A lição mais ampla é regional: quando segurança e medo se tornam centrais, a política muda de eixo. Não é o fim da agenda social, mas sua subordinação a uma pergunta mais básica: o Estado ainda é capaz de proteger?
No Chile de 2025, essa pergunta decidiu a eleição. A resposta, agora, será dada no governo.
Pedro Henrichs é Cientista Político e Gestor Público. Ex-presidente do Fórum de Juventude dos BRICS e observador eleitoral há 15 anos.
