Por Tassiana Moreira, Fernanda Issa Bottini e Yuri Santos Ferreira

A Região Metropolitana de Campinas (RMC) tem sido palco da especulação imobiliária, que avança sobre áreas rurais e agrícolas.

Os diversos condomínios de alto e médio padrão que vêm sendo construídos têm reforçado a segregação socioespacial, desrespeitado acordos ambientais e intensificado a gentrificação de espaços periurbanos.

Nesse contexto, em abril de 2018, famílias organizadas no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam a Fazenda Eldorado Empreendimentos Imobiliários, em Valinhos (SP), conformando o Acampamento Marielle Vive.

Este visa denunciar o uso improdutivo e especulativo da terra e reivindicar a constituição de um assentamento rural que desenvolva produção rural dentro dos princípios da agroecologia, proteja o meio ambiente e gere renda e segurança habitacional às famílias.

A área, próxima à cidade, possibilita um modelo de assentamento que sirva como fornecedor de verduras e hortaliças saudáveis, sem veneno, com venda direta para o consumidor final e baixo custo de transporte.

O Acampamento Marielle Vive vem construindo uma forma coletiva, ambiental e socialmente sustentável de organização e uso dos espaços e dos recursos.

Constrói e garante às famílias os direitos que o Estado se ausenta de proporcionar.

Assim, a Cozinha Coletiva, o setor de Saúde, a Escola Popular Luís Ferreira, a Ciranda Infantil, atividades culturais e outras iniciativas são uma forma do MST de garantir o bem-estar das famílias acampadas a partir da organização interna e protagonismo popular.

Trabalho, renda e organização das mulheres

É importante destacar que, no que diz respeito a questões de trabalho e geração de renda, as pessoas acampadas enfrentam uma série de dificuldades para além das já conhecidas pela população periférica da RMC.

A condição de acampado/a significa a impossibilidade de acessar políticas públicas para reforma agrária e agricultura familiar, o que dificulta o investimento na produção, a estruturação do lote, o beneficiamento dos produtos, entre outros.

Como demonstrado por Moreira (2023, p. 65), predominam entre os acampados e acampadas empregos informais, subempregos e o desemprego e, entre as mulheres, o trabalho não remunerado.

Assim, a partir da necessidade de geração de renda para mulheres, surge a iniciativa de criar uma associação de mulheres, tendo como objetivo a comercialização de produtos confeccionados por elas no acampamento.

O coletivo, denominado “As Marielles”, vai completar oito anos de existência e cumpre um papel importantíssimo no território.

Para além de tentar superar as dificuldades materiais, a organização promove formações e rodas de conversa pautadas em questões como as lutas pelos direitos das mulheres e conscientização sobre violências de gênero.

“As Marielles” participam de feiras e eventos relacionados à Reforma Agrária Popular, realizando venda de produtos produzidos coletiva e individualmente.

No entanto, a constante ameaça de despejo, juntamente com graves limitantes estruturais — como falta de água encanada, de tratamento de esgoto e de energia elétrica — e a impossibilidade de acesso às políticas públicas do governo para reforma agrária dificultam o bom funcionamento das iniciativas sociais dentro do acampamento.

Essa situação impacta no acesso e possibilidade de investimentos produtivos e em bens de capital — como bens permanentes em produção agrícola de colheita a médio e longo prazo, na construção de agroindústrias, sede fixa e estruturada de cooperativa, entre outros.

O trabalho artesanal de costura das mulheres do coletivo, por exemplo, é dificultado pela ausência de energia elétrica, necessária para a utilização de máquinas de costura que acelerariam o processo de fabricação dos produtos e levaria a um aumento de produtividade do trabalho, bem como da renda conquistada por essas mulheres.

A falta de água encanada e potável dificulta o bom funcionamento da Cozinha Coletiva, bem como o processamento dos alimentos produzidos no acampamento — dentre eles, geleias, conservas e compotas produzidas pelas “As Marielles”, que geram um aumento do valor agregado dos produtos agrícolas através do beneficiamento.

Apesar das dificuldades, os/as moradores/as do Acampamento insistem em se manter no enfrentamento e em desenvolver suas atividades.

As produtoras carregam morro acima galões de água potável trazidos pelos caminhões-pipa para cozinhar.

A máquina de costura elétrica é substituída pela máquina a pedal.

E assim o coletivo caminha, porque é preciso.

Nesse caso, como em tantos outros, são as mulheres as protagonistas dessas ações orientadas pela luta no presente e pelo sonho de um futuro menos árido.

A visita periódica do caminhão-pipa para a distribuição de água foi uma importante conquista dessa organização.

Como muitas experiências Brasil afora têm nos mostrado, a luta nas periferias não abre mão desse entrelaçamento entre presente e futuro, recusando-se a aceitar a miséria do possível e buscando sempre alargar o horizonte.

O esforço individual e as ações coletivas mostram a importância fundamental da organização popular, tanto para a melhoria da qualidade de vida imediata quanto como forma de exigir políticas públicas e mudanças estruturais na sociedade brasileira, como a reforma agrária. 

Tassiana Moreira é socióloga, extensionista da ITCP/Unicamp, doutoranda em Sociologia (IFCH/Unicamp) e militante do MST/SP.

Fernanda Issa Bottini é graduanda em Economia da Unicamp e extensionista da ITCP/Unicamp.

Yuri Santos Ferreira é graduando em História da Unicamp e estagiário da PROEEC/Unicamp.


Este artigo é resultado artigo são resultado da parceria do INCT Participa com o projeto Reconexão Periferias, da Fundação Perseu Abramo.