Flávio Bolsonaro tem usado a estratégia que o bolsonarismo costuma chamar de controle de danos. Primeiro, busca se afastar da crise que abriu dentro da própria família ao romper com Michelle e ver sua rejeição entre mulheres disparar.
Em seguida, tentou se apresentar como defensor do Pix, justamente depois de ter levado a Washington uma proposta que colocava o sistema brasileiro de pagamentos no centro de uma negociação com o governo de Donald Trump.
A manobra revela menos uma defesa da soberania nacional do que o medo de pagar a conta política do próprio entreguismo. Flávio não foi aos Estados Unidos para proteger o Brasil da pressão externa. Foi para negociar com a Casa Branca o calendário do desgaste.
Pediu que a decisão sobre a tarifa de 25% contra produtos brasileiros fosse suspensa por 180 dias, ou seja, empurrada para depois da eleição presidencial de outubro. Ao mesmo tempo, tentou aliviar as preocupações de Washington com o Pix sugerindo que o sistema não fosse integrado a redes de pagamento transfronteiriças consideradas “não ocidentais”.
O resultado é uma cena difícil de disfarçar: o pré-candidato da extrema direita pede ajuda a Trump para reverter o impacto político de uma ofensiva que favorece interesses dos Estados Unidos, mas tenta vender a operação como gesto de defesa do Brasil. É o viralatismo em sua forma mais explícita. O aliado estrangeiro ameaça setores da economia brasileira, mira um sistema público, gratuito e popular como o Pix, e Flávio responde oferecendo acomodação política, concessão estratégica e prazo eleitoral.
A contradição se soma à crise doméstica. Enquanto tenta recompor a imagem entre mulheres após o rompimento com Michelle, Flávio também tenta recompor a imagem diante do país depois de ser associado à pressão americana contra o Brasil.
Nos dois casos, o roteiro é parecido: ele trabalha para criar o problema, mede o prejuízo nas pesquisas e depois aparece como se estivesse tentando resolvê-lo. O “defensor do Pix” é o mesmo que levou o Pix à mesa de negociação com Trump. O “anti-machista” de última hora é o mesmo que perdeu a principal ponte do bolsonarismo com o voto feminino conservador.
O bombeiro do próprio incêndio
A carta enviada por Flávio Bolsonaro ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, veio a público quando a posição subordinada do pré-candidato aos interesses de Washington já não era segredo. Semanas antes, em discurso à extrema direita americana, ele havia vendido o Brasil como solução estratégica para os Estados Unidos reduzirem a dependência da China em minerais críticos, especialmente terras raras.
Agora, o problema é outro. A tarifa de 25% proposta pelo governo Trump contra produtos brasileiros virou um risco eleitoral para a candidatura bolsonarista. A investigação americana foi aberta com base na Seção 301 da legislação dos Estados Unidos, instrumento usado para acusar outros países de práticas comerciais consideradas injustas. No caso brasileiro, Washington incluiu temas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.
O Pix entrou no alvo porque incomoda justamente aquilo que funciona no Brasil sem pedir licença às grandes operadoras financeiras. O sistema de pagamentos instantâneos, criado pelo Banco Central, tornou-se parte da vida cotidiana de trabalhadores, pequenos comerciantes, autônomos, famílias de baixa renda e empresas de todos os tamanhos.
É rápido, gratuito para pessoas físicas, acessível e nacional. Em outras palavras, é uma infraestrutura pública bem-sucedida. Para as gigantes de cartão e para setores do sistema financeiro americano, esse é exatamente o problema.
Segundo a Reuters, o USTR trata o Pix como ameaça a empresas como Visa e Mastercard. Flávio percebeu tarde que defender os interesses de Washington contra um sistema usado por milhões de brasileiros talvez não fosse uma boa ideia para quem pretende disputar votos no Brasil. Na audiência pública em Washington, tentou corrigir a rota e afirmou que o Pix “não é um problema a ser corrigido, é uma solução”.
Mas a frase chega depois do ato. Antes de posar como defensor do sistema, Flávio havia sugerido uma legislação para impedir que o Pix se conectasse a arranjos internacionais de pagamento fora do circuito ocidental. Na prática, ofereceu aos Estados Unidos um limite político à expansão do sistema brasileiro, justamente para reduzir a irritação americana. O recuo não apaga a proposta. Só torna a encenação mais evidente.
O Pix no balcão de Trump
O Pix não é um detalhe técnico. É um dos raros casos em que uma política pública brasileira se tornou eficiente, popular e cotidiana a ponto de virar símbolo nacional. Lançado em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro, o sistema foi desenvolvido pelo Banco Central e rapidamente ultrapassou meios tradicionais de pagamento. Segundo a Reuters, já alcança mais de 170 milhões de usuários e se consolidou como o principal meio de pagamento no país.
Por isso a tentativa de enquadrá-lo como “barreira comercial” soa tão reveladora. O incômodo não está apenas no Brasil ter criado uma ferramenta eficiente. Está no fato de a ferramenta reduzir custos, diminuir a dependência de intermediários privados e abrir a possibilidade de integrações financeiras que não passem, necessariamente, pelo dólar ou pelas empresas americanas de cartão.
É nesse ponto que o discurso de soberania da extrema direita desaba. O mesmo grupo político que passou anos tentando se apropriar da popularidade do Pix agora se mostra disposto a limitar sua expansão para tranquilizar Washington. O bolsonarismo, que vive de posar de patriota diante da própria base, não hesita em tratar uma conquista brasileira como moeda de troca quando o interesse de Trump aparece do outro lado da mesa.
Lula respondeu ao movimento chamando a proposta de tentativa de entregar o Pix a interesses estrangeiros. “Não conseguirão. Pix é uma conquista brasileira e não abriremos mão dele”, afirmou. A reação recolocou a disputa no terreno em que Flávio menos queria: o da soberania nacional.
A campanha bolsonarista entendeu o perigo. O Pix é concreto demais para caber em cortina de fumaça. Está na feira, no comércio de bairro, no pagamento do aluguel, na transferência entre familiares, no trabalho autônomo, na conta dividida, no pequeno empreendedor que não quer perder parte da venda para uma máquina de cartão. Mexer no Pix não é mexer em uma abstração financeira. É encostar no bolso de quem usa o sistema todos os dias.
A tarifa como cálculo eleitoral
A tentativa de Flávio de adiar a tarifa por 180 dias é, por si só, uma confissão política. O senador não pediu apenas que os Estados Unidos reconsiderassem a medida por seus efeitos sobre empresas, empregos e exportações brasileiras. Pediu que o calendário fosse empurrado para depois da eleição. O argumento central não foi o Brasil. Foi a campanha.
Segundo a Reuters, Flávio alertou autoridades americanas de que, em 90 dias, o cenário político brasileiro poderia estar completamente diferente. Em português claro: pediu a Trump que esperasse a eleição antes de aprofundar uma medida que poderia fortalecer Lula e destruir a narrativa bolsonarista.
Aí está o ponto. Flávio não rompeu com Trump para defender o Pix. Tentou ajustar a subserviência para que ela custasse menos votos. O pedido de adiamento revela que o problema, para ele, não é a agressão à economia brasileira, nem a pressão contra um sistema público nacional. O problema é que o eleitor percebeu.
A proposta americana de tarifa tem impacto sobre setores exportadores e ameaça empregos em cadeias produtivas brasileiras. Parte dos produtos de maior peso ficou fora da lista, como café, carne, terras raras, energia e peças de aeronaves, mas outros setores seguem vulneráveis. A indústria, o agronegócio e entidades comerciais passaram a se mobilizar contra a medida. Flávio, que buscava apoio político em Washington, agora tenta não aparecer como coautor do prejuízo.
O governo federal, por sua vez, tem buscado uma saída diplomática sem abrir mão do Pix. A posição do Planalto é que o sistema de pagamentos instantâneos não será entregue como compensação a empresas financeiras estrangeiras. O Brasil pode negociar comércio, tarifas e termos técnicos, mas não pode aceitar que uma ferramenta pública, construída pelo Estado brasileiro e apropriada pela população, seja tratada como obstáculo aos interesses de Visa, Mastercard ou da Casa Branca.
Michelle como termômetro da candidatura
A crise com Michelle Bolsonaro mostra que o problema de Flávio não está apenas em Washington. Está dentro de casa. A saída da ex-primeira-dama do comando do PL Mulher, após acusar o enteado de desrespeito e de tentar afastá-la das decisões partidárias, abriu uma ferida no ponto mais sensível da candidatura: o voto feminino.
Michelle era uma peça estratégica para o bolsonarismo. Falava com mulheres conservadoras, evangélicas e de baixa renda, segmentos em que Jair Bolsonaro sempre enfrentou resistência. Sua função política era suavizar a imagem agressiva do clã e oferecer um verniz de cuidado, fé e família a um projeto marcado por violência verbal, misoginia e autoritarismo. Ao romper com Flávio, ela retirou da campanha uma ponte que o senador não conseguiu construir sozinho.
Segundo a jornalista Daniela Lima, do UOL, pesquisas diárias de tracking da campanha apontaram que a rejeição a Flávio entre mulheres saltou de 45% para 55% em um curto período. No mesmo segmento, Lula aparece com vantagem ampla, em torno de 43%, contra 24% de Flávio. A Reuters também registrou que o racha familiar expõe a dificuldade da direita brasileira em dialogar com mulheres e ameaça a estratégia eleitoral do senador.
A sequência é didática. Primeiro, Flávio perde Michelle. Depois, tenta se afastar de aliados que verbalizam a misoginia estrutural do bolsonarismo. Em seguida, anuncia medidas duras contra feminicídio. O roteiro é o mesmo do Pix: cria ou alimenta o problema, percebe o dano e tenta vestir uma fantasia corretiva. No caso das mulheres, a fantasia é a do candidato “anti-machista”. No caso do Pix, a do candidato “patriota”.
Nenhuma das duas veste bem.
O patriotismo de ocasião
A candidatura de Flávio Bolsonaro vive uma contradição difícil de administrar. Para falar com sua base extremista, precisa continuar colada a Trump, ao bolsonarismo internacional e à retórica de guerra cultural. Para tentar vencer a eleição, precisa fingir moderação, defender mulheres, proteger o Pix, falar em emprego, indústria, soberania e vida concreta. O problema é que cada tentativa de moderar o discurso revela o tamanho da dependência anterior.
O caso do Pix é exemplar porque tira a discussão do campo abstrato da política externa e a coloca dentro do cotidiano brasileiro. Não se trata apenas de Trump, Rubio, USTR ou Seção 301. Trata-se de saber se um candidato à Presidência do Brasil está disposto a limitar uma infraestrutura nacional para agradar ao governo americano. Trata-se de saber se a soberania, para a extrema direita, vale alguma coisa quando entra em conflito com os interesses de Washington.
O mesmo vale para Michelle. A crise familiar não é fofoca de bastidor. É termômetro político. Mostra a dificuldade de Flávio em herdar o capital simbólico do pai, manter unido o clã, controlar o PL, dialogar com mulheres e parecer candidato nacional. O bolsonarismo sempre operou como família, seita e máquina eleitoral. Quando a família racha, a máquina range. Quando Michelle sai de cena, a candidatura perde uma das poucas vozes capazes de falar com um eleitorado que não aceita ser tratado apenas como figurino de campanha.
Flávio tenta agora defender o Pix, defender as mulheres, defender a economia brasileira e defender a si mesmo das próprias escolhas. Mas a sucessão dos fatos deixa pouco espaço para dúvida. O pré-candidato não está se reinventando. Está recuando. Não está rompendo com Trump. Está pedindo prazo. Não está defendendo a soberania. Está tentando reduzir o custo eleitoral de tê-la colocado no balcão.
O viralatismo sempre foi vendido pelo bolsonarismo como alinhamento civilizatório. Agora aparece como aquilo que é: subserviência com cálculo eleitoral. E, quando o cálculo dá errado, sobra ao candidato tentar convencer o país de que não foi ele quem acendeu o incêndio.
