João Bosco chegou aos 80 anos no dia 13 de julho fazendo o que sempre fez de melhor: torcendo o samba até ele se encontrar com o jazz, o rock, as matrizes afro-brasileiras e a imprevisibilidade de seu violão. Lançado dez dias antes do aniversário, Horda passa longe do tom solene geralmente reservado às celebrações de carreira. O disco mostra um artista interessado no que ainda pode inventar.
Gravado ao vivo em Hamburgo, na Alemanha, com a NDR Bigband, o álbum reúne 12 faixas e retoma uma parceria antiga de João Bosco com a orquestra alemã. Desta vez, os arranjos e a regência ficaram a cargo do trombonista brasileiro Rafael Rocha, que encontrou espaço para os metais sem reduzir o violão, a voz e os ruídos vocais do compositor mineiro a meros acompanhantes.
Mais um mineiro carioca
Quem mora no Rio de Janeiro provavelmente conhece o abricó-de-macaco, mesmo que não ligue o nome à “pessoa”. Nativa da região amazônica, a árvore está espalhada por ruas e praças da cidade e chama atenção pelos frutos grandes que brotam diretamente do tronco. É ela que batiza a música escolhida para abrir Horda.
Composta por João e Francisco Bosco, “Abricó-de-macaco” apresenta imagens soltas, cheiros, sabores, bichos e cenas urbanas, sem se transformar em exercício nostálgico. O tempo de João Bosco parece continuar sendo o presente. Há até espaço para um baile funk no verso “Baile de favela, grave de caixa de som/Ela desce até o chão”.
A citação não surge como tentativa forçada de parecer jovem. É mais um sinal da curiosidade que acompanha uma carreira com mais de cinco décadas e cerca de 40 discos. João Bosco nunca abandonou as bases que formaram sua música, mas também nunca ficou muito confortável dentro delas. Seu samba sempre esteve disposto a absorver outros ritmos, desmontar compassos e voltar diferente.

Uma horda de sons
Na faixa-título, com mais de sete minutos e meio, essa liberdade aparece em estado bruto. Voz, violão e orquestra avançam juntos, entre interrupções, mudanças de andamento e ruídos que sugerem o deslocamento de uma multidão. O canto ora conduz a música, ora funciona como instrumento de percussão. É o território particular de João Bosco, onde uma sílaba pode valer tanto quanto um acorde.
A NDR Bigband não serve como moldura luxuosa para um repertório consagrado. Os arranjos reposicionam as canções e ampliam suas tensões. “Incompatibilidade de gênios” ganha uma introdução conduzida pelo piano de Florian Weber antes de cair no samba. “Sinhá”, parceria com Chico Buarque, recebe um prelúdio de inspiração erudita. “Caça à raposa” e “Transversal do tempo” reaparecem em versões que preservam o peso político das composições sem tentar reproduzir as gravações originais.
O baterista Kiko Freitas, parceiro habitual de João Bosco, ajuda a sustentar a conversa entre o balanço brasileiro e a massa sonora da orquestra. Em vez de disciplinar o compositor, a big band acompanha suas curvas. O resultado escapa daquela MPB excessivamente arrumada, que parece exigir silêncio e roupa social até de quem está ouvindo.
Essa desenvoltura para brincar com os sons vem de longe. Aos 12 anos, João Bosco queria mesmo era ser roqueiro. Montou uma banda inspirado por nomes como Elvis Presley e Little Richard. Depois foi estudar engenharia em Ouro Preto, onde tocava em bares, conheceu artistas e intelectuais e se aproximou da bossa nova.
O encontro com Vinicius de Moraes abriu caminho para as primeiras parcerias. Já instalado no Rio de Janeiro, João Bosco conheceu o psiquiatra e letrista Aldir Blanc. Os dois começaram a compor por correspondência, trocando músicas e letras antes mesmo de se encontrarem pessoalmente.
A música depois de Aldir
Com Aldir, João Bosco formou uma das duplas fundamentais da música brasileira. A parceria deu origem a canções como “O bêbado e a equilibrista”, “O mestre-sala dos mares”, “Kid Cavaquinho”, “De frente pro crime”, “Dois pra lá, dois pra cá” e “Incompatibilidade de gênios”.
As músicas reuniam sofisticação melódica, humor, personagens das ruas e comentários políticos que precisavam atravessar a censura da ditadura. Em “O mestre-sala dos mares”, homenagem a João Cândido e à Revolta da Chibata, a dupla teve de substituir expressões e alterar até o título para conseguir a liberação da canção.
Quando Aldir morreu, em 2020, vítima da covid-19, João Bosco disse que não existia João sem ele, mas que continuaria cantando para homenagear o parceiro. Desde então, as canções dos dois seguem presentes nos shows e nos discos, sem que o compositor tenha interrompido a busca por novas parcerias.
Depois de Horda, João Bosco ainda lançará em 2026 o álbum comemorativo Amigos Novos e Antigos. A primeira parte, com seis músicas, chega às plataformas em 31 de julho. O projeto completo terá 17 faixas e lançamento previsto para 25 de setembro, com participações de artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Zeca Pagodinho, Mart’nália, Hamilton de Holanda, Ivete Sangalo e Anitta.
A turnê João Bosco 80 Anos começa em agosto e deve percorrer diferentes cidades brasileiras até novembro. Entre novos encontros, grandes formações e velhos parceiros, o compositor chega à oitava década sem transformar a própria obra em peça de museu. Em Horda, ela continua em movimento.
Serviço
Horda, de João Bosco e NDR Bigband
Lançamento: 3 de julho de 2026
Formato: álbum digital e CD
Faixas: 12
Duração: 1h10
Gravação: Hamburgo, Alemanha, em julho de 2025
Arranjos e regência: Rafael Rocha
Participações: Kiko Freitas, na bateria, e Florian Weber, no piano
Selo: Enja Records/Enja Yellowbird
Disponível nas principais plataformas digitais
