Deputado da Câmara italiana desde 2022 e porta-voz da Europa Verde, Angelo Bonelli construiu sua trajetória política ligada à pauta ambiental. Nascido em Roma, foi conselheiro regional e responsável pela área de meio ambiente no Lácio, além de ter exercido mandato na Câmara dos Deputados entre 2006 e 2008. Em 2022, liderou a Aliança Verdes e Esquerda nas eleições gerais italianas.

Bonelli ficou mais conhecido no Brasil após denunciar às autoridades italianas o paradeiro de Carla Zambelli em Roma. A então deputada federal bolsonarista estava foragida desde junho de 2025, após ter sido condenada por articular uma invasão digital ao sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Na ocasião, o parlamentar relatou ter recebido informações sobre o endereço da foragida e repassado à polícia de Roma, diante de um alerta pendente da Interpol, e que teria cumprido seu dever de cidadão.

Na conversa com a Focus Brasil, Bonelli não poupa críticas ao governo de Giorgia Meloni. Classifica como “vergonha” as restrições impostas pela Itália aos cidadãos espanhóis durante a crise de Ceuta e afirma que a extrema direita usa a imigração como cortina de fumaça para não enfrentar os problemas econômicos e sociais do país. Também critica o que chama de “falta de visão política” da presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e defende uma grande aliança mundial das forças progressistas contra as guerras e o negacionismo climático.

O deputado avalia ainda o cenário das eleições italianas, previstas para novembro de 2027, e aposta na união entre o Partido Democrático, o Movimento Cinco Estrelas e a Aliança Verdes e Esquerda como caminho para derrotar a extrema direita. “Estamos trabalhando para conectar uma força de centro moderada e podemos chegar aos 45% e ganhar a próxima eleição”, projeta.

Na entrevista a seguir, imigração, fake news, crise climática, União Europeia e eleições italianas aparecem como eixos de uma mesma preocupação: a defesa da democracia frente ao avanço da extrema direita.

Qual é a maior batalha em curso hoje na Europa: imigração ou fake news?

Na Europa, há hoje um grave problema: a onda da extrema direita que está influenciando os governos da Europa, da Alemanha, da França e da Itália. A imigração é um instrumento para afetar a Europa, pois alimenta o medo na população. Por exemplo, na Itália, o governo de Giorgia Meloni não consegue apresentar soluções ao problemas sociais, temos um grave problema de falta de investimento público na saúde pública. A Europa não consegue encontrar solução para as questões sociais;  há um sério problema econômico na Itália; falta investimento público em saúde. E o que a extrema direita está fazendo não só na Itália, mas também na Europa? Falando de imigração, para não precisar falar sobre outras questões, como a crise econômica e social, a guerra e outros tantos assuntos.

Com relação à crise de Ceuta como o senhor analisa o comportamento da Itália em relação à Espanha? O que o senhor pensa sobre as restrições que a Itália impôs aos cidadãos espanhóis?

O que o governo de extrema direita de Giorgia Meloni fez eu posso descrever somente com uma palavra: vergonha. É uma vergonha, porque não existe uma emergência. Primeiro, porque Ceuta não está no território europeu, está no território africano. Segundo, porque o emigrado não chega de avião nem com bilhete. Chega de barco, e todo mundo sabe, se conhece a geografia do mundo, mas eu acho que a Giorgia Meloni não conhece a geografia – ou conhece a geografia e faz uma cortina de fumaça – a Espanha não tem fronteira com a Itália. A Espanha está muito longe da Itália; há muita propaganda e muitas fake news do governo italiano. Os dados mostram que a Grécia é o país com a maior presença ou a maior chegada de imigrantes da África, há 55% mais casos; já o lugar com menor afluxo de imigrantes em 2026 é a Espanha. 

O que aconteceu em Ceuta é um fato extraordinário. Eu acho que houve uma operação política, porque, de repente, um belo dia, as fronteiras do Marrocos foram abertas e todo mundo passou. A polícia do Marrocos não estava, não havia nenhuma vigilância, parece que tudo preparado. Então, por que eu acho que a Giorgia Meloni está fazendo isso? Ela está fazendo isso porque está em dificuldade política e eleitoral, ela precisa recuperar apoio, recuperar votos. Ela agora está lançando um novo fenômeno chamado [Roberto] Vannacci. Ele é um ex-oficial das Forças Armadas italianas que fundou um movimento de extrema extrema direita e agora está conquistando muitos votos dos apoiadores de Giorgia Meloni, com uma campanha para não perder a próxima eleição na Itália.

Como o senhor interpreta a fala da presidenta da União Europeia de que “a União Europeia tem de adaptar os sistemas de proteção civil a um mundo de emergências cada vez mais frequentes”? Isso é suficiente? A UE não poderia fazer mais?

O problema da União Europeia quanto à crise climática é também a extrema direita, porque a extrema direita está interrompendo todas as políticas sobre o clima já que ela representa o interesse econômico dos petroleiros, das empresas energéticas. Portanto, embora a política climática da Europa seja muito avançada, ela agora está suspensa. Está paralisada porque a própria [Ursula] von der Leyen tem problemas na Alemanha, ja que há um avanço eleitoral na Alemanha da Alternative für Deutschland (AFD), que é um partido de extrema direita, que é negacionista climático e nega a mudança climática. Também na Itália, o problema que nós temos aqui na Europa é fazer uma grande aliança para defender a política climática, porque hoje há um calor muito, muito forte,  esse é um problema muito sério. A mudança climática está aumentando as desigualdades sociais, especialmente entre as pessoas mais pobres. É preciso defender as políticas climáticas da Europa, mas o problema é que a extrema direita quer interrompê-las. Eu acho que isso, além de criminoso, é irresponsável.

Na semana passada, a Islândia rejeitou, em referendo, a retomada das negociações de adesão à União Europeia. Na sua avaliação, a União Europeia está enfraquecida no cenário mundial? E por que isso tem acontecido?

Eu acho que há uma falha, há uma ausência de uma proposta política da Europa. Porque agora a proposta política da Europa é comprar mais armas, promover a guerra, e não fortalecer uma política da paz, essa é a grande questão. O referendo na Islândia tem duas questões: a primeira é manter a neutralidade da Islândia. A segunda é uma questão econômica, você sabe que na Islândia há uma grande economia da pesca e há um medo de que o interesse econômico da Islândia possa diminuir com a entrada na Europa. Eu acho que a atual política da von der Leyen na Europa carece de visão política do futuro. E se falta visão política do futuro, a consequência é a  dificuladade de construir uma aliança maior da Europa, também com a Islândia. Mas não é só a Islândia, é um problema que está começando a ficar estrutural, eu fico um pouco preocupado com isso.

Ainda sobre essa questão internacional, a presidenta do Conselho de Ministros da Itália, Giorgia Meloni, foi a única líder da UE que compareceu à posse de Trump. Só que a relação entre os dois foi se deteriorando e parece que se agravou de vez. Qual é a sua visão sobre esse estremecimento entre Meloni e Trump?

Independentemente, está em curso uma política internacional da extrema direita, e seu chefe é Donald Trump. Na América Latina, há o [Javier] Milei. O Brasil é um lugar que está resistindo, e  minha esperança é que continue resistindo depois do dia 5 de outubro, pois é um local muito importante. Todo mundo falou sobre a desavença entre Meloni e Trump; existe uma briga, mas o fato concreto é que a Itália, sob Meloni, tem um acordo econômico e comercial muito sólido com Trump para comprar armas estadunidenses em troca de gás; também estamos na mesma posição política quanto ao negacionismo climático e à mudança climática. Isso é muito delicado, porque estamos vivendo uma fase histórica muito extraordinária. Por que extraordinária? Porque precisamos construir uma ampla aliança social e política no mundo. Porque a influência da extrema direita, por meio de todas as plataformas tecnológicas e redes sociais, pode interferir na democracia por meio de algoritmos, afetando o resultado eleitoral. É preciso construir uma grande aliança, mas uma grande aliança mundial precisa dizer uma coisa: Chega de guerra, a guerra no mundo, a guerra na Palestina, a guerra no Irã. Chega de comprar armas para que se possa investir na luta pelo progresso e contra a fome no mundo, essa é uma questão que todas as forças progressistas do mundo precisam defender.

Qual é o cenário que o senhor desenha para a disputa eleitoral italiana no próximo ano? Existem possíveis candidatos progressistas aparecendo também?

A coisa mais importante na Itália é construir um programa que fale das questões econômicas, sociais e ambientais, da crise climática — questões que estão esquecidas pelo governo de Giorgia Meloni. Estamos trabalhando para isso. Estou positivo, estou otimista, porque a aliança do Partido Democrático, do Movimento Cinco Estrelas e da Aliança Verde e Esquerda — essas três forças — está com 41%, 42%. Estamos trabalhando para conectar uma força de centro moderada e podemos chegar a 45% e ganhar a próxima eleição. O mais importante agora é o programa eleitoral, pois a Itália precisa de mudanças. Nós temos a energia mais cara da Europa; temos muitos problemas porque a guerra e a inflação estão causando dificuldades. Mas para frente vamos ver quem pode ser esse nome, quem pode ser esse líder.