Nos últimos meses, as previsões dos cientistas alertam sobre a probabilidade de ocorrência do fenômeno El Niño em alta intensidade a partir de outubro deste ano com prevalência até o início do ano que vem. Na última quinta-feira (9), o aviso ganhou contornos ainda mais preocupantes. 

O Centro de Previsão Climática (CPC) dos Estados Unidos, vinculado à Agência Oceânica e Atmosférica Norte-americana (NOAA), divulgou que a expectativa do fenômeno atingir a categoria “muito forte” chega, agora, a 81% de chance; o último boletim apontava 63%. 

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, o que altera a circulação dos ventos e o padrão de chuvas em diferentes regiões do planeta. No contexto atual, onde as mudanças climáticas são uma realidade, há ainda a preocupação com o desequilíbrio nas temperaturas, em especial, com as ondas de calor extremo observadas no verão europeu. 

De acordo com a NOAA, o fenômeno deverá atingir um dos patamares mais intensos desde 1950. A classificação entre os níveis fraco, moderado, forte e muito forte acontece a partir da medição da temperatura do aquecimento. Por exemplo, quando as águas se aquecem em mais de dois graus acima da temperatura habitual, é considerado que o fenômeno atingiu a classificação de “muito forte” e, assim, acaba apontado como um “super El Niño”

No Brasil, as principais consequências observadas são o aumento do volume de chuvas na região Sul e as secas enfrentadas na região Norte. Entre o final de 2023 e o início de 2024, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial, foi registrado um dos cinco fenômenos mais fortes desde o início das medições.

Nesse período, o país sofreu com as enchentes no Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, e a seca histórica do Rio Madeira. As previsões dos cientistas naquele momento eram de que ocorreria um El Niño moderado e, mesmo assim, os efeitos foram destruidores, segundo o climatologista Carlos Nobre, que afirma ser necessário “estarmos ainda mais preparados para os efeitos neste ano, com as previsões de ocorrência de um El Niño categorizado como forte ou muito forte”. 

Ganhador do prêmio Nobel da Paz em 2007 junto com um grupo de cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, Carlos Nobre é um pesquisador renomado, que atualmente tem atuação no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e já dirigiu o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) e o Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST). 

Políticas Públicas 

“Não consigo lembrar de nenhum outro momento em que uma boa previsão climática, meteorológica, hidrológica foi levada muito a sério no nível dos governos e se buscou evitar os impactos, essa é a primeira vez”, afirma Nobre.  

O governo federal demandou, com um prazo de 30 dias, aos estados e municípios a apresentação de planos de enfrentamento aos efeitos do El Niño, com foco, especialmente, no combate aos incêndios florestais. 

Em um boletim oficial sobre o El Niño 2026/2027, que foi elaborado em conjunto por órgãos como Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Agência Nacional de Águas (ANA) e Defesa Civil Nacional, foi apontada também a preocupação com o aumento da umidade do solo no centro-sul do país, com maior risco de enchentes caso ocorram episódios de chuva intensa durante a primavera. 

“No caso das chuvas na região Sul, o que acontece é que muitas pessoas precisam deixar suas casas em beiras de rios, nas encostas. O deslizamento de encostas é o que mais leva à morte nos casos de chuvas excessivas, então é preciso que haja uma grande preparação. Por exemplo, o CEMADEN [Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais] faz previsões excelentes sobre essa eventos que envolvem riscos”, comenta o cientista. 

O Ministério da Saúde lançou, no fim do mês passado, um conjunto de medidas para preparar o Sistema Único de Saúde, o SUS, para os impactos de um El Niño intenso. O plano está inserido no programa AdaptaSUS com investimentos de quase R$ 10 bilhões até 2035 para aumentar a capacidade de resposta da rede pública diante de eventos climáticos extremos.

De acordo com a pasta, o programa será baseado em cinco frentes: vigilância e alertas, coordenação entre governos, comunicação com gestores e população, fortalecimento da capacidade de atendimento e reforço de medicamentos, vacinas, água potável e outros insumos. 

Consequências

Além da forte preocupação com os riscos à vida das populações das áreas afetadas, há também outros impactos, principalmente, sobre a agricultura. Um dos insumos que podem ser mais afetados é o arroz, um dos mais consumidos. Cerca de 70% da produção brasileira está concentrada no Rio Grande do Sul. No cenário global, a situação também é delicada, já que outras regiões produtoras, como o leste e sudeste asiático, estão marcadas por previsões de eventos climáticos adversos. 

Além disso, do ponto de vista da economia, as produções das principais commodities brasileiras como soja, milho, café e laranja devem ser afetadas, com queda entre 7% e 10%, segundo especialistas da Fundação Getúlio Vargas. 

Outro ponto é o risco de alta no preço da energia elétrica. Com os reservatórios das hidrelétricas mais secos em decorrência da seca e a maior demanda por energia para refrigeração, o acionamento de termelétricas a combustíveis fósseis deve aumentar nos próximos meses, encarecendo a conta de luz dos brasileiros. 

crédito: NOAA

“Nós cientistas climáticos estamos alertando sobre esses riscos há décadas, sobre a gravidade do aquecimento global e que, se nós não agirmos rápido em relação à redução dos gases do efeito estufa, vamos caminhar para um ecocídio, um suicídio ecológico do planeta, com um aumento de temperatura que vai levar a uma situação de perda dos nossos biomas, além do derretimento dos solos congelados”, destaca o climatologista. 

Neste contexto, o cientista lembra da importância do mapa do caminho para zerar o uso de combustíveis fósseis e o desmatamento, com a perspectiva de restauração dos biomas, especialmente, das florestas tropicais. “Infelizmente, ainda não atingimos o consenso, mas vamos torcer para que a COP 31 alcance esses objetivos”, completa Nobre.