Amparado por habeas corpus do STF, jovem apontado como “cérebro tecnológico” do esquema se nega a responder aos parlamentares e tem celular apreendido
Amparado por um habeas corpus concedido pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, Igor Dias Delecrode se manteve em silêncio durante sua oitiva na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, realizada nesta segunda-feira (10).
Aos 28 anos, o investigado é descrito por parlamentares como o “cérebro tecnológico” da mega-fraude que desviou bilhões de reais da Previdência Social, por meio da falsificação de assinaturas e do uso indevido de dados biométricos.
Responsável pelo desenvolvimento de um sistema que simulava o reconhecimento facial de beneficiários, Delecrode teria viabilizado a inscrição fraudulenta de 117 mil aposentados em apenas um mês.
Seu software permitia a inclusão em lote de pensionistas, incluindo o cadastro irregular de crianças — uma delas com apenas 6 anos — e até do personagem de quadrinhos Chico Bento.
Apontado como “cérebro do esquema”, Igor Delecrode usou software para burlar biometria e falsificar assinaturas
De acordo com o relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar (União Brasil-AL), o jovem figura como sócio de seis empresas de tecnologia da informação: Power BI Software Tecnologia, Engaja Soluções, Rinotec, Sanc Soluções, ICD Tec Ltda. e Clint Hub Ltda. Ao ser questionado se possuía qualificação técnica, Delecrode afirmou que “programação é apenas um hobby”.
O deputado Paulo Pimenta (PT-RS) foi enfático ao denunciar os privilégios jurídicos concedidos ao investigado:
“É a vitória da impunidade. Enquanto o povo brasileiro sofre, esses criminosos se protegem por brechas legais”, afirmou.
Pimenta também classificou Delecrode como um “milionário de Ferraris e Lamborghinis sem nunca ter trabalhado na vida, um cérebro tecnológico das organizações criminosas”.
Luxo e desigualdade à mesa da CPMI
O contraste entre a vida de luxo dos investigados e a pobreza das vítimas foi tema central da sessão. O vice-presidente da CPMI, deputado Duarte Júnior (PSB-MA), classificou como “nojento” o fato de Igor Delecrode ter comparecido ao Congresso usando um sapato da grife Hermès, avaliado em R$ 9.300.
O parlamentar relatou casos de pensionistas que perderam ações judiciais por causa de documentos forjados pelo esquema.
“Temos relatos de aposentados que entraram na Justiça para tentar reaver seu dinheiro e perderam a causa porque o magistrado considerou legítimos os documentos fraudados. Isso mostra a sofisticação do esquema e a vulnerabilidade das vítimas”, disse.
Após a sessão, Duarte Júnior voltou a criticar o cenário de desigualdade exposto pela investigação:
“É revoltante ver um jovem de 28 anos, que nunca trabalhou formalmente, usando calçados de luxo enquanto milhares de idosos passam necessidade por causa desse esquema criminoso.”

Celular apreendido e quebra de sigilo
Durante a reunião, o relator Alfredo Gaspar apresentou um requerimento, aprovado por votação simbólica, para apreensão do celular de Igor Delecrode e acesso a suas mensagens e e-mails. O aparelho, um iPhone com valor estimado em R$ 8 mil, foi apreendido, mas o investigado se recusou a fornecer a senha, por orientação de sua defesa.
Os advogados alegaram que a medida não se enquadraria nas hipóteses previstas pelo Código de Processo Penal. A presidência da CPMI, no entanto, determinou que a senha será quebrada com apoio técnico da Polícia Federal e da Polícia Legislativa.
Prazo para ressarcimento é prorrogado
O deputado Paulo Pimenta anunciou ainda a prorrogação do prazo para pedidos de ressarcimento às vítimas do esquema. Inicialmente previsto para 14 de novembro de 2025, o prazo foi estendido para 14 de fevereiro de 2026, permitindo que mais pensionistas tenham tempo hábil para apresentar suas solicitações.
Segundo dados do Ministério da Previdência Social, mais de 3 milhões de aposentados e aposentadas já receberam os valores de volta, em devoluções que somam mais de R$ 2 bilhões.
