Os trabalhos de Bárbara Tristão transitam entre a pintura, a ilustração e a animação. Formada em Artes Visuais, a artista plástica, ilustradora, arte-educadora e produtora cultural investiga temas do cotidiano e da cultura periférica, como sexualidade, identidade e autoestima.

“Busco representar os atravessamentos da vida a partir da perspectiva de uma mulher periférica LGBTQIAPN+, recriando essas narrativas com dignidade e afeto e criando espaços de pertencimento”, afirma.

Nascida em Barueri, município da Região Metropolitana de São Paulo, Bárbara fortalece a cultura das mulheres periféricas ao retratar seus corpos, experiências e espaços de convivência. “O meu trabalho fala muito sobre música e sobre como os espaços de celebração dentro da periferia me ajudaram a construir um senso de autoestima melhor”, conta.

Arte, periferia e pertencimento

Para a artista, essa produção é importante também por confrontar o imaginário construído, especialmente pelas grandes mídias, de que tudo o que acontece nas periferias está relacionado ao crime, ao sofrimento e às drogas.

“A gente tem tanta coisa boa na periferia, tanta felicidade, alegria e cultura. Antigamente, criminalizavam o samba e a capoeira; hoje, tentam fazer a mesma coisa com o funk. Por isso, a produção de artistas periféricos está muito na contrapartida dessa ideia e nos fortalece”, pontua.

Corpos que precisam ser vistos

Bárbara escolheu retratar corpos dissidentes, que não se enquadram nos padrões de beleza predominantes. A motivação, explica, nasce de uma experiência pessoal marcada pela ausência de referências.

“Essa motivação vem de um lugar muito pessoal, de dor e incômodo, porque fui gorda a vida inteira. Passei pela experiência de ser uma criança gorda e uma adolescente gorda. Hoje, sou uma mulher gorda e vivo numa época em que a magreza extrema voltou a ser valorizada”, diz.

Para ela, é essencial ampliar a representação visual de corpos que historicamente foram invisibilizados. “Nunca pude enxergar esses corpos nos filmes, na tevê e nas obras de arte. São sempre corpos brancos e quase sempre magros. Por isso, no meu trabalho, tento trazer pessoas racializadas e corpos que não aparecem na maioria dos lugares.”

Em seu trabalho educativo com crianças, a artista procura mostrar que o mundo é muito mais diverso do que aquele apresentado nas telas. “Sinto que, para a minha autoestima e o meu bem-estar, teria feito toda a diferença ver pessoas parecidas comigo nos museus, nos cinemas, nas festas e nos eventos. Eu via essas pessoas na rua, pois sempre morei na periferia e elas existem aqui, como em todo lugar. Mas a quem interessa invisibilizar essas existências?”, questiona.

Herança familiar e formação artística

Bárbara considera um privilégio ter nascido em uma família que sempre valorizou a arte. “Minha avó pintava como hobby e foi uma grande artista. Fazia esculturas com lacres de latinhas, fazia bolsas, e minha mãe herdou dela esse olhar. Apesar de nunca ter praticado, minha mãe sempre foi uma grande admiradora de obras de arte. Tenho memórias de ir a várias exposições com ela”, lembra.

A produção artística surgiu de maneira natural em sua vida. Autodidata, Bárbara começou a pintar aos 14 anos, pouco depois da morte da avó. Na época, um tio encontrou uma caixa com tubos de tinta a óleo que haviam pertencido a ela.

“Ele sabia que eu desenhava e perguntou se eu não tinha interesse em utilizar o material. Até então, eu só desenhava com lápis, mas já sabia que queria seguir carreira nessa área. A pintura impulsionou ainda mais esse desejo. A partir dessa coincidência muito feliz, comecei a pintar e nunca mais parei. Hoje, minha prática principal é a pintura e não me vejo em outro lugar.”

Trabalho coletivo e atuação cultural

Consciente de que o mercado das artes plásticas ainda é majoritariamente dominado por homens cisgêneros, Bárbara olha para a própria carreira com otimismo e aposta na construção coletiva.

“Entendo que existem muitas dificuldades no caminho, mas tento sempre me fortalecer e me conectar com outras mulheres artistas, para que possamos nos aliar. Acredito que coisas muito grandes são feitas quando a gente se articula em coletivo”, afirma.

Segundo ela, sua principal ambição é ampliar a representação de pessoas e experiências pouco vistas nos meios tradicionais. “Quero trazer o olhar do público para as coisas que não costumamos ver nas grandes mídias, de forma sensível, dentro da pintura e da ilustração.”

Bárbara é idealizadora da Feira Miliano, evento criativo voltado a artistas e empreendedores periféricos da Zona Oeste de São Paulo. Já expôs obras em instituições como a Funarte, o Museu das Favelas e a Fábrica de Cultura de Diadema, além de ter colaborado com o Sesc em feiras e oficinas criativas.

Paralelamente, atua de maneira independente, conduzindo oficinas e formações em artes visuais. Mais informações sobre o trabalho da artista estão disponíveis no perfil @trstao, nas redes sociais.